Diogo chamou Ella para um piquenique, mas foi recusado. Sei que não foi por querer, porque ficou triste o resto do dia. Certamente ela pediu à madrasta, que não deixou. Mas isso não abalou meu amigo, ele continua enviando flores para a menina todos os dias, e com vários bilhetes fofos e românticos.
Eu dei a ideia, me lembrando da brincadeira sem graça que minhas irmãs fizeram comigo, que deu certo. Mesmo tendo sido falso, às vezes ainda me pego pensando no David. Quando eu voltar para minha vida, a primeira coisa que farei será conversar com ele. Não me importo que ele já tenha deixado claro que tem namorada. Isso não quer dizer que não possa gostar de mim.
Depois de uma semana de intensas investidas do Diogo em Ella, numa manhã ensolarada e quente como o inferno, eu a pego sorrindo e olhando para o nada, em vez de jogar milho pras galinhas. Sinto uma excitação subir pelo meu corpo, me fazendo descer depressa as escadas, atrás da menina. Nem disfarço meu sorriso, quando a encontro da mesma forma, ainda no quintal.
— Bom dia, Cinderela... — a cumprimento, quando chego ao seu lado. Ela dá um pulo, com o susto e me olha com uma expressão culpada. Não atoa, estou fazendo bem o meu papel de irmã feia. — Posso saber o motivo de seu desvaneio?
Os livros que ando lendo estão me ajudando a falar mais formalmente. Ou da forma que as pessoas dessa época falam. O problema é que eu demoro cinquenta anos, até entender o que desvaneio quer dizer.
— Não é nada, apenas me distraí com o céu azul. Eu amo azul.
Suas bochechas coradas denunciam a verdade. Certamente seu coração está batendo por um certo alguém de olhos castanhos.
— Me deixe adivinhar... — Sorrio sarcástica, pego um pouco do milho e jogo para as galinhas. — Quem arrancou esse seu sorriso foi o sr. Larsson?
Ella arregala os olhos e engasga. — N-não...
— Como não? — franzo o cenho. — Ele anda te enviando flores e bilhetes todos os dias, como não é ele?
— Eu... — ela cora novamente e desvia o olhar para as cacarejadoras. — Eu conheci um rapaz, hoje mais cedo, quando eu estava indo ao mercado. — Ella volta a me olhar, e eu engulo em seco, perdendo todo aquele sorriso. — Ele quase me atropelou, em seu cavalo. Foi um pouco embaraçoso, mas depois ele me pediu perdão e me acompanhou de volta para casa.
— A senhorita nunca o vira antes? — pergunto.
— Não. Ele disse que trabalha no castelo, por isso não aparece muito.
— Mas, se ele quase te atropelou, porque tantos sorrisos?
— Ele foi um doce... Foi totalmente sem querer e... Conversamos na volta, nos conhecemos e eu prometi que irei ao baile, para o ver novamente.
Arregalo os olhos. Merda, merda, merda!
— Eu não quero te desapontar, mas a senhorita sabe que minha mãe não deixará.
A menina murcha sob meu olhar, e o brilho apaixonado deixa seus olhos. — Tinha me esquecido disso... A senhorita não pode me ajudar?
Aquela dúvida se ajudo ou não, se sou boa ou má, me atinge como uma bomba. Não é exatamente isso que está em jogo, está minha vida ou morte, minha volta pra casa, a realização dos meus sonhos, e meu final feliz. Ella ficando com o Príncipe ou com Diogo terá seu final feliz, mas e o meu?
— Vou ver o que posso fazer. — minto e dou uma volta pelo quintal, evitando seu olhar. — Mas a senhorita sabe como mamãe é. Não posso confirmar nada por ora.
Vejo pelo canto do olho que ela assente, com as esperanças renovadas. Meu coração dá um aperto, nem tão certo se é esse o caminho, mas eu o ignoro. Terá que ser.
— Já tem roupa? — pergunto, observando o campo florido com atenção dobrada.
— Não... Mas posso ver se no baú de minha mãe tem alguma coisa. Não pretendo ficar na festa, provavelmente vou para a cozinha, me encontrar com o sr. Charlie.
— Então esse é o nome do novo dono de seu coração? — me viro um pouco e a olho de esguelha. Suas bochechas estão rosadas novamente.
— Nunca tive um dono, Srta. Ayla. Não sei do que está falando.
— Sabe sim. — solto uma risada debochada e volto a observar o horizonte. — Só espero que não parta o coração do Sr. Larsson. Todos do reino sabem que ele está tentando corteja-la, seria errado a senhorita aparecer de braços dados com um outro homem de um dia para o outro, e sem nenhuma satisfação.
— Nunca aceitei o cortejo do Sr. Larsson, acho que isso não quer dizer que devo alguma satisfação à ele. Ele não é nada meu.
Arqueio minhas sobrancelhas, surpresa com a resposta da loira, mas continuo evitando seu olhar. Tem momentos que é difícil fazer o papel da irmã feia, principalmente quando estou tentando não gritar uma ordem para ela aceitar o Diogo, para eu conseguir ir embora.
Minha mãe sempre me disse que nada é de graça, nem fácil demais. Eu nunca acreditei, mas agora vejo claramente que fui tola em pensar que seria fácil desviar Cinderela de seu destino. Os irmãos Grimm escreveram uma história muito forte e fluída. Tudo o que acontece gera a consequência certa para o final feliz da protagonista.
Agora começo a entender porque a Rainha Má enfeitiçou os livros, para humanos mudarem os finais. Só não tenho tanta certeza, como ela, que dará certo.
☆
— Sabe quando os convites chegam? — Pergunto à Evangelinne, no chá da tarde.
— Não sei porquê o interesse. — ela zomba. — O Príncipe nunca a escolherá.
— Não me importo com isso, apenas quero saber quando os convites chegam.
— Ouvi dizer que em algumas casas já chegaram. — A madrasta responde de sua poltrona, perto da lareira. Ela beberica seu chá e então volta a falar: — Acredito que chegará para nós no final da tarde, ou amanhã. Nossa casa é mais afastada, então deve ser por isso que ainda não recebemos os nossos.
— E se não formos chamadas? — pergunto, sabendo que isso nunca aconteceria.
A mulher me encara com raiva emanando de seus olhos azuis, idênticos ao de Evangelinne. — Espero que seja uma piada muito, muito, ruim, Ayla.
Dou um sorriso de lado, me segurando para não gargalhar. A melhor parte de tudo isso é irritar essa mulher irritante. O lado chato é ser fácil demais. Só por respirar ela fica irritada comigo.
Me levanto e aviso que darei uma volta pela propriedade, para aproveitar o final da tarde. A Madrasta resmunga algo como "tomara que não volte", mas eu não fico para confirmar. Vou para a frente da casa de campo e me escoro na cerca de madeira, bem na entrada.
Em vez de observar o sol ir embora e manchar o céu de lilás, fito a estrada que dá para o centro do reino, na esperança de que os mensageiros do rei apareçam com os convites. Certamente trarão um para Ella, e eu preciso sumir com eles antes que entreguem à ela, se não serei obrigada a convencer a madrasta de deixar a pobrezinha ir ao baile.
Meus argumentos estão todos prontos, seja qual for o futuro próximo, mas isso não quer dizer que não possa forçar, pelo menos um pouquinho, que aconteça da forma que eu queira. Se eu posso mudar o final, então acho justo também poder mudar o meio da história.
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O Que Os Contos Não Contam
FantasyAyla, Eloise e Íris são trigêmeas, mas a única coisa em comum é o amor pelos livros de contos de fadas. Principalmente pelas adaptações. As três vivem em pé de guerra, sempre discordando uma da outra, mas quando Íris acha uma nova adaptação tudo mud...
