Tento mentalizar que tudo o que senti de ruim da fera fora por conta de sua aparência. Sei como é horrível, e que se basear na aparência é coisa para pessoas fúteis, mas... Caramba, os olhares que ele lançou para mim não foram fáceis de ignorar.
E ele é a Fera, talvez seja esse o motivo do meu desconforto, não é? Ele não é lá a oitava maravilha do mundo, e suas garras são afiadas demais para serem ignoradas também.
Joseph percebeu que ando pensativa demais e outro dia, antes do jantar, perguntou por que ando tão dispersa. Fiz de desentendida e mudei de assunto, pra não ter que contar a verdade. O lado ruim é que uma hora ou outra vamos ter de voltar ao castelo e jantar com o rei, como prometido. E isso me faz ter pesadelos à noite.
Mas uma coisa boa aconteceu essa semana. Vi Bella pela primeira vez, quando veio na livraria do Sr. Martinez trocar um livro que leu mais rápido que o normal. Eu fiquei limpando as prateleiras, enquanto conversavam animadamente sobre o tal livro. Parece que ela encontrou seu novo livro favorito.
Bella é linda, e enquanto a observo pelo canto do olho, mal posso acreditar que seja real. Seus cachos, presos na nuca, caem até o meio das costas em cascata. Suas roupas, velhas e um pouco manchadas, não fazem jus ao brilho que emana de seus poros, principalmente quando sorri. Suas bochechas coradas dizem por si só o quão animada e feliz está. Ela me contagia e me faz querer ler esse livro. Agora entendo porque no filme da Disney as pessoas cantam quando a veem.
Ela passa por mim, quando está saindo com um novo livro, e sorri ao me cumprimentar. Fico a observando atravessar a praça com todos os olhares voltados para ela, que finge não se incomodar e mantém o queixo erguido, até não poder mais vê-la.
— Bella é uma garota adorável. — Sr. Martinez comenta, quando volto para trás do balcão. — Assim como a senhorita, é uma das poucas meninas que leem livros, aqui nas redondezas. O próprio pai que a ensinou, e quando ela ainda mal tinha decorado o alfabeto, veio aqui, me pedir livros emprestados. Fiquei encantado, Srta. Íris, e empresto desde então.
— O pouco que vi e escutei, a Srta. Bella parece ser uma garota, realmente, adorável. — sorrio e me sento na cadeira ao seu lado.
— Nunca consegui ter mais filhos com minha esposa, e sonhávamos em ter uma menina, bem antes de Joseph. — ele explica, com um brilho nos olhos. — Quando conheci a Srta. Bella eu ficava imaginando que, se eu pudesse ter uma filha, seria como ela. Mas então a senhorita chegou, de surpresa, nos braços do meu filho e morrendo de fome. — engulo em seco, com a emoção que os olhos do homem transbordam. — Conversei com minha esposa, srta. Íris, e nós chegamos à conclusão que Deus a enviou como presente, assim como enviou Joseph para nós há dezoito anos.
— Sr. Martinez... — minha garganta fecha.
— Estou querendo dizer que — o senhor explica, vendo a pergunta em meus olhos e a dificuldade em falar. —, mesmo com pouco tempo aqui, já a vemos como parte de nossa família. Como nossa filha, se assim nos permitir. Pode ter certeza que, se fosse possível fazermos nossos filhos do jeito que sonhamos, teríamos feito a senhorita.
Sorrio e limpo minhas lágrimas com as costas das mãos, emocionada demais para dizer qualquer coisa. Sei que ele não vai me abraçar, mas apenas seu olhar amoroso e fraterno me aconchega como um grande e longo abraço.
Eu nunca tive pai, ele morreu antes mesmo de minha mãe resolver ter eu e minhas irmãs, então nunca senti falta. Eloise sempre disse que não há como sentir falta de algo que nunca teve, e eu realmente entendia o que significava.
Mas agora está sendo diferente. Eu não sabia que precisava tanto de uma figura paterna na minha vida até o momento que o Sr. Martinez contou que eu seria a filha de seus sonhos.
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O Que Os Contos Não Contam
FantasíaAyla, Eloise e Íris são trigêmeas, mas a única coisa em comum é o amor pelos livros de contos de fadas. Principalmente pelas adaptações. As três vivem em pé de guerra, sempre discordando uma da outra, mas quando Íris acha uma nova adaptação tudo mud...
