39. Íris

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Joseph puxa assunto, mas a tenção que paira é horrível, e nada se prolonga. Até que vejo uma mesa de xadrez, quando voltamos da caminhada, em uma das salas do primeiro andar.

— O que está olhando, menina? — o idoso pergunta, como se eu tivesse o ofendido por estar olhando demais a sua casa. — O que viu de tão interessante?

— Uma mesa de xadrez, senhor... — coro, com seu olhar duro e julgador. — me desculpe, não foi minha intenção ofende-lo.

— Sabe jogar? — Joseph pergunta, curioso. Eu digo a verdade, o que os surpreende. — Então eu te desafio a uma partida. Vamos ver se ganha de mim.

Seu sorriso largo e triunfante atiça a competidora que há em mim. Ele não deveria ter feito isso, e eu deveria me manter calada; mas não o faço. Empino meu queixo e entro na sala.

Além da mesa de xadrez, que fica bem no centro da sala, há alguns sofás e estantes de livros, mas não muitos. A janela é maior que a outra sala e está aberta, com vista para o jardim. O sol banha metade do recinto, o tornando mais acolhedor e convidativo.

Me sento em uma das cadeiras, na posição das peças brancas, e Joseph do outro lado. Seu avô bufa e se senta numa poltrona perto de nós resmungando.

Começo o jogo sem nenhuma expressão, bem o contrário do loiro, que mantém um sorriso presunçoso até metade da partida, quando eu faço cheque, lhe dando apenas uma saída.

Pelo canto do olho vejo o velho se empertigar e ficar na ponta da poltrona, totalmente surpreso com a audácia de minha jogada. Os dois sabem que dei essa saída de propósito, que poderia ter feito xeque-mate. Eles me encaram, chocados; então finalmente me deixo sorrir.

— Eu quero jogar com a garota. — o avô de Joseph se levanta e vai para o lado do neto, o cutucando para se levantar da cadeira. — Vamos, rapaz, você já perdeu para essa menina, o que eu julgo como uma vergonha. Espero que pratique mais xadrez e numa mais deixe uma mulher ganhar.

Joseph solta uma risada e se levanta, sem parar de me fitar. Ele está surpreso, mas de uma forma boa. Posso sentir que ele gostou dessa surpresa e dentro de si ficou aquecido; porque em mim também ficou.

O barão de Riquewihr começa o jogo, depois de ter pego as peças brancas sem aviso prévio. Eu esqueço que Joseph está em pé ao meu lado, e que estou jogando com seu avô, e faço como num campeonato.

Há tempos não jogo, e poder sentir minhas veias pulsando em adrenalina, super felizes por estar competindo, me deixa feliz.

O idoso joga bem, e me lembra David e a forma que jogou comigo em seu primeiro dia de Aula. Não ligo que seja Barão, ou avô de Joseph, eu o ataco e venço em cinco jogadas, nem o deixando respirar; ou sequer pensar em como fiz isso, e qual melhor forma de sair da cilada.

Joseph solta uma gargalhada gostosa, me fazendo voltar a prestar atenção em minha volta. Levanto minha cabeça e o encaro, com a testa franzida. Sei que ganhei de lavada, mas não sei qual a graça.

— Foi o melhor jogo que já presenciei em toda a minha vida! — ele exclama, com as mãos na barriga, mal se segurando. — Você ganhou do meu avô, e sem dó! Achei que o deixaria ganhar, mas não, não deixou!

— Eu nunca deixo ninguém ganhar. — respondo, mordendo meu lábio para não me contagiar com sua risada.

Me viro para o senhor e o pego me observando, com brilho nos olhos. — A única pessoa que já me venceu no xadrez foi o pai desse garoto. — ele conta, com a voz calma e baixa, bem diferente de momentos atrás.

— Espero que o senhor não me odeie também... -- solto.

Ele sorri, balança a cabeça e ri. Simplesmente ri.

Joseph fica quieto e eu o olho novamente, o vendo tão surpreso quanto eu. O Barão de Riquewihr ri sozinho por um tempo, e quando termina, se levanta.

— Fora a melhor e mais rápida partida, srta. Íris, que eu tive o prazer de participar. Espero que volte mais vezes e me ensine essas suas jogadas tão ousadas e inteligentes.

Aquiesço e me levanto também, mal acreditando que o velho rabugento gostou de mim por te-lo vencido no xadrez.

— Voltarei com certeza, Barão, só não prometo lhe ensinar meus truques...

— Garota esperta. — ele fala olhando para o Joseph. — Gostei dela.

Sinto a tão familiar mão do loiro em minhas costas, e sua grande presença ao meu lado. — Ela é realmente incrível, vovô.

No fim da tarde, enquanto voltamos para casa, uma ideia aparece em minha mente de repente; se eu tentasse ler algum livro, será que ele me levaria de volta para casa?

Conto minha ideia repentina para o Joseph, que a recebe com um misto de surpresa, mas concorda que pode ser uma saída.

— Podemos procurar na livraria, por algum livro que seja o mais próximo do seu século.

— Um livro futurista. — concordo. — Mas eu não vi nenhum livro desse tipo por lá...

— Geralmente todos os livros mais exóticos, diferentes e "rejeitados" pela maioria das pessoas são levados para o castelo da Fera... Ele sempre pede livros assim.

— Então precisamos voltar lá e procurar na biblioteca dele. — respiro fundo, me segurando para não desistir de ir. Não posso desistir. — Quando podemos voltar lá?

— Sábado que vem podemos começar nossa busca, mas mandarei um bilhete ao rei, pedindo que já comece a procura.

— Como ele receberá, se apenas nós e seu pai sabemos de sua existencia?

— Pombos. — ele sorri e seus olhos azuis observam a surpresa em meu rosto. _ Não sabia que eles podem enviar bilhetes?

— Sabia, mas eu achava que era invenção dos livros...

— Mas não estamos em um? — ele desvia seu olhar para estrada, mas consigo ver uma centelha de mágoa. — Tudo é possível.

Mordo minha boca, para me manter calada e em parte para me culpar por esse olhar triste. Esse é o lado ruim da verdade; ela dói. E deve estar sendo horrível para Joseph e sua família saberem que são personagens, e pior ainda, que nem são citados.

Antes de aterrissar de cabeça em suas vidas eles estavam muito bem, vivendo felizes e plenos. Agora posso apostar que se acham um nada, insignificantes e sem objetivo na vida, e tudo por culpa minha.

O Que Os Contos Não ContamHistórias para pegar e não largar. Descubra agora