15. Íris

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Quando o muro do orfanato acabou, e eu achei a estrada para a cidade, a segui à uma distância boa. Andei por uma hora ou mais, até me lembrar que já era para ter parado e esperado Giovanna há muito tempo. Mas, olhando o tanto que já andei, não tenho condições para voltar.

Continuo por mais uns metros, mas tenho que me esconder atrás de uma árvore, quando escuto o barulho de cavalos. A carroça passa por mim, mas não para. Consigo ver que uma das ocupantes é Giovanna, e ela esquadrinha a floresta como uma águia. De qualquer jeito vou ter que continuar sozinha, quem dirige a carroça é um padre, e certamente não vai me deixar ir com ela para onde-quer-que-seja.

Passo a próxima hora de caminhada sentindo meus pés gritarem junto com meu estômago. Eu só tinha tomado o mingau, no orfanato, e nem água trouxe. O pior; nem chegamos a pensar num "plano B", estávamos apostando que daria certo. E agora perdemos tudo.

Ou só eu perdi tudo. Giovanna ganhou dinheiro e carona para a cidade, enquanto a fugitiva aqui, de outro lugar, vaga por uma floresta para sabe-Deus-onde. Nem o filme "Sexta feira muito louca" supera esse meu dia.

Caminho mais um pouco e, enfim, a floresta acaba, e dou de cara com uma cerca de madeira. Fico em dúvida se desvio e volto para a estrada, ou pulo a maldita cerca, ou quem sabe eu não possa me sentar um pouco, e descansar...

— Diga seu nome, senhorita, e mantenha as mãos onde eu possa ver.

Engulo em seco e me viro lentamente, com as mãos para cima. O dono da voz grave e rude é um rapaz alto. Muito alto. Seus olhos azuis, como o céu da primavera, me encaram entre os fios loiros que escapam do elástico que os prendem na nuca. Em sua mão tem uma adaga, e ele a aponta na direção do meu pescoço, talvez a um metro de distância.

Não ouso desviar meu olhar dele, para saber se alguém mais o acompanha, mas consigo ver um cavalo preto atrás dele, me encarando também.

— Íris. — solto com a voz vacilante. Meu corpo todo treme. — Me chamo Íris.

— Não tem sobrenome?

— Sou órfã. Acabei de sair do orfanato, e seguia para a cidade.

— O que faz aqui? — ele franse o cenho. — Está longe da estrada. E da cidade.

— Julguei ser melhor uma moça, da minha idade e sozinha, andar mais adentro da floresta, em vez de seguir pela estrada. Mas acho que julguei errado.

Ele semicerra os olhos, talvez pensando se é uma boa ideia me deixar viver. — A senhorita está com sorte, por eu tê-la encontrado antes dos batedores de carteira. Ou da Fera. — o rapaz guarda sua adaga, sem parar de me encarar. — Posso te acompanhar até a cidade? Creio que ainda tem muita estrada pela frente, e será mais seguro a senhorita viajar com um homem. E à cavalo.

— Achei que já estava perto da cidade...

— Não. Está perto de um vilarejo, srta. Íris. A cidade fica a um dia de viajem.

Arregalo os olhos. Merda! Era melhor ter esperado Giovanna no local combinado.

— Me perdoe, não me apresentei. Sou Joseph Martinez, e a propriedade atrás da senhora é de meu avô materno. — não ouso me mexer, minhas pernas ainda tremem. Ele continua: — Eu estava cavalgando, quando a vi de longe. Me perdoe por tê-la assustado.

Dou um sorriso trêmulo, tentando demonstrar que está tudo bem. Mesmo não estando. Joseph continua me encarando, agora desconfortável.

— Em que século estamos, Joseph? Q-quer dizer, Sr. Martinez. — coro.

Ele segura o riso e responde. — Creio que século XVIII, Srta. Íris. Algum problema?

Engulo em seco pela milésima vez, já não sentindo mais minhas pernas.

— Aí, merda, acho que fiz uma viajem no tempo sem querer.

Só percebo que estou caindo quando o loiro me segura pela cintura. Mesmo vendo estrelinhas, sinto um leve arrepio onde ele me toca. Olho dentro de seus olhos azuis e mudo minha opinião; são iguais ao mar, talvez como o mar do Caribe. Fico com vontade de nadar, e mergulhar bem fundo neles. É mágico.

— Vou levá-la para minha casa — ele avisa, me segurando em seus braços, sem desviar o olhar. —, meu avô não lida muito bem com visitas.

Eu assinto, sem condições de rejeitar. Sei que é errado, e que estou correndo um grande perigo. Mas fui burra mais cedo, continuando a viajem sozinha. Fiz planos com Giovanna e eles deram errado por minha culpa, agora mereço as consequências, sejam elas quais forem.

O Que Os Contos Não ContamHistórias para pegar e não largar. Descubra agora