— Concentração.
Ele diz ao pé do meu ouvido, com seu hálito fazendo cócegas em meu pescoço, sem contar seu corpo quente e firme colado atrás de mim.
Como me concentro assim?
— Chegue para trás. — peço, ofegante. A corça, a única que apareceu em dois dias de caminhada, está tomando água tranquilamente, na margem do riacho. — Não consigo me concentrar com o senhor tão perto de mim.
— Eu a desconcentro, Srta. Eloise? — seu tom de voz denuncia seu sorriso debochado, mas não olho para ter certeza.
— Estamos há dois dias comendo coelhos e frutas silvestres. — O lembro. — Ontem o senhor me ensinou a usar a flecha, e hoje é nossa única chance de ter uma comida diferente.
— Não boa. — ele acrescenta, como se tivesse lido meus pensamentos.
— Não brinque, Sr. Lund... — falo mais baixo, quando a corça levanta a cabeça e olha em volta, em alerta.
— Eu lhe disse que posso fazer isso num segundo, a senhorita que é teimosa e acha que está provando algo à mim.
Respiro fundo e tento ignora-lo. Conto até três e respiro novamente. A corça ainda está em alerta, e o caçador está aumentando seu tom de voz. Não posso perder esse jantar, muito menos por causa de um macho idiota. Pelo menos ele se afastou.
Respiro fundo mais uma vez e solto a flecha, que acerta o meio da barriga do animal. Não é onde eu queria, mas é o suficiente para fazê-lo cair.
— HA-HA!!! — Comemoro, fazendo uma dancinha estranh da vitória, que fazia com minhas irmãs, quando mais novas.
Vitório gargalha e corre até o corpo do bicho, que sagra bastante. Seu sangue corre junto com a água, para só Deus sabe onde. Saio do meio dos arbustos e corro até onde o homem está, já tirando a pele da pobre corça.
— Já posso ser considerada uma assassina? — pergunto, observando o sangue descer pelo riacho.
— Caçadora. — ele declara, com o sorriso debochado que não sai de seus lábios carnudos. — A minha família é a única que aceita e ensina mulheres a caçar. Nunca conhecemos outra família de caçadores que não nos julgasse.
Sorrio. — Uma família de mulheres fortes, aposto.
— Se a senhorita fosse à casa de jogos, certamente se enriqueceria.
— Me conte sobre sua mãe? — peço, juntando a pele do animal, enquanto ele o desmembra. — Ela caça também?
— Sim. — Vitório continua com seus olhos voltados em seu trabalho. — Meu pai a ensinou, quando se conheceram, assim como me ensinou quando eu era criança. Mas depois que ela engravidou, teve que passar a maior parte do tempo em casa, cuidando dos cinco filhos.
— Ela ficava chateada? De ficar em casa, em vez de ir caçar?
— Não tenho certeza, e me lembro de poucas coisas. Mas o que me recordo é dela ficar com uma expressão desolada, sempre que o grupo se juntava para ir caçar. Todas as mulheres da família iam, e ela tinha que ficar, e cuidar das crianças dela e as dos parentes.
— E depois que cresceram?
— Na verdade — ele enfim me encara. —, ela engravidou pela sexta vez e morreu no parto do meu irmão. — abro a boca, para dizer que sinto muito, mas ele continua: — Ele também morreu uns meses depois, mas nunca me falaram por quê. Eu tinha nove anos.
— Sinto muito...
— Não sinta. — Vitório dá um sorriso de lado, mas não chega aos seus olhos. — Ela teve a vida que escolheu ter, sabia quem era meu pai. Sempre soube...
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O Que Os Contos Não Contam
FantasyAyla, Eloise e Íris são trigêmeas, mas a única coisa em comum é o amor pelos livros de contos de fadas. Principalmente pelas adaptações. As três vivem em pé de guerra, sempre discordando uma da outra, mas quando Íris acha uma nova adaptação tudo mud...
