Passo a primeira semana entre livros e pilhas de roupas; pela manhã ajudo Sr. Martinez na livraria, e à tarde lavo roupas com sua esposa. Quando chega a noite só consigo tomar um banho e comer alguma coisa leve, antes de capotar na minha cama.
Mal vi Joseph esses dias, e minha curiosidade foi tão grande que cheguei a perguntar à Sra. Martinez por onde seu filho andava. Ela contou que todas as manhãs ele ajuda o avô, e à tarde fica com o pai na livraria. E, como ando dormindo cedo, não o vejo no jantar.
Mas hoje, sábado, a livraria fecha ao meio dia, e eu o encontro entre as pilhas de livros, no fundo da loja, assim que entro. Joseph me lança um olhar surpreso; nem ele me esperava aqui.
O cumprimento e visto meu avental. — O Sr. Martinez ainda não chegou?
— Aos sábados eu que tomo conta da loja. — ele responde, depois de me cumprimentar. — Ele me contou que está sendo uma ótima funcionária. Está gostando?
— Sim. — deixo escapar um sorriso. — Eu amo ler, e estar dentro de uma livraria...
— Espera, a senhorita sabe ler? — o loiro pergunta, surpreso.
— S-sim... — coro, tentando pensar numa boa desculpa. — Aprendi algumas coisas no orfanato, escondida das freiras...
— Oh! Que... Curioso...
Dou um sorriso amarelo e vou para a frente da loja, para abrir a porta de vidro. Sinto que Joseph me segue, mas fica calado e mantém uma distância respeitável. Quando dou meia volta, dou de cara com seu peito largo. Levanto meu olhar e o vejo sorrir, achando graça naquilo. Ele se vira e vai para o balcão, e não para de me observar com seu olhar curioso.
Passamos a primeira hora num silêncio confortável. Faço meu trabalho de tirar a poeira de toda a loja, como todos os dias, e quando termino, me sento numa cadeira vaga ao seu lado, atrás do balcão.
— Depois do almoço vou visitar um amigo. — Joseph conta, olhando para a porta da loja. — A senhorita gostaria de me acompanhar?
— Mas... Não conheço seu amigo. — respondo, confusa com o convite.
— Conhecerá hoje, se for comigo. Tem algo que eu quero lhe mostrar. — ele me olha pelo canto do olho e sorri. Seus olhos azuis brilham, e eu não tenho como recusar.
Depois do almoço, ajudo Joseph à arrumar um saco com alguns livros. Ele pendura em seu cavalo e, depois de nos despedirmos de seus pais, seguimos para a casa do tal amigo.
Por ter apenas um cavalo, tenho que ir junto dele, com nossos corpos mais perto que o permitido. Sua respiração quente bate em meus ombros, e me faz arrepiar. Já é ruim o bastante estar em cima de um cavalo, coisa que nunca fiz, e com ele me segurando por trás... Tenho que me segurar, para não deixar escapar um suspiro sequer.
— Seu amigo que pediu esses livros? — pergunto, quando já saímos do vilarejo e seguimos por uma estrada de terra.
— Sim. — Joseph responde. — Ele não sai muito de casa...
— Tem alguma doença?
— Uma maldição. — ele conta, com o pesar transmitido pela voz. — Todo mês levo alguns livros que ele encomenda...
— Por que está me levando dessa vez? — pergunto, confusa e curiosa. — Não nos conhecemos, para ter intimidade o bastante para o senhor me levar à uma entrega.
— Quando disse que gosta de ler, e que aprendeu sozinha... — ele faz uma breve pausa, medindo suas palavras, mas continua: — Antes mesmo disso, quando a achei, perdida perto da cerca do meu avô... Eu vi algo, Srta. Irís... Não sei explicar, mas tudo sobre a senhorita me deixa curioso para saber mais, para ficar perto.
VOCÊ ESTÁ LENDO
O Que Os Contos Não Contam
FantasiAyla, Eloise e Íris são trigêmeas, mas a única coisa em comum é o amor pelos livros de contos de fadas. Principalmente pelas adaptações. As três vivem em pé de guerra, sempre discordando uma da outra, mas quando Íris acha uma nova adaptação tudo mud...
