56. Eloise

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Eu sei que preciso agradecer ao Vitório antes de partir, mas não sei se sou capaz de dizer adeus. Nessa semana criamos um vínculo que eu nunca pensara ser capaz de existir, e agora sofro com o que eu mesma fiz.

Tenho certeza que não estou apaixonada, mas isso não significa que não sinta nada. Ele é um cara espirituoso, irônico e charmoso, mesmo com a barba por fazer há dias. Vitório me ajudou, mesmo quando desconfiava da minha verdade, e o mais importante; poupou a minha vida.

Eu deveria ir atrás dele, como Ayla fora se despedir de Diogo, e deveria agradecer. Sei que ele sente algo, mas não posso ficar, preciso voltar para casa por causa de Íris. E por conta disso não posso dizer adeus.

Ele imploraria, e eu me martirizaria por deixa-lo triste com a minha ida; a última coisa que quero é mais alguém triste, então isso está fora de questão.

Agora preciso dar um jeito de encontrar Malévola e, de preferência, com o livro que contém o feitiço para nossa volta.

Conto isso para Íris, detalhando coisas importantes por ora. Quando chegarmos em casa posso ficar dias contando sobre como fora minha estadia dentro do livro, mas agora preciso de Malévola.

- Tem ideia de onde podemos encontrá-la? - Íris pergunta, enquanto descemos as escadas do imenso castelo.

- Ela disse que viria no momento certo - explico. - Mas não estou afim de esperar.

- Eu também não quero ficar, nem por mais um segundo - minha irmã suspira, talvez pensando num francês. - Mas se ela não apareceu ainda deve haver um bom motivo.

- O que está sugerindo, Íris? - paro no meio da escada e a encaro.

Suas bochechas adquirem um tom rosado já conhecido. - Sugiro que fiquemos em um lugar seguro e esperamos que venha até nós.

- Onde seria esse lugar? - franzo o cenho, certa que nem um lugar por onde passei fora seguro.

- A casa dos Martinez, ou do Barão.

- A família do cara que você não quer ver nem pintado de ouro?

- São ótimas pessoas - ela confirma. - Podemos confiar neles, e na vizinhança.

- Você sabe que ninguém é fraco demais nesse lugar, não é? - semicerro meus olhos para ela. - Nem bom.

Íris dá um breve aceno.

- Agora entendo e estou ciente, não precisa se preocupar.

- Tudo bem, vamos falar com Joseph.

Termino de descer as escadas e dou de cara com um homem bigodudo, de queixo erguido e roupas pretas e finas.

- Srta. Íris - ele se dirige à minha irmã. - creio que a senhorita sabia de nossa libertação, quando conversou comigo noutro dia.

- Sim, senhor - ela confirma, em pé ao meu lado. - Espero que volte a sonhar.

- Desejo o mesmo para a senhorita.

Arquivo essa breve e estranha conversa para mais tarde, quando encherei Íris de perguntas.

O bigodudo faz uma reverência profunda e se afasta, depois de nos informar o paradeiro de nosso grupo.

Corremos para a biblioteca e damos de cara com Ayla e Diogo, sentados no chão da entrada. Eles estão tão dentro de seu mundo que nem percebem nossa chegada, mas eu percebo os rostos molhados e vermelhos causados pelo choro iminente.

Era isso que eu temia, me acabar de chorar e remoer o "e se". Mas ao olhar dentro da grande biblioteca vejo Vitório, conversando animadamente com Joseph perto da janela, e já não posso mais partir sem nenhuma palavra. Ele já não é mais o único que precisa disso.

O Que Os Contos Não ContamHistórias para pegar e não largar. Descubra agora