51. Íris

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— Acho que esfriou. — faço uma careta para a comida, posta no carrinho que o Sr. Relógio trouxe mais cedo. — Vossa majestade poderia fazer a gentileza de pedir mais? E não se esqueça do senhor, claro.

Meu sorriso é tão falso que minhas bochechas doem, mas eu me seguro e tento ser a mais amável possível.

Depois do que parece horas, somente escutando a Fera falar sobre si, ele finalmente está abaixando a guarda. Espero que pense logo que sou a sua salvadora.

— Claro! — seus olhos se iluminam e ele se levanta rapidamente, arrastando a cadeira para trás sem nenhuma elegância. — Nosso jantar chegará imediatamente.

A besta se dirige para a porta e toca um sino que tem ao lado. Não demora muito e Sr. Relógio aparece pronto para seguir suas ordens. Ele manda que trague um jantar para dois, o que deixa o Sr. Relógio surpreso, mas acena e desaparece.

— Ele logo trará nosso jantar. — a Fera volta a se sentar. — Eu já falei bastante sobre mim, princesa. Me conte sobre sua vida.

— Ah! — forço um sorriso malicioso. — Nada de interessante. Mas... Fiquei em dúvida, do porquê me trancar em seu castelo.

— Veja bem — ele começa, um pouco desconcertado. — Não era minha intensão tranca-la, mas não sabia o que fazer. Quando se trata da senhorita me sinto pisando em ovos.

— Poderia ter pedido para eu ficar.

— E teria aceitado? — ele questiona, surpreso comigo. — Estava claro que a senhorita sentia algo pelo Sr. Martinez, mas... Ora, não era para ser assim, planejamos tudo para que a senhorita gostasse de mim, não dele.

— Como disse anteriormente, eu não podia demonstrar minha admiração por vossa majestade. Mas.. o quê quer dizer com isso?

— O que a impedia, princesa? — ele não me responde, levando a conversa para outro rumo.

— Eu mesma. — dou de ombros e faço biquinho. — Não me sentia digna, nem suficiente para o senhor. Nunca pensei que um dia conheceria um rei, muito menos que ele poderia se interessar por mim. Quando o vi me fechei, por conta disso.

Seus grandes e gulosos olhos azuis fitam meus lábios sem pudor, e eu repreendo meu coração por pulsar tão alto; certamente dá para escuta-lo do outro lado do planeta.

— Não se sinta mal, princesa. É suficiente para mim, tenha certeza disso. Mais que suficiente, ouso admitir. Passei esse tempo todo acreditando que meus planos falharam, mas agora posso sentir um pouco de esperança.

— Levará um tempo, majestade, até que eu esqueça meus problemas do passado e me abra para o senhor. Espero que entenda. Mas, me diga, quais planos são esses?

Ele abre a boca para dizer algo, mas Sr. Relógio entra no quarto nesse momento, o interrompendo.

Fico calada enquanto somos servidos, planejando meus próximos passos. Ainda tenho algumas horas para o enrolar até meia noite, quando a última pétala cairá e eu serei livre; dele e desse livro.

Só quero que passe logo e eu juro nunca mais desejar entrar dentro de um livro. Nunca mais! O romance é bom, mas a luta é maior, principalmente quando é contra a mentira.

Meu coração está tão partido que me sinto doente, e eu não quero mais ficar desse jeito. Não quero mais sofrer a dor de ser traída, abandonada e estar corroendo. É como se parte de mim tivesse sido arrancada, mas na hora eu não senti, apenas agora, como consequência.

A Fera levanta sua taça de vinho, brindando à mim, a doce Íris. Eu queria me lembrar dessa Íris, me agarrar em algo forte o suficiente que não a deixe ir embora. Ela parece ser legal.

— Posso fazer uma pergunta, digamos assim, constrangedora e, talvez, pessoal demais para ser respondida? — abaixo a cabeça, e o olho por entre os cílios com um sorriso tímido. Ele franze o cenho e dá de ombros, autorizando que eu pergunte. — Vossa majestade não se sente mal por passar sua vida solitário? Sei que está sob uma maldição, e sinto muito por isso, principalmente porque o senhor não poderá ter herdeiros.

Ele engole em seco e desvia seu olhar, sabendo que Bela é a única que pode o libertar. Sabe por causa da minha boca grande, mas sabe, e mesmo assim prefere que eu fique aqui ao invés dela.

— Quando a senhorita apareceu, supus que seria quem me amaria e me libertaria — ele responde de cabeça baixa. — Criei tantos futuros em minha mente que acabei não prestando atenção em outras coisas, como a Srta. Bela — ele volta seu olhar para mim. — A senhorita contou que ela me libertará, mas não é nela que eu penso constantemente. Fiquei tão cego que pedi algumas coisas para o Sr. Martinez, e ele fez de bom grado. Uma pena que tenha feito seu trabalho tão bem que a senhorita nem tenha enxergado.

— Vossa majestade está querendo dizer que prefere viver para sempre como fera, isso eu entendi. Apenas não entendi o que Joseph faz no meio dessa história.

— Sim. — ele ergue seu queixo, convicto com a ideia. — Desde que seja com a senhorita, eu aceito esse futuro. E o que eu e o Sr. Martinez fizemos podemos deixar para uma outra conversa. 

— Me sinto honrada, mas... Como eu disse...

— Eu sei — ele me corta, com a voz estranhamente aveludada. — Realmente entendo princesa, e não irei lhe apressar, apenas... Aceite.

A fera pressiona seus lábios, incerto se diz ou não o que está pensando.

— Mas...? — o encorajo.

— Sinto muito não poder lhe dar filhos. — sua respiração sai pesada, depois de ter prendido por um tempo. — Suponho que não aceitará ter relações...

— Podemos falar sobre isso no futuro — o corto, voltando a sentir enjôo. — Junto com a conversa sobre Joseph.

Não sei porque estou surpresa por ele estar propondo uma coisa dessas para uma garota de 16 anos. Caramba, ele deve ter no mínimo dez anos a mais que eu!

— Claro. — ele me observa por um tempo, mas antes que eu jogue algo para que ele desvie seu olhar do meu, a besta volta a falar. — O que está achando do jantar? Mal tocou em sua comida...

— Está maravilhoso — minto. — Apenas não tenho muita fome. Acho que... Se déssemos uma volta ajudaria.

— Certamente! — ele parece animado novamente, já se levantando e dando a volta na mesma para me ajudar a levantar. — Onde deseja ir? Biblioteca?

— Estava pensando na rosa... — suspiro, sonhadora. — Sempre tive vontade de vê-la pessoalmente. Antes era somente imaginação ou nos filmes.

— Princesa, eu não tenho certeza se é uma boa ideia... E o que são filmes?

Forço meu sorriso e enlaço meu braço no dele, o desafiando.

— Vamos, não precisa ter medo de uma garota. No caminho aproveito para te contar o que é filme.

Ele solta uma risada irônica. — Não tenho medo de garotas. Nem de ninguém.

— Então o quê está esperando?

O Que Os Contos Não ContamHistórias para pegar e não largar. Descubra agora