Joseph puxa assunto, mas a tenção que paira é horrível, e nada se prolonga. Até que vejo uma mesa de xadrez, quando voltamos da caminhada, em uma das salas do primeiro andar.
— O que está olhando, menina? — o idoso pergunta, como se eu tivesse o ofendido por estar olhando demais a sua casa. — O que viu de tão interessante?
— Uma mesa de xadrez, senhor... — coro, com seu olhar duro e julgador. — me desculpe, não foi minha intenção ofende-lo.
— Sabe jogar? — Joseph pergunta, curioso. Eu digo a verdade, o que os surpreende. — Então eu te desafio a uma partida. Vamos ver se ganha de mim.
Seu sorriso largo e triunfante atiça a competidora que há em mim. Ele não deveria ter feito isso, e eu deveria me manter calada; mas não o faço. Empino meu queixo e entro na sala.
Além da mesa de xadrez, que fica bem no centro da sala, há alguns sofás e estantes de livros, mas não muitos. A janela é maior que a outra sala e está aberta, com vista para o jardim. O sol banha metade do recinto, o tornando mais acolhedor e convidativo.
Me sento em uma das cadeiras, na posição das peças brancas, e Joseph do outro lado. Seu avô bufa e se senta numa poltrona perto de nós resmungando.
Começo o jogo sem nenhuma expressão, bem o contrário do loiro, que mantém um sorriso presunçoso até metade da partida, quando eu faço cheque, lhe dando apenas uma saída.
Pelo canto do olho vejo o velho se empertigar e ficar na ponta da poltrona, totalmente surpreso com a audácia de minha jogada. Os dois sabem que dei essa saída de propósito, que poderia ter feito xeque-mate. Eles me encaram, chocados; então finalmente me deixo sorrir.
— Eu quero jogar com a garota. — o avô de Joseph se levanta e vai para o lado do neto, o cutucando para se levantar da cadeira. — Vamos, rapaz, você já perdeu para essa menina, o que eu julgo como uma vergonha. Espero que pratique mais xadrez e numa mais deixe uma mulher ganhar.
Joseph solta uma risada e se levanta, sem parar de me fitar. Ele está surpreso, mas de uma forma boa. Posso sentir que ele gostou dessa surpresa e dentro de si ficou aquecido; porque em mim também ficou.
O barão de Riquewihr começa o jogo, depois de ter pego as peças brancas sem aviso prévio. Eu esqueço que Joseph está em pé ao meu lado, e que estou jogando com seu avô, e faço como num campeonato.
Há tempos não jogo, e poder sentir minhas veias pulsando em adrenalina, super felizes por estar competindo, me deixa feliz.
O idoso joga bem, e me lembra David e a forma que jogou comigo em seu primeiro dia de Aula. Não ligo que seja Barão, ou avô de Joseph, eu o ataco e venço em cinco jogadas, nem o deixando respirar; ou sequer pensar em como fiz isso, e qual melhor forma de sair da cilada.
Joseph solta uma gargalhada gostosa, me fazendo voltar a prestar atenção em minha volta. Levanto minha cabeça e o encaro, com a testa franzida. Sei que ganhei de lavada, mas não sei qual a graça.
— Foi o melhor jogo que já presenciei em toda a minha vida! — ele exclama, com as mãos na barriga, mal se segurando. — Você ganhou do meu avô, e sem dó! Achei que o deixaria ganhar, mas não, não deixou!
— Eu nunca deixo ninguém ganhar. — respondo, mordendo meu lábio para não me contagiar com sua risada.
Me viro para o senhor e o pego me observando, com brilho nos olhos. — A única pessoa que já me venceu no xadrez foi o pai desse garoto. — ele conta, com a voz calma e baixa, bem diferente de momentos atrás.
— Espero que o senhor não me odeie também... -- solto.
Ele sorri, balança a cabeça e ri. Simplesmente ri.
Joseph fica quieto e eu o olho novamente, o vendo tão surpreso quanto eu. O Barão de Riquewihr ri sozinho por um tempo, e quando termina, se levanta.
— Fora a melhor e mais rápida partida, srta. Íris, que eu tive o prazer de participar. Espero que volte mais vezes e me ensine essas suas jogadas tão ousadas e inteligentes.
Aquiesço e me levanto também, mal acreditando que o velho rabugento gostou de mim por te-lo vencido no xadrez.
— Voltarei com certeza, Barão, só não prometo lhe ensinar meus truques...
— Garota esperta. — ele fala olhando para o Joseph. — Gostei dela.
Sinto a tão familiar mão do loiro em minhas costas, e sua grande presença ao meu lado. — Ela é realmente incrível, vovô.
☆
No fim da tarde, enquanto voltamos para casa, uma ideia aparece em minha mente de repente; se eu tentasse ler algum livro, será que ele me levaria de volta para casa?
Conto minha ideia repentina para o Joseph, que a recebe com um misto de surpresa, mas concorda que pode ser uma saída.
— Podemos procurar na livraria, por algum livro que seja o mais próximo do seu século.
— Um livro futurista. — concordo. — Mas eu não vi nenhum livro desse tipo por lá...
— Geralmente todos os livros mais exóticos, diferentes e "rejeitados" pela maioria das pessoas são levados para o castelo da Fera... Ele sempre pede livros assim.
— Então precisamos voltar lá e procurar na biblioteca dele. — respiro fundo, me segurando para não desistir de ir. Não posso desistir. — Quando podemos voltar lá?
— Sábado que vem podemos começar nossa busca, mas mandarei um bilhete ao rei, pedindo que já comece a procura.
— Como ele receberá, se apenas nós e seu pai sabemos de sua existencia?
— Pombos. — ele sorri e seus olhos azuis observam a surpresa em meu rosto. _ Não sabia que eles podem enviar bilhetes?
— Sabia, mas eu achava que era invenção dos livros...
— Mas não estamos em um? — ele desvia seu olhar para estrada, mas consigo ver uma centelha de mágoa. — Tudo é possível.
Mordo minha boca, para me manter calada e em parte para me culpar por esse olhar triste. Esse é o lado ruim da verdade; ela dói. E deve estar sendo horrível para Joseph e sua família saberem que são personagens, e pior ainda, que nem são citados.
Antes de aterrissar de cabeça em suas vidas eles estavam muito bem, vivendo felizes e plenos. Agora posso apostar que se acham um nada, insignificantes e sem objetivo na vida, e tudo por culpa minha.
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O Que Os Contos Não Contam
FantasyAyla, Eloise e Íris são trigêmeas, mas a única coisa em comum é o amor pelos livros de contos de fadas. Principalmente pelas adaptações. As três vivem em pé de guerra, sempre discordando uma da outra, mas quando Íris acha uma nova adaptação tudo mud...
