— Acho que esfriou. — faço uma careta para a comida, posta no carrinho que o Sr. Relógio trouxe mais cedo. — Vossa majestade poderia fazer a gentileza de pedir mais? E não se esqueça do senhor, claro.
Meu sorriso é tão falso que minhas bochechas doem, mas eu me seguro e tento ser a mais amável possível.
Depois do que parece horas, somente escutando a Fera falar sobre si, ele finalmente está abaixando a guarda. Espero que pense logo que sou a sua salvadora.
— Claro! — seus olhos se iluminam e ele se levanta rapidamente, arrastando a cadeira para trás sem nenhuma elegância. — Nosso jantar chegará imediatamente.
A besta se dirige para a porta e toca um sino que tem ao lado. Não demora muito e Sr. Relógio aparece pronto para seguir suas ordens. Ele manda que trague um jantar para dois, o que deixa o Sr. Relógio surpreso, mas acena e desaparece.
— Ele logo trará nosso jantar. — a Fera volta a se sentar. — Eu já falei bastante sobre mim, princesa. Me conte sobre sua vida.
— Ah! — forço um sorriso malicioso. — Nada de interessante. Mas... Fiquei em dúvida, do porquê me trancar em seu castelo.
— Veja bem — ele começa, um pouco desconcertado. — Não era minha intensão tranca-la, mas não sabia o que fazer. Quando se trata da senhorita me sinto pisando em ovos.
— Poderia ter pedido para eu ficar.
— E teria aceitado? — ele questiona, surpreso comigo. — Estava claro que a senhorita sentia algo pelo Sr. Martinez, mas... Ora, não era para ser assim, planejamos tudo para que a senhorita gostasse de mim, não dele.
— Como disse anteriormente, eu não podia demonstrar minha admiração por vossa majestade. Mas.. o quê quer dizer com isso?
— O que a impedia, princesa? — ele não me responde, levando a conversa para outro rumo.
— Eu mesma. — dou de ombros e faço biquinho. — Não me sentia digna, nem suficiente para o senhor. Nunca pensei que um dia conheceria um rei, muito menos que ele poderia se interessar por mim. Quando o vi me fechei, por conta disso.
Seus grandes e gulosos olhos azuis fitam meus lábios sem pudor, e eu repreendo meu coração por pulsar tão alto; certamente dá para escuta-lo do outro lado do planeta.
— Não se sinta mal, princesa. É suficiente para mim, tenha certeza disso. Mais que suficiente, ouso admitir. Passei esse tempo todo acreditando que meus planos falharam, mas agora posso sentir um pouco de esperança.
— Levará um tempo, majestade, até que eu esqueça meus problemas do passado e me abra para o senhor. Espero que entenda. Mas, me diga, quais planos são esses?
Ele abre a boca para dizer algo, mas Sr. Relógio entra no quarto nesse momento, o interrompendo.
Fico calada enquanto somos servidos, planejando meus próximos passos. Ainda tenho algumas horas para o enrolar até meia noite, quando a última pétala cairá e eu serei livre; dele e desse livro.
Só quero que passe logo e eu juro nunca mais desejar entrar dentro de um livro. Nunca mais! O romance é bom, mas a luta é maior, principalmente quando é contra a mentira.
Meu coração está tão partido que me sinto doente, e eu não quero mais ficar desse jeito. Não quero mais sofrer a dor de ser traída, abandonada e estar corroendo. É como se parte de mim tivesse sido arrancada, mas na hora eu não senti, apenas agora, como consequência.
A Fera levanta sua taça de vinho, brindando à mim, a doce Íris. Eu queria me lembrar dessa Íris, me agarrar em algo forte o suficiente que não a deixe ir embora. Ela parece ser legal.
— Posso fazer uma pergunta, digamos assim, constrangedora e, talvez, pessoal demais para ser respondida? — abaixo a cabeça, e o olho por entre os cílios com um sorriso tímido. Ele franze o cenho e dá de ombros, autorizando que eu pergunte. — Vossa majestade não se sente mal por passar sua vida solitário? Sei que está sob uma maldição, e sinto muito por isso, principalmente porque o senhor não poderá ter herdeiros.
Ele engole em seco e desvia seu olhar, sabendo que Bela é a única que pode o libertar. Sabe por causa da minha boca grande, mas sabe, e mesmo assim prefere que eu fique aqui ao invés dela.
— Quando a senhorita apareceu, supus que seria quem me amaria e me libertaria — ele responde de cabeça baixa. — Criei tantos futuros em minha mente que acabei não prestando atenção em outras coisas, como a Srta. Bela — ele volta seu olhar para mim. — A senhorita contou que ela me libertará, mas não é nela que eu penso constantemente. Fiquei tão cego que pedi algumas coisas para o Sr. Martinez, e ele fez de bom grado. Uma pena que tenha feito seu trabalho tão bem que a senhorita nem tenha enxergado.
— Vossa majestade está querendo dizer que prefere viver para sempre como fera, isso eu entendi. Apenas não entendi o que Joseph faz no meio dessa história.
— Sim. — ele ergue seu queixo, convicto com a ideia. — Desde que seja com a senhorita, eu aceito esse futuro. E o que eu e o Sr. Martinez fizemos podemos deixar para uma outra conversa.
— Me sinto honrada, mas... Como eu disse...
— Eu sei — ele me corta, com a voz estranhamente aveludada. — Realmente entendo princesa, e não irei lhe apressar, apenas... Aceite.
A fera pressiona seus lábios, incerto se diz ou não o que está pensando.
— Mas...? — o encorajo.
— Sinto muito não poder lhe dar filhos. — sua respiração sai pesada, depois de ter prendido por um tempo. — Suponho que não aceitará ter relações...
— Podemos falar sobre isso no futuro — o corto, voltando a sentir enjôo. — Junto com a conversa sobre Joseph.
Não sei porque estou surpresa por ele estar propondo uma coisa dessas para uma garota de 16 anos. Caramba, ele deve ter no mínimo dez anos a mais que eu!
— Claro. — ele me observa por um tempo, mas antes que eu jogue algo para que ele desvie seu olhar do meu, a besta volta a falar. — O que está achando do jantar? Mal tocou em sua comida...
— Está maravilhoso — minto. — Apenas não tenho muita fome. Acho que... Se déssemos uma volta ajudaria.
— Certamente! — ele parece animado novamente, já se levantando e dando a volta na mesma para me ajudar a levantar. — Onde deseja ir? Biblioteca?
— Estava pensando na rosa... — suspiro, sonhadora. — Sempre tive vontade de vê-la pessoalmente. Antes era somente imaginação ou nos filmes.
— Princesa, eu não tenho certeza se é uma boa ideia... E o que são filmes?
Forço meu sorriso e enlaço meu braço no dele, o desafiando.
— Vamos, não precisa ter medo de uma garota. No caminho aproveito para te contar o que é filme.
Ele solta uma risada irônica. — Não tenho medo de garotas. Nem de ninguém.
— Então o quê está esperando?
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O Que Os Contos Não Contam
FantasíaAyla, Eloise e Íris são trigêmeas, mas a única coisa em comum é o amor pelos livros de contos de fadas. Principalmente pelas adaptações. As três vivem em pé de guerra, sempre discordando uma da outra, mas quando Íris acha uma nova adaptação tudo mud...
