21. Íris

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Passo a primeira semana entre livros e pilhas de roupas; pela manhã ajudo Sr. Martinez na livraria, e à tarde lavo roupas com sua esposa. Quando chega a noite só consigo tomar um banho e comer alguma coisa leve, antes de capotar na minha cama.

Mal vi Joseph esses dias, e minha curiosidade foi tão grande que cheguei a perguntar à Sra. Martinez por onde seu filho andava. Ela contou que todas as manhãs ele ajuda o avô, e à tarde fica com o pai na livraria. E, como ando dormindo cedo, não o vejo no jantar.

Mas hoje, sábado, a livraria fecha ao meio dia, e eu o encontro entre as pilhas de livros, no fundo da loja, assim que entro. Joseph me lança um olhar surpreso; nem ele me esperava aqui.

O cumprimento e visto meu avental. — O Sr. Martinez ainda não chegou?

— Aos sábados eu que tomo conta da loja. — ele responde, depois de me cumprimentar. — Ele me contou que está sendo uma ótima funcionária. Está gostando?

— Sim. — deixo escapar um sorriso. — Eu amo ler, e estar dentro de uma livraria...

— Espera, a senhorita sabe ler? — o loiro pergunta, surpreso.

— S-sim... — coro, tentando pensar numa boa desculpa. — Aprendi algumas coisas no orfanato, escondida das freiras...

— Oh! Que... Curioso...

Dou um sorriso amarelo e vou para a frente da loja, para abrir a porta de vidro. Sinto que Joseph me segue, mas fica calado e mantém uma distância respeitável. Quando dou meia volta, dou de cara com seu peito largo. Levanto meu olhar e o vejo sorrir, achando graça naquilo. Ele se vira e vai para o balcão, e não para de me observar com seu olhar curioso.

Passamos a primeira hora num silêncio confortável. Faço meu trabalho de tirar a poeira de toda a loja, como todos os dias, e quando termino, me sento numa cadeira vaga ao seu lado, atrás do balcão.

— Depois do almoço vou visitar um amigo. — Joseph conta, olhando para a porta da loja. — A senhorita gostaria de me acompanhar?

— Mas... Não conheço seu amigo. — respondo, confusa com o convite.

— Conhecerá hoje, se for comigo. Tem algo que eu quero lhe mostrar. — ele me olha pelo canto do olho e sorri. Seus olhos azuis brilham, e eu não tenho como recusar.

Depois do almoço, ajudo Joseph à arrumar um saco com alguns livros. Ele pendura em seu cavalo e, depois de nos despedirmos de seus pais, seguimos para a casa do tal amigo.

Por ter apenas um cavalo, tenho que ir junto dele, com nossos corpos mais perto que o permitido. Sua respiração quente bate em meus ombros, e me faz arrepiar. Já é ruim o bastante estar em cima de um cavalo, coisa que nunca fiz, e com ele me segurando por trás... Tenho que me segurar, para não deixar escapar um suspiro sequer.

— Seu amigo que pediu esses livros? — pergunto, quando já saímos do vilarejo e seguimos por uma estrada de terra.

— Sim. — Joseph responde. — Ele não sai muito de casa...

— Tem alguma doença?

— Uma maldição. — ele conta, com o pesar transmitido pela voz. — Todo mês levo alguns livros que ele encomenda...

— Por que está me levando dessa vez? — pergunto, confusa e curiosa. — Não nos conhecemos, para ter intimidade o bastante para o senhor me levar à uma entrega.

— Quando disse que gosta de ler, e que aprendeu sozinha... — ele faz uma breve pausa, medindo suas palavras, mas continua: — Antes mesmo disso, quando a achei, perdida perto da cerca do meu avô... Eu vi algo, Srta. Irís... Não sei explicar, mas tudo sobre a senhorita me deixa curioso para saber mais, para ficar perto.

O Que Os Contos Não ContamHistórias para pegar e não largar. Descubra agora