— Não podemos voltar — Vitório declara. —, não depois de termos avançado tanto.
— Preciso encontrar minhas irmãs, Sr. Lund, ou entregar a Princesa à bruxa.
— Podemos continuar nosso plano. — ele chega mais perto e adiciona com a voz mais baixa: — E já podemos nos tratar pelo primeiro nome, não acha?
— Não. — dou um passo cambaleante para trás e quase tropeço em um galho solto no chão.
Vitório me segura pela cintura contra seu corpo quente e rígido. Seus olhos me estudam com atenção, me fazendo corar com seu olhar intenso. Elevo minha mão até a lateral de seu rosto e o acaricio levemente, sentindo as sensações de ter sua pele em meus dedos.
Observo o contraste da cor de nossas peles, maravilhada com a beleza que nunca pensei que poderia encontrar.
Me inclino em sua direção e beijo sua bochecha.
— Não pertenço a esse lugar. — sussurro em seu ouvido, o pegando desprevenido. — Não posso sonhar com o impossível, Vitório.
Saboreio seu nome passando por meus lábios e ele me observa fascinado, focado em minha boca.
Seus dedos percorrem a extensão de meus braços, enviando choques que me arrepiam dos pés à cabeça.
— Não é impossível. — ele afirma convicto. — E você não pertence a esse lugar, mas pertence à mim. Não é o suficiente para ficar? Podemos salvar meu povo, nos casar e criar nossos filhos num reino melhor. Podemos caçar, e eu nunca serei como meu pai; você será livre.
Fecho meus olhos bem apertados, nego com a cabeça e me afasto dele. — Não é suficiente. — abro meus olhos e repito. — Não é suficiente.
— Não desistirá de ir atrás de suas irmãs, não é? — ele pergunta com mágoa em seu olhar e em sua voz.
— Não. — desvio meu olhar dele para onde a bruxa estava há minutos. — Preciso saber como estão e não posso decidir sozinha o nosso futuro. Se elas quiserem voltar, eu preciso ir junto, não há outra escolha.
— Tudo bem. — ele respira fundo, mas resisto à vontade de observa-lo. — Mas não vou desistir até que parta. Eu sei o que eu quero, e é você. Não vou desistir tão fácil.
— Não entendo como pode estar tão certo disso... — observo o caminho que a bruxa indicou para eu me encontrar com as duas partes de mim. — Nos conhecemos há menos de uma semana.
— Não preciso mais que isso, Eloise, para ter certeza de que a amo.
Bufo e sigo o caminho, ignorando minhas pernas doloridas e como meu coração deu uma acelerada.
— Quando você quer, é engraçado, senhor Caçador. Gosto desse seu lado cômico.
Ele me alcança e anda ao meu lado em silêncio. Antes eu apreciava nosso silencio, agora não o suporto. Sinto falta de dois dias atrás, quando Vitório fazia piada do meu jeito de andar.
— Parece que nos conhecemos há anos. — comento, minutos mais tarde numa voz baixa.
— É como eu também me sinto.
— Mas não posso deixa-las, precisa entender. São minha família.
— Eu entendo, mas não posso perder as esperanças.
Assinto, mesmo que ele esteja focado no caminho e não me veja. Entendo o que ele quer, meu coração dá saltos só de pensar na possibilidade, apesar de ser uma vida bem diferente da que imaginei para mim. Mas tenho prioridades e mesmo me sentindo com 40 anos, ainda tenho 16.
Acampamos perto de uma cachoeira, com uma grande pedra na margem. Vitório assa o resto da carne da corça que não apodreceu e comemos enquanto conto sobre minha vida no mundo real.
Conto sobre minha família e sobre o meu pai. Noto que há dias não pensava nele tanto quanto antes, e que há semanas não cantarolo algumas de suas musicas preferidas, que acabaram se tornando as minhas.
Vir para dentro do livro me fez esquecer quem eu era, e formou uma nova Eloise que não sente falta de um pai nem se agarra às memórias que não compartilhou com ele.
A Eloise do mundo real permanece em algum lugar dentro de mim, isso eu sei. Ela ainda é forte e corajosa, até demais, de acordo com Vitório, mas não é mais uma menina e isso me assusta.
Eu não estava pronta para crescer, nem sabia que tinha crescido até tomar decisões que, provavelmente, vão rodear minha mente por anos.
O "e se" vai me deixar tonta, me acompanhará na escola, num futuro trabalho e em todas as noites que eu dormir chorando. Vou acordar com o coração doendo, por ter sonhado com tudo isso, e vou olhar para as minhas irmãs e pensar "será que fiz o certo quando não segui os meus desejos?"
Mas agora eu só consigo imaginar em quão assustadas elas devem estar, e se algo de ruim lhes ocorreu. Sei que não é minha culpa, nem sou responsável por elas. Mas antes de tudo são minhas irmãs, não consigo deixar de me preocupar.
— Devia dormir um pouco. — Vitório sugere, encostado numa árvore do outro lado da pequena fogueira. — Está olhando para o nada há muito tempo.
— Só estou pensando em tudo isso, nada demais. — falo baixo, com a voz cansada. — Mas vou tentar descansar...
— Gostaria que eu ficasse ao seu lado? — ele pergunta.
O encaro e vejo o pedido em seu olhar; como posso negar?
Assinto e ele vem parar ao meu lado num segundo. Me enrolo na manta que a vovozinha nos deu e descaço minha cabeça em seu peito.
Vitório começa a cantar uma cantiga de ninar que nunca ouvira antes, enquanto acaricia meus cabelos. E mesmo no chão, e no meio de uma floresta, me sinto protegida e aquecida.
Antes de pegar no sono tenho a certeza de que minhas irmãs ficarão bem, que as escolhas que faço são as certas, e que minha história com Vitório está apenas no início.
Sinto que não preciso ter medo, então durmo sorrindo.
VOCÊ ESTÁ LENDO
O Que Os Contos Não Contam
FantasíaAyla, Eloise e Íris são trigêmeas, mas a única coisa em comum é o amor pelos livros de contos de fadas. Principalmente pelas adaptações. As três vivem em pé de guerra, sempre discordando uma da outra, mas quando Íris acha uma nova adaptação tudo mud...
