Molhados e tremendo de frio, entramos na casinha de doces da bruxa, que fica dentro da floresta, não muito longe da cachoeira. A decoração é horrível, com cabeças de crianças entalhadas nas paredes, um caldeirão borbulhante na lareira e uma jaula noutro canto.
A bruxa aponta para a mesa de madeira, caindo aos pedaços, indicando que temos de sentar ali, e assim o fazemos. Diogo não sai do meu lado nem por um segundo, segurando firme minha mão.
— Vou ser direta. — ela se senta do outro lado da mesa. — Não tenho muito tempo, e já gastei um tanto, esperando que a senhorita e suas irmãs percebessem o que está acontecendo. Mas como são burras, e não entenderam nada, irei contar de vez.
Meu coração dá um salto quando ela fala sobre minhas irmãs. Isso quer dizer que elas também entraram no livro? Mas onde estão?
— Eu realmente não sei sobre o que a senhora está falando... — explico com a voz fraca, tremendo de medo e sem entender nada. — E minhas irmãs estão aqui? Onde?
Os olhos violetas reviram e a bruxa bufa. — Algo deu errado com meu feitiço, menina, por isso não se lembra. Mas eu coloquei a frase, a senhorita leu e acabou aqui dentro. E, como eu fiz isso acontecer, se quiser voltar para sua casa e ter seus desejos realizados, como prometi, é melhor que faça o que eu mandar.
— Pode me explicar do início? — peço. _ Não entendi a parte dos desejos...
— Enfeiticei três livros do mundo real — ela começa. —, para quem lesse entrar no universo dos contos de fadas. — ela explica com desdém. — Quero que essas pessoas, que são você e suas irmãs, façam uns favores para mim. Em troca, realizarei seus desejos.
— O que é para fazer?
— A senhorita precisa impedir que Cinderela se case com o príncipe, ou nem o conheça. Pode continuar com o planinho dos dois, mas me traga resultado. Se precisar matar, mate. Faça o que for preciso.
— Ok... E minhas irmãs? — pergunto, olhando dela para Diogo, que está nos observando com o cenho franzido.
— Eu me entendo com elas. — a bruxa se levanta, dando a conversa por encerrado. Mas eu não terminei. Ainda tenho um milhão de perguntas.
— O que vou ganhar? Quanto tempo tenho? E se eu não conseguir...
— O baile acontecerá em dois meses, mas estamos dentro de um livro, então o tempo é diferente por aqui. E... Bem, outro dia nos encontramos e te explico mais. Por ora é tudo o que precisa saber.
— Onde estão minhas irmãs? — me levanto, a seguindo para fora da casinha. — Se trouxe nós três, então há algum tipo de conexão, ou algo...
— A senhorita é esperta. — A bruxa se transforma, na minha frente, em uma bela mulher loira, não muito mais velha que eu. Engulo em seco, encarando sua coroa de ouro encrustada de pedras preciosas que não sei o nome. — Se prestar bastante atenção terá todas as respostas que procura. Não preciso responder todas, nem voltar para conferir seu trabalho, mas farei. No tempo certo.
— Quem a senhora é? — Diogo pergunta, atrás de mim.
A loira desvia seu olhar para ele e dá um sorriso sinistro. — A rainha má.
☆
Voltamos para a cachoeira em silêncio, digerindo toda a informação. Subimos a grande pedra e nos sentamos na beira dela sem soltar um pio sequer.
— A rainha má é madrasta da Branca de Neve. — explico ao meu amigo, depois que pergunta. — Mas não entendo porquê ela quer deixar Ella com outro final. Não entendo porquê se deu o trabalho de sair do seu reino, fazer um feitiço para que três mortais entrassem nos contos e trabalhassem para ela.
— Acho que, como você foi enfeitiçada, por conta disso já tinha o desejo de mudar a história de Ella... — ele supõe confuso tanto quanto eu. — Mas isso tudo está realmente estranho.
— Bem... Pelo menos agora sei o que vim fazer aqui, e como voltar. — suspiro e me viro, para o olhar de frente. — Temos que pensar num plano mais eficaz e rápido. Ella precisa se apaixonar por você de um dia para o outro. Literalmente.
Seus olhos castanhos brilham. — Como podemos fazer isso, Ayla? Não acho que esteja dando certo...
— Também não acho, mas temos que tentar. Preciso voltar para casa, Diogo, e com meus desejos realizados tudo ficará perfeito o do jeito que sempre quis.
— E eu preciso de Ella. — ele suspira e olha para a copa das árvores. — Preciso conquista-la — e volta a me olhar. —, e te ajudar à voltar para casa.
Sorrio, agradecida por ter Diogo me ajudando. E, mesmo que algo de ruim esteja por trás dos planos da Rainha, preciso fazer o que tem de ser feito. Não só para voltar para casa e ter meus desejos realizados, mas também para juntar Diogo com Ella.
Ele merece ter seu final feliz, e Ella merece um cara que goste dela por inteiro, não só por ser a diferentona que foge do cara mais rico do reino.
— Preciso voltar para casa. — me levanto, e Diogo vem junto. — Já vai escurecer, e a Madrasta vai achar estranho eu não voltar para o jantar. Além de precisar trocar de roupa. Estou toda ensopada.
Ele sorri e me ajuda a descer da pedra. — Se meu casaco estivesse aqui, te emprestaria.
— Uma pena... — brinco. — Queria me envolver no cheiro que só o seu casaco quente e aconchegante pode me oferecer.
— Se quiser, tenho meus braços. — ele os abre, me chamando para um abraço, com aquele brilho de diversão em seus olhos. — Tão aconchegante quanto meu casaco. E com o cheiro original.
— Guarde só para Ella. — rio andando pela trilha ao seu lado. — Creio que ela não gostaria de saber que outra garota esteve em seus braços.
— Essa garota apareceu nas nossas vidas para nos juntar, como um cupido ou fada madrinha. Ela não vai ligar.
Sorrio, sentindo minhas bochechas esquentarem. — Você sempre brincou assim, com a outra Ayla?
— Não. — o vejo dar um meio sorriso, pelo canto do olho. — Ela sempre fora mais fechada, mesmo com anos de amizade. E você e seus amigos da vida real? São brincalhões assim?
— Eu... – Respiro fundo, me lembrando das minhas falsas amizades. Ou a falsa amiga que eu era. — Você é meu primeiro amigo. Assim, de verdade. Os que eu tinha eram falsos.
— E quer voltar para a falsidade, e deixar seu verdadeiro amigo aqui?
— Você terá Ella, terá seu final feliz. Mas e eu? — encaro seus olhos castanhos, que me fitam intensamente. — Também quero ter meus sonhos realizados, Diogo, e eu sempre prometi a mim mesma que seria a qualquer custo. E vou cumprir.
— Mas... Você mataria, para poder ter o que quer? — suas grossas sobrancelhas se contorcem quando ele franze a testa. — Não acho que seria capaz...
— Não posso dizer que faria algo até o momento de fazer. Aqui, agora, é diferente. Quando esse momento chegar, se chegar, eu vou saber.
Atravessamos o campo florido preguiçosamente, observando o pôr-do-sol pintar o céu de rosa, lilás e laranja. As flores parecem ganhar mais vida e brilhar como se tivessem tomado chuva de glitter. Olho tudo em volta, digerindo cada paisagem linda, que, no dia que cheguei, odiava.
Finalmente sei como voltar para casa, mas o sentimento de querer, como tanto sentia antes, parece que desapareceu. Eu quero voltar, ser uma atriz famosa mundialmente e ter todos me adorando como a estrela do pop que sou. Mas... Por um momento, por um segundinho, esse que compartilho com Diogo enquanto assistimos ao pôr-do-sol, eu desejo ficar, mais do que voltar.
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O Que Os Contos Não Contam
FantasíaAyla, Eloise e Íris são trigêmeas, mas a única coisa em comum é o amor pelos livros de contos de fadas. Principalmente pelas adaptações. As três vivem em pé de guerra, sempre discordando uma da outra, mas quando Íris acha uma nova adaptação tudo mud...
