Rainha

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Algumas horas antes

— Vossa majestade — um dos meus leais guardas aparece na porta do meu aposento. — Tem uma visita para a senhora.

— A essa hora? — indago, surpresa. — Já é noite... Deve ser algo urgente, ou um golpe. — o guarda fita o piso com atenção, não ousando dirigir seu olhar à mim. — De quem se trata?

— A fada se diz sua irmã, Majestade.

Arfo.

Há anos ela não aparece, escondida em sua floresta. Como ousa aparecer em meu palácio depois de tanto tempo, e sem minha permissão?

— Ela disse algo mais?

— Informou que se trata de um assunto urgente. Também pediu para a avisar que veio por uma força maior. E... — seu pomo de Adão se mexe. — ela tem uma proposta para Vossa Majestade.

— Está com medo de uma fada, André? — dou uma risada com desdém e gesticulo para que se retire. — Irei em meia hora.

— Mas, Majestade...

O que?

Ele ousa dirigir seu olhar ao meu.

— Ela supôs que a senhora a faria esperar, e pediu que a informasse que não veio para um chá, e sua presença é necessária para o bem de ambas, inclusive de vossa mãe.

Bufo e me deixo cair em meu sofá vermelho. Tinha me esquecido do quanto ela é exigente, e mandona...

Tanto faz! Deve ser algo realmente urgente, para faze-la vir e exigir minha presença como se eu não fosse nada menos que uma rainha.

— Tudo bem! — Me levanto e caminho para fora do quarto. — Posso deixar meus afazeres para mais tarde. Mas, André, querido — o olho por sobre o ombro, enquanto me acompanha a alguns metros atrás. — Torça para que seja algo útil, e realmente importante, senão quem sofrerá será você.

Passo pelos corredores de queixo erguido, mal me importando com quem está no caminho e precisa parar o que está fazendo para se curvar para mim.

Todos os criados temem à mim, sem exceção, e tenho orgulho da minha reputação. O medo os coloca na linha, e os obriga a me obedecer. Todos conhecem meu poder e o que sou capaz de fazer para ter o que quero. Se alguém ousar piscar sem que eu permita, no segundo seguinte sua pobre alma não existirá mais.

A sala do trono é um local amplo, cinza e com uma grande poltrona no centro. Minha poltrona, meu trono, minha sala, meu palácio. Tudo meu.

Porém, minha amada irmã está num canto, deixando o ar, que tanto trabalhei para ficar perfeitamente da forma que eu queria, totalmente leve.

Ela traz leveza e paz por onde passa, e isso me dá calafrios. Sua alma é boa, mesmo que tenha sido criada, e sua reputação também, para ser uma fada má e amargurada. Ela não é nada que dizem ser, nunca foi e duvido que será.

— Irmã — a cumprimento com sarcasmo em minha voz. — O quê quer?

Um guarda a empurra para frente do trono, mas com uma distância confortável. Me sento com impaciência, já contando os segundos para voltar ao meu quarto.

— Antes de chegarmos ao ponto — ela começa, me fazendo bocejar. — preciso contar do início o que me trouxe, depois de anos exilada.

— Não terá minha compaixão, se pensa que adicionando "exilada" ajudará em algo. Você herdou a floresta de nossa mãe, reina como quer, e para quem quer. Você é livre, sempre foi. Nunca fora exilada, essa é a verdade. Está sozinha por que escolheu estar. Não tenho nada a ver com isso.

— Eu não quis dizer que você foi a causa do meu exílio.

— Mas deu a entender. Prossiga!

— Há algumas semanas senti que algo em nosso universo mudou, e adivinha minha surpresa, quando me deparei com duas humanas na fronteira da minha floresta? — reviro meus olhos, mas deixo que continue. — Duas moças me pediram ajuda, para ir contra sua vontade.

— Imaginei que poderiam, em algum momento, acabar a encontrado. Mas não buscando ajuda.

— Não leio mentes, mas com o pouco que disseram, deram a entender que não tenho uma reputação tão ruim assim, no universo deles.

— Aonde quer chegar, Malévola?

Apoio meu cotovelo no braço da poltrona, e minha cabeça em minha mão. Espero que ela entenda que está me entediando.

— Você não pode governar tudo sozinha — Malévola ousa dizer. — E sabe que não conseguirá sem mim. Sem meu poder.

— Não estou sozinha --— arfo com a ousadia de minha irmã, mas nada surpresa. — Tenho a mamãe. Não precisamos de você.

— Nossa mãe está presa dentro de um espelho. No que ela pode te ajudar?

— Espero que não tenha se esquecido que fora você quem a amaldiçoou — lembro, conferindo minhas unhas.

— E agora está tentando desfazer a maldição mudando o final das histórias?! Sabe que não dará certo. Já tentamos há muito tempo.

— Não conseguimos porque não tínhamos os humanos — explico o óbvio. — Eles nos criaram, têm poder suficiente para mudar a história. E você sabe, minha querida irmã, elas já fizeram.

— Sim, eu sei. Você conseguiu, Grimhilde. Quando a história recomeçar seu fim será outro, um em que reinará por todo esse universo. Mas você pensou pequeno. Se tem poder para traze-las e leva-las, com nós duas juntas conseguimos sair do livro e reinar o mundo humano. E com mamãe solta, ela pode reinar na Cidade do Nunca, como sempre quis.

Semicerro meus olhos, ponderando cada palavra dita.

— É uma proposta tentadora — admito. — Mas como podemos ter certeza que dará certo? Não podemos arriscar.

— Uma das meninas está noiva, e claramente apaixonada. — tento me lembrar de qual das trigêmeas seria a mais burra de se apaixonar por uma personagem. — Tenho certeza que seu desejo de ficar com o rapaz é maior que o de voltar para casa com as irmãs. Mas ela o fará, ou ao menos tentará.

— Onde você quer chegar, Malévola? — pergunto, com minha curiosidade aguçando minha ansiedade.

— O feitiço só se realiza quando o quê quer for desejado de todo o coração. Creio que, se a menina estiver com o coração cheio de paixão pelo rapaz, ele atravessará também. Se isso acontecer nós teremos nossa certeza, de que dará certo.

— E poderemos atravessar para o mundo real... — Completo o quebra-cabeças que tinha se formando em minha cabeça.

Malévola me observa com atenção, enquanto rumino cada ideia passada para mim. É tentador. Muito tentador. Mas ainda assim muito arriscado.

— Precisamos mandar alguém com poder. — me levanto, não aguentando mais. — Se essa pessoa conseguir usar seus poderes, só então iremos. Não adianta ir para o mundo real sem poderes. Sem eles não somos nada, tanto lá quanto aqui.

Ela assente e estende uma de suas mãos.

— Agora me dê o livro que as levarei para casa, e nosso plano terá início.

O Que Os Contos Não ContamOnde histórias criam vida. Descubra agora