44. Eloise

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— Não podemos voltar — Vitório declara. —, não depois de termos avançado tanto.

— Preciso encontrar minhas irmãs, Sr. Lund, ou entregar a Princesa à bruxa.

— Podemos continuar nosso plano. — ele chega mais perto e adiciona com a voz mais baixa: — E já podemos nos tratar pelo primeiro nome, não acha?

— Não. — dou um passo cambaleante para trás e quase tropeço em um galho solto no chão.

Vitório me segura pela cintura contra seu corpo quente e rígido. Seus olhos me estudam com atenção, me fazendo corar com seu olhar intenso. Elevo minha mão até a lateral de seu rosto e o acaricio levemente, sentindo as sensações de ter sua pele em meus dedos.

Observo o contraste da cor de nossas peles, maravilhada com a beleza que nunca pensei que poderia encontrar.

Me inclino em sua direção e beijo sua bochecha.

— Não pertenço a esse lugar. — sussurro em seu ouvido, o pegando desprevenido. — Não posso sonhar com o impossível, Vitório.

Saboreio seu nome passando por meus lábios e ele me observa fascinado, focado em minha boca.

Seus dedos percorrem a extensão de meus braços, enviando choques que me arrepiam dos pés à cabeça.

— Não é impossível. — ele afirma convicto. — E você não pertence a esse lugar, mas pertence à mim. Não é o suficiente para ficar? Podemos salvar meu povo, nos casar e criar nossos filhos num reino melhor. Podemos caçar, e eu nunca serei como meu pai; você será livre.

Fecho meus olhos bem apertados, nego com a cabeça e me afasto dele. — Não é suficiente. — abro meus olhos e repito. — Não é suficiente.

— Não desistirá de ir atrás de suas irmãs, não é? — ele pergunta com mágoa em seu olhar e em sua voz.

— Não. — desvio meu olhar dele para onde a bruxa estava há minutos. — Preciso saber como estão e não posso decidir sozinha o nosso futuro. Se elas quiserem voltar, eu preciso ir junto, não há outra escolha.

— Tudo bem. — ele respira fundo, mas resisto à vontade de observa-lo. — Mas não vou desistir até que parta. Eu sei o que eu quero, e é você. Não vou desistir tão fácil.

— Não entendo como pode estar tão certo disso... — observo o caminho que a bruxa indicou para eu me encontrar com as duas partes de mim. — Nos conhecemos há menos de uma semana.

— Não preciso mais que isso, Eloise, para ter certeza de que a amo.

Bufo e sigo o caminho, ignorando minhas pernas doloridas e como meu coração deu uma acelerada.

— Quando você quer, é engraçado, senhor Caçador. Gosto desse seu lado cômico.

Ele me alcança e anda ao meu lado em silêncio. Antes eu apreciava nosso silencio, agora não o suporto. Sinto falta de dois dias atrás, quando Vitório fazia piada do meu jeito de andar.

— Parece que nos conhecemos há anos. — comento, minutos mais tarde numa voz baixa.

— É como eu também me sinto.

— Mas não posso deixa-las, precisa entender. São minha família.

— Eu entendo, mas não posso perder as esperanças.

Assinto, mesmo que ele esteja focado no caminho e não me veja. Entendo o que ele quer, meu coração dá saltos só de pensar na possibilidade, apesar de ser uma vida bem diferente da que imaginei para mim. Mas tenho prioridades e mesmo me sentindo com 40 anos, ainda tenho 16.

Acampamos perto de uma cachoeira, com uma grande pedra na margem. Vitório assa o resto da carne da corça que não apodreceu e comemos enquanto conto sobre minha vida no mundo real.

Conto sobre minha família e sobre o meu pai. Noto que há dias não pensava nele tanto quanto antes, e que há semanas não cantarolo algumas de suas musicas preferidas, que acabaram se tornando as minhas.

Vir para dentro do livro me fez esquecer quem eu era, e formou uma nova Eloise que não sente falta de um pai nem se agarra às memórias que não compartilhou com ele.

A Eloise do mundo real permanece em algum lugar dentro de mim, isso eu sei. Ela ainda é forte e corajosa, até demais, de acordo com Vitório, mas não é mais uma menina e isso me assusta.

Eu não estava pronta para crescer, nem sabia que tinha crescido até tomar decisões que, provavelmente, vão rodear minha mente por anos.

O "e se" vai me deixar tonta, me acompanhará na escola, num futuro trabalho e em todas as noites que eu dormir chorando. Vou acordar com o coração doendo, por ter sonhado com tudo isso, e vou olhar para as minhas irmãs e pensar "será que fiz o certo quando não segui os meus desejos?"

Mas agora eu só consigo imaginar em quão assustadas elas devem estar, e se algo de ruim lhes ocorreu. Sei que não é minha culpa, nem sou responsável por elas. Mas antes de tudo são minhas irmãs, não consigo deixar de me preocupar.

— Devia dormir um pouco. — Vitório sugere, encostado numa árvore do outro lado da pequena fogueira. — Está olhando para o nada há muito tempo.

— Só estou pensando em tudo isso, nada demais. — falo baixo, com a voz cansada. — Mas vou tentar descansar...

— Gostaria que eu ficasse ao seu lado? — ele pergunta.

O encaro e vejo o pedido em seu olhar; como posso negar?

Assinto e ele vem parar ao meu lado num segundo. Me enrolo na manta que a vovozinha nos deu e descaço minha cabeça em seu peito.

Vitório começa a cantar uma cantiga de ninar que nunca ouvira antes, enquanto acaricia meus cabelos. E mesmo no chão, e no meio de uma floresta, me sinto protegida e aquecida.

Antes de pegar no sono tenho a certeza de que minhas irmãs ficarão bem, que as escolhas que faço são as certas, e que minha história com Vitório está apenas no início.

Sinto que não preciso ter medo, então durmo sorrindo.

O Que Os Contos Não ContamHistórias para pegar e não largar. Descubra agora