27. Íris

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Tento mentalizar que tudo o que senti de ruim da fera fora por conta de sua aparência. Sei como é horrível, e que se basear na aparência é coisa para pessoas fúteis, mas... Caramba, os olhares que ele lançou para mim não foram fáceis de ignorar.

E ele é a Fera, talvez seja esse o motivo do meu desconforto, não é? Ele não é lá a oitava maravilha do mundo, e suas garras são afiadas demais para serem ignoradas também.

Joseph percebeu que ando pensativa demais e outro dia, antes do jantar, perguntou por que ando tão dispersa. Fiz de desentendida e mudei de assunto, pra não ter que contar a verdade. O lado ruim é que uma hora ou outra vamos ter de voltar ao castelo e jantar com o rei, como prometido. E isso me faz ter pesadelos à noite.

Mas uma coisa boa aconteceu essa semana. Vi Bella pela primeira vez, quando veio na livraria do Sr. Martinez trocar um livro que leu mais rápido que o normal. Eu fiquei limpando as prateleiras, enquanto conversavam animadamente sobre o tal livro. Parece que ela encontrou seu novo livro favorito.

Bella é linda, e enquanto a observo pelo canto do olho, mal posso acreditar que seja real. Seus cachos, presos na nuca, caem até o meio das costas em cascata. Suas roupas, velhas e um pouco manchadas, não fazem jus ao brilho que emana de seus poros, principalmente quando sorri. Suas bochechas coradas dizem por si só o quão animada e feliz está. Ela me contagia e me faz querer ler esse livro. Agora entendo porque no filme da Disney as pessoas cantam quando a veem.

Ela passa por mim, quando está saindo com um novo livro, e sorri ao me cumprimentar. Fico a observando atravessar a praça com todos os olhares voltados para ela, que finge não se incomodar e mantém o queixo erguido, até não poder mais vê-la.

— Bella é uma garota adorável. — Sr. Martinez comenta, quando volto para trás do balcão. — Assim como a senhorita, é uma das poucas meninas que leem livros, aqui nas redondezas. O próprio pai que a ensinou, e quando ela ainda mal tinha decorado o alfabeto, veio aqui, me pedir livros emprestados. Fiquei encantado, Srta. Íris, e empresto desde então.

— O pouco que vi e escutei, a Srta. Bella parece ser uma garota, realmente, adorável. — sorrio e me sento na cadeira ao seu lado.

— Nunca consegui ter mais filhos com minha esposa, e sonhávamos em ter uma menina, bem antes de Joseph. — ele explica, com um brilho nos olhos. — Quando conheci a Srta. Bella eu ficava imaginando que, se eu pudesse ter uma filha, seria como ela. Mas então a senhorita chegou, de surpresa, nos braços do meu filho e morrendo de fome. — engulo em seco, com a emoção que os olhos do homem transbordam. — Conversei com minha esposa, srta. Íris, e nós chegamos à conclusão que Deus a enviou como presente, assim como enviou Joseph para nós há dezoito anos.

— Sr. Martinez... — minha garganta fecha.

— Estou querendo dizer que — o senhor explica, vendo a pergunta em meus olhos e a dificuldade em falar. —, mesmo com pouco tempo aqui, já a vemos como parte de nossa família. Como nossa filha, se assim nos permitir. Pode ter certeza que, se fosse possível fazermos nossos filhos do jeito que sonhamos, teríamos feito a senhorita.

Sorrio e limpo minhas lágrimas com as costas das mãos, emocionada demais para dizer qualquer coisa. Sei que ele não vai me abraçar, mas apenas seu olhar amoroso e fraterno me aconchega como um grande e longo abraço.

Eu nunca tive pai, ele morreu antes mesmo de minha mãe resolver ter eu e minhas irmãs, então nunca senti falta. Eloise sempre disse que não há como sentir falta de algo que nunca teve, e eu realmente entendia o que significava.

Mas agora está sendo diferente. Eu não sabia que precisava tanto de uma figura paterna na minha vida até o momento que o Sr. Martinez contou que eu seria a filha de seus sonhos.

O Que Os Contos Não ContamHistórias para pegar e não largar. Descubra agora