9. Irís

441 116 66
                                        

Acordo com beijos em meu rosto. Beijos muito carinhosos para serem de minhas irmãs, apesar de que poderiam ser minha mãe, ela faria isso... Quando eu tinha dois anos de idade.

Abro os meus olhos e dou de cara com uma garota de olhos verdes e cabelos pretos cortados abaixo das orelhas. Ela me observa, sorrindo; consigo ver pelos seus olhos que me ama... Mas eu nem a conheço.

— Bom dia, meu amor. — Ela fala baixinho, como se alguém pudesse escutar. — Hoje é meu aniversário! Temos que começar nosso plano o quanto antes. Ao meio-dia eles abrirão os portões para eu ir embora. Você já deve ter saído antes mesmo disso.

Me sento na cama que eu dormia até poucos minutos atrás e não reconheço o lugar. Parece um grande quarto com várias camas, mas só nós duas estamos aqui dentro.

Eu volto a olhá-la. Uma garota linda, esguia e com olhos verdes expressivos. Ela veste roupas que eu acreditaria serem de um filme de época, mas não parece que isso aqui é um filme de época. Parece a realidade, como se tivesse entrado dentro do livro que eu estava lendo; o que é impossível.

— Está tudo bem, Íris? — ela pergunta, me estudando com os olhos atentos e preocupados — Não dirá nada?

— Quem é você? — pergunto, com a voz falhada pelo medo e nervosismo — Como vim parar aqui?

— Do que você está falando? — a garota parece tão surpresa quanto eu.

E se ela está me confundindo com outra pessoa?

— Eu não sei como vim parar aqui — levanto da cama num pulo, sibilando quando meu pé toca o chão frio. Acho um tipo de pantufa ao lado da cama e o calço. — Eu estava em casa, lendo meu livro... Não sei como vim parar aqui!

Ela se levanta, tremendo um pouco — Íris, eu realmente não estou te entendendo. Por que está agindo como se não me conhecesse?

Tem um livro de capa dura na cabeceira da cama, o pego e seguro como se fosse uma arma, mesmo não sendo. A garota me encara numa mistura de surpresa e confusão, ela sabe que esse livro não vai machucar ninguém, mesmo assim seus olhos ficam marejados.

— Como você sabe meu nome? — minha voz ainda treme, quando pergunto. — Como você me trouxe aqui? Quem é você? O que quer de mim?

A garota chora, desesperadamente, mas não para de me encarar com o olhar assustado; ela ainda quer me convencer que eu a conheço.

— Eu sou Giovanna! Nos conhecemos desde que você veio para o orfanato. Somos inseparáveis desde então, mas antes éramos amigas e agora somos namoradas. Hoje é meu aniversário de 18 anos, e como você ainda tem 16, não pode sair do orfanato. E tínhamos feito planos, se lembra? Por favor, lembre- se! Era para nós duas sairmos hoje, marcamos de fugir para a cidade. Juntas. Eu não quero ir sozinha, Íris. E você me prometeu que iríamos ficar para sempre juntas!

— Giovanna? — ouso perguntar. — Não conheço nenhuma Giovanna.

Ela se senta novamente na cama que eu estava antes e chora ainda mais, com as mãos cobrindo seu rosto. Ela soluça muito e seus ombros tremem.

— Hoje era para ser um dia perfeito, não sei o que aconteceu com você nem porquê está agindo assim comigo — sua voz saiu abafada por conta das mãos no rosto.— Mas, por favor, não faça ser pior que já é. Eu te amo e apesar de você não estar se lembrando eu sei que você também me ama, no fundo você sabe que eu nunca faria nada de mal à você.

Fico tocada com suas palavras. Parece que, realmente, algo em mim sabe quem ela é, e que nunca faria mal a mim. Mas como explicar que de uma hora para a outra eu vim parar dentro de um orfanato? Sem contar que tudo em volta parece ser de outro século.

— Giovanna...? — testo seu nome, um pouco menos nervosa. — Eu sinto muito, mas não sou a Íris que você conhece. — ela levanta um pouco a cabeça e me olha por trás dos cílios. — Meu nome é Íris, mas eu não moro num orfanato. Eu tenho mãe, duas irmãs e somos trigêmeas. E antes de acordar eu estava na minha casa, lendo um livro. — me sento ao seu lado. — Eu preciso voltar para casa.

Ela funga e passa as mãos no rosto para limpar as lágrimas, se senta corretamente e me encara: — Íris, por mais que seja estranho, de algum jeito eu sei que não está mentindo. Eu conheço a minha Íris, e não a vejo em seus olhos. Mas... Eu não posso ir sem te levar. Se minha Íris voltar, ela nunca me perdoará por deixá-la nesse lugar horrível. Estamos contando os minutos para ir embora desde nossos cinco anos.

Engulo em seco. Eu tenho que seguir esse plano e sair desse orfanato. Lá fora eu procuro um jeito de voltar para casa; mas por ora tenho que focar em sair dessa prisão.

— Ótimo — tento dar um sorriso, para animar a ambas. — Quando começamos a seguir esse plano de fuga?

O Que Os Contos Não ContamHistórias para pegar e não largar. Descubra agora