Quando o muro do orfanato acabou, e eu achei a estrada para a cidade, a segui à uma distância boa. Andei por uma hora ou mais, até me lembrar que já era para ter parado e esperado Giovanna há muito tempo. Mas, olhando o tanto que já andei, não tenho condições para voltar.
Continuo por mais uns metros, mas tenho que me esconder atrás de uma árvore, quando escuto o barulho de cavalos. A carroça passa por mim, mas não para. Consigo ver que uma das ocupantes é Giovanna, e ela esquadrinha a floresta como uma águia. De qualquer jeito vou ter que continuar sozinha, quem dirige a carroça é um padre, e certamente não vai me deixar ir com ela para onde-quer-que-seja.
Passo a próxima hora de caminhada sentindo meus pés gritarem junto com meu estômago. Eu só tinha tomado o mingau, no orfanato, e nem água trouxe. O pior; nem chegamos a pensar num "plano B", estávamos apostando que daria certo. E agora perdemos tudo.
Ou só eu perdi tudo. Giovanna ganhou dinheiro e carona para a cidade, enquanto a fugitiva aqui, de outro lugar, vaga por uma floresta para sabe-Deus-onde. Nem o filme "Sexta feira muito louca" supera esse meu dia.
Caminho mais um pouco e, enfim, a floresta acaba, e dou de cara com uma cerca de madeira. Fico em dúvida se desvio e volto para a estrada, ou pulo a maldita cerca, ou quem sabe eu não possa me sentar um pouco, e descansar...
— Diga seu nome, senhorita, e mantenha as mãos onde eu possa ver.
Engulo em seco e me viro lentamente, com as mãos para cima. O dono da voz grave e rude é um rapaz alto. Muito alto. Seus olhos azuis, como o céu da primavera, me encaram entre os fios loiros que escapam do elástico que os prendem na nuca. Em sua mão tem uma adaga, e ele a aponta na direção do meu pescoço, talvez a um metro de distância.
Não ouso desviar meu olhar dele, para saber se alguém mais o acompanha, mas consigo ver um cavalo preto atrás dele, me encarando também.
— Íris. — solto com a voz vacilante. Meu corpo todo treme. — Me chamo Íris.
— Não tem sobrenome?
— Sou órfã. Acabei de sair do orfanato, e seguia para a cidade.
— O que faz aqui? — ele franse o cenho. — Está longe da estrada. E da cidade.
— Julguei ser melhor uma moça, da minha idade e sozinha, andar mais adentro da floresta, em vez de seguir pela estrada. Mas acho que julguei errado.
Ele semicerra os olhos, talvez pensando se é uma boa ideia me deixar viver. — A senhorita está com sorte, por eu tê-la encontrado antes dos batedores de carteira. Ou da Fera. — o rapaz guarda sua adaga, sem parar de me encarar. — Posso te acompanhar até a cidade? Creio que ainda tem muita estrada pela frente, e será mais seguro a senhorita viajar com um homem. E à cavalo.
— Achei que já estava perto da cidade...
— Não. Está perto de um vilarejo, srta. Íris. A cidade fica a um dia de viajem.
Arregalo os olhos. Merda! Era melhor ter esperado Giovanna no local combinado.
— Me perdoe, não me apresentei. Sou Joseph Martinez, e a propriedade atrás da senhora é de meu avô materno. — não ouso me mexer, minhas pernas ainda tremem. Ele continua: — Eu estava cavalgando, quando a vi de longe. Me perdoe por tê-la assustado.
Dou um sorriso trêmulo, tentando demonstrar que está tudo bem. Mesmo não estando. Joseph continua me encarando, agora desconfortável.
— Em que século estamos, Joseph? Q-quer dizer, Sr. Martinez. — coro.
Ele segura o riso e responde. — Creio que século XVIII, Srta. Íris. Algum problema?
Engulo em seco pela milésima vez, já não sentindo mais minhas pernas.
— Aí, merda, acho que fiz uma viajem no tempo sem querer.
Só percebo que estou caindo quando o loiro me segura pela cintura. Mesmo vendo estrelinhas, sinto um leve arrepio onde ele me toca. Olho dentro de seus olhos azuis e mudo minha opinião; são iguais ao mar, talvez como o mar do Caribe. Fico com vontade de nadar, e mergulhar bem fundo neles. É mágico.
— Vou levá-la para minha casa — ele avisa, me segurando em seus braços, sem desviar o olhar. —, meu avô não lida muito bem com visitas.
Eu assinto, sem condições de rejeitar. Sei que é errado, e que estou correndo um grande perigo. Mas fui burra mais cedo, continuando a viajem sozinha. Fiz planos com Giovanna e eles deram errado por minha culpa, agora mereço as consequências, sejam elas quais forem.
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O Que Os Contos Não Contam
FantasyAyla, Eloise e Íris são trigêmeas, mas a única coisa em comum é o amor pelos livros de contos de fadas. Principalmente pelas adaptações. As três vivem em pé de guerra, sempre discordando uma da outra, mas quando Íris acha uma nova adaptação tudo mud...
