35. Eloise

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— Concentração.

Ele diz ao pé do meu ouvido, com seu hálito fazendo cócegas em meu pescoço, sem contar seu corpo quente e firme colado atrás de mim.

Como me concentro assim?

— Chegue para trás. — peço, ofegante. A corça, a única que apareceu em dois dias de caminhada, está tomando água tranquilamente, na margem do riacho. — Não consigo me concentrar com o senhor tão perto de mim.

— Eu a desconcentro, Srta. Eloise? — seu tom de voz denuncia seu sorriso debochado, mas não olho para ter certeza.

— Estamos há dois dias comendo coelhos e frutas silvestres. — O lembro. — Ontem o senhor me ensinou a usar a flecha, e hoje é nossa única chance de ter uma comida diferente.

— Não boa. — ele acrescenta, como se tivesse lido meus pensamentos.

— Não brinque, Sr. Lund... — falo mais baixo, quando a corça levanta a cabeça e olha em volta, em alerta.

— Eu lhe disse que posso fazer isso num segundo, a senhorita que é teimosa e acha que está provando algo à mim.

Respiro fundo e tento ignora-lo. Conto até três e respiro novamente. A corça ainda está em alerta, e o caçador está aumentando seu tom de voz. Não posso perder esse jantar, muito menos por causa de um macho idiota. Pelo menos ele se afastou.

Respiro fundo mais uma vez e solto a flecha, que acerta o meio da barriga do animal. Não é onde eu queria, mas é o suficiente para fazê-lo cair.

— HA-HA!!! — Comemoro, fazendo uma dancinha estranh da vitória, que fazia com minhas irmãs, quando mais novas.

Vitório gargalha e corre até o corpo do bicho, que sagra bastante. Seu sangue corre junto com a água, para só Deus sabe onde. Saio do meio dos arbustos e corro até onde o homem está, já tirando a pele da pobre corça.

— Já posso ser considerada uma assassina? — pergunto, observando o sangue descer pelo riacho.

— Caçadora. — ele declara, com o sorriso debochado que não sai de seus lábios carnudos. — A minha família é a única que aceita e ensina mulheres a caçar. Nunca conhecemos outra família de caçadores que não nos julgasse.

Sorrio. — Uma família de mulheres fortes, aposto.

— Se a senhorita fosse à casa de jogos, certamente se enriqueceria.

— Me conte sobre sua mãe? — peço, juntando a pele do animal, enquanto ele o desmembra. — Ela caça também?

— Sim. — Vitório continua com seus olhos voltados em seu trabalho. — Meu pai a ensinou, quando se conheceram, assim como me ensinou quando eu era criança. Mas depois que ela engravidou, teve que passar a maior parte do tempo em casa, cuidando dos cinco filhos.

— Ela ficava chateada? De ficar em casa, em vez de ir caçar?

— Não tenho certeza, e me lembro de poucas coisas. Mas o que me recordo é dela ficar com uma expressão desolada, sempre que o grupo se juntava para ir caçar. Todas as mulheres da família iam, e ela tinha que ficar, e cuidar das crianças dela e as dos parentes.

— E depois que cresceram?

— Na verdade — ele enfim me encara. —, ela engravidou pela sexta vez e morreu no parto do meu irmão. — abro a boca, para dizer que sinto muito, mas ele continua: — Ele também morreu uns meses depois, mas nunca me falaram por quê. Eu tinha nove anos.

— Sinto muito...

— Não sinta. — Vitório dá um sorriso de lado, mas não chega aos seus olhos. — Ela teve a vida que escolheu ter, sabia quem era meu pai. Sempre soube...

O Que Os Contos Não ContamHistórias para pegar e não largar. Descubra agora