24. Íris

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Entramos no castelo da Fera pela porta da cozinha, recepcionados por um cheiro incrível que faz minha barriga roncar, mesmo tendo comido razoavelmente bem no almoço.

Fico estancada na porta, observando os objetos e utensílios se moverem de um lado para o outro, realizando suas obrigações. É difícil ver, e escutar, coisas que normalmente não se mexem, transbordando vida e animação. É fácil assistir aos filmes, e imaginar enquanto leio. Mas ver, com meus próprios olhos, é assustador.

Apesar de dar calafrios, eles não parecem ameaçadores. Na verdade, são bem amigáveis, e me recebem com animação. Me oferecem comida e perguntam sobre minha vida, como se quisessem ser meus amigos de infância de uma hora para a outra.

Joseph fica ao meu lado o tempo todo, e depois que comemos um pouco, levamos os livros para a grande e famosa biblioteca.

É realmente enorme, como sempre fora descrita nos contos e adaptações. Me faz lembrar da biblioteca nacional, ou a de uma faculdade estadual. É tão grande, ampla, alta e acolhedora que esqueço de tudo e fico perdida em pensamentos enquanto tento olhar para esse paraíso.

— Creio que seja amante dos livros. — escuto uma voz alta e grave atrás de mim, o que me faz dar um pulo pelo susto. Me viro e me arrependo na hora. — Com medo, princesa?

Engulo em seco e dou um passo para trás. A Fera é horrenda, com pelos marrons, grossos e compridos como juba de leão, chifres na cabeça e duas garras no meio dos dentes afiados. Não ouso desviar meu olhar, com medo demais até para respirar.

— Essa é a srta. Íris. — Joseph aparece ao meu lado e apoia sua mão nas minhas costas, me tranquilizando um pouco. — Ela está passando um tempo na minha casa. Srta, Íris, esse é o re...

— Fera. — o monstro não deixa o loiro terminar a apresentação. Eu apenas curvo um pouco minha cabeça, ainda travada de medo. E só piora, com a fera me fitando como se quisesse me devorar. — Por que não ficam para o jantar? Aposto que estão preparando uma refeição grande o suficiente para nós três.

— Seria uma honra, meu rei. — Joseph faz uma breve reverencia e continua: — Mas srta. Íris está sob tutela de meus pais, e eles pediram que não demorássemos muito. E, como o senhor sabe, a viajem dura quase uma hora.

— Entendo... É uma pena, realmente. Há tempos não tenho companhia nas minhas refeições. Insisto que venham outro dia e aproveitem a ótima comida da minha cozinha. O senhor pode informar aos seus pais que passarão a noite, assim ficarão tranquilos com a segurança dos dois.

Tomo coragem o suficiente para desviar meu olhar da fera. De seus olhos azuis que não perdem um centímetro dos meus movimentos, me medindo a cada milésimo de segundo. Ele me encara sem nenhum pudor, como se tivesse esse direito, e como se não ligasse se me sinto constrangida ou não.

Os dois continuam conversando por mais um tempo, enquanto finjo interesse pelas centenas de livros, mas escuto cada palavra de sua conversa. Eles falam sobre como está o vilarejo, o reino, com a ausência do rei, a família do Joseph e, por fim, a conversa volta a ser sobre mim.

Lanço um olhar significativo para Joseph, temendo que ele fale demais. Minha história não pode ser contata aos quatro ventos. Não quero correr riscos que podem ser evitados apenas ficando de boca fechada. Mas Joseph não me olha, e faz exatamente o que eu não queria; conta para a Fera que sei sobre sua história, e como sei.

Não tenho outra saída a não ser contar sobre o que sei, e faço o mais rápido possível. Eu não queria falar nada, não queria contar sobre mim, sobre eu ter vindo de outro lugar. Nem para Joseph eu queria ter contado, mas fiz, e ele passou para a Fera.

— Eu te pedi para não contar... — o lembro, quando estamos voltando para a estrebaria.

Consegui contornar a Fera, prometendo que contaria mais na próxima visita ao seu castelo. Foi aí que o loiro percebeu meu desconforto com a situação toda e, finalmente, nos livrou da besta. Mas agora, enquanto andamos pelos silenciosos corredores do castelo, ele parece se sentir mal por ter falado demais.

Eu não queria me sentir bem com sua aflição, mas me sinto. Preciso demostrar à ele o quão mal fiquei, quando fui jogada na parede sem nenhuma saída.

— Eu... — ele cora e evita meu olhar. — Me perdoe, srta. Íris, percebi tarde demais. Fiquei animado, achando que poderia ajudar o Rei...

— É sobre mim, sobre minha história. Ele poderia fazer alguma coisa de ruim. E ainda pode. — suspiro, pensando no que me meti. — Estou nas mãos dele, Sr. Joseph. O senhor entende o que é isso? E se ele estiver preparando uma forca para mim nesse exato momento?

Joseph volta seu olhar rapidamente para mim. — O rei não seria capaz de tal atrocidade!

— Quem pode ter certeza? — pergunto, me segurando pra não pensar em coisas piores. — Ele foi amaldiçoado por sua maldade, não duvido de nada que ele possa fazer.

O rapaz para na minha frente, também me fazendo parar, e me segura pelos ombros. Levanto meu olhar e vejo seus olhos azuis preocupados. Passei um bom tempo encarando aqueles olhos da fera, morrendo de medo, e tinha me esquecido desses, que me acalmam num segundo.

— Enquanto a senhorita estiver comigo, nada irá lhe acontecer. Tem minha palavra.

Pisco, para afastar as lágrimas que insistem em me atrapalhar a enxergá-lo, e o abraço forte, mesmo que não seja apropriado. Que se dane os modos. Não ligo de estar num corredor escuro e deserto abraçando um homem. Eu quero me sentir protegida, e essa é a única forma.

Joseph me envolve em seus braços fortes, me apertando contra ele até eu perder o ar em meus pulmões. Deixo minha cabeça repousar em seu peito e, mesmo com todas as roupas no caminho, consigo escutar as batidas aceleradas do seu coração.

Isso me acalma, e me faz o perdoar, mesmo que no fundo ainda esteja com medo da Fera, e no que ela possa fazer comigo e com as informações que tem. Eu realmente estou em suas mãos, e isso me assusta.

O Que Os Contos Não ContamOnde histórias criam vida. Descubra agora