41. Eloise

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Vitório não acreditou em uma palavra que eu disse, o que não me surpreendeu. Poucas coisas me deixam boquiaberta, e com certeza essa está fora de questão.

Eu esperava isso, como esperei de Anastácia e sua tia; com elas eu me surpreendi, com ele não. Mas eu tampouco iria ficar mais um segundo guardando um segredo que, indiretamente, ele insistia que eu contasse.

Uma pena que tenha rido e elogiado minha criatividade. Disse até que posso escrever e vender como história de dormir para crianças mal criadas.

Não o julgo, também teria essa reação se fosse o contrário, e também não fico chateada por não ter sua ajuda e apoio nessa questão; sei que, quando voltar para a corte, terei Anastácia.

— Então... — ele suspira, algumas horas depois. — é por conta disso que não pode retribuiu meu beijo? Continuo não acreditando nessa sua história... Nem as fadas teriam tanta criatividade, mas... O que? Por que me olha desse jeito?

— Não quero mais tocar nesse assunto, Sr. Lund. — desvio meu olhar dele para o horizonte, banhado de árvores e mato. — Já estamos há dias andando e não chegamos. Sabe para onde estamos indo ou mentiu?

— Não sou o mentiroso por aqui! — ele arfa ofendido. Eu apenas reviro meus olhos. — E sim, sei para onde estamos indo, mesmo que as pegadas tenham desaparecido desde ontem.

— Estamos seguindo às cegas, suponho. E a julgar sua reação enquanto falo, aposto que em algo acreditou.

— Não posso mentir, dizendo que não a vejo como uma mentirosa, sendo que vejo. Mas também não posso negar que sim, estou tomando o rumo para a casa dos anões, conforme sugeriu.

— Estamos chegando? — pergunto, me segurando para não gritar com ele.

Minha paciência já se esgotou dois segundos depois de estarmos sozinhos na floresta. Graças às meditações guiadas pelo youtube que consegui me segurar até agora. Espero continuar assim por mais tempo.

— Estamos perto, talvez consigamos achar as minas antes do anoitecer.

Ótimo! Estou morta de cansada; dormir no chão e andar durante todo o dia é uma droga, não sei como a princesa fez isso tudo sozinha, e sem comida.

— Podemos fazer uma pausa? Para descansar, comer...

— Estamos perto, srta. Eloise, não podemos nos demorar mais do que já estamos. A viajem teria metade do tempo, se não tivéssemos parado todas as vezes que a senhorita quis.

— Está querendo dizer que eu estou atrapalhando nas buscas?

— Sim, senhorita, estou dizendo isso mesmo. E é por isso que ainda me custa acreditar no que diz.

— Pois saiba que não dou a mínima para o que o senhor acha! — acabo falando mais alto do que devia. — Eu estou cansada, e o senhor não é um cavalheiro suficiente para entender, então que se dane! Não sou uma caçadora, nem tenho porte físico para andar o dia inteiro sem sentir dores, então, novamente, que se dane!

Paramos de andar, e ele me encara assustado, talvez por conta de minhas mãos fechadas em punhos, ao lado de meu corpo, ou meu cenho franzido, mas eu não me importo. Disse o que queria, o que estava engasgado, e me sinto melhor, apesar da raiva.

Vitório abre a boca para, tenho certeza, me contradizer como sempre, mas vira o rosto para outro lado, como se tivesse escutado algo.

Sua respiração muda, ficando bem fraca. Ele pega seu machado pendurado em suas costas com uma das mãos e com a outra me puxa para perto dele, e depois nos agachamos.

— Tem alguém aqui. — ele sussurra em meu ouvido, sem parar de olhar por entre as folhas. — A floresta ficou quieta demais, e eu pude escutar paços. Não é a princesa, tenho certeza. Não estou com um bom pressentimento.

Olho em volta, com meu coração batendo alto o bastante para escutarem à um quarteirão.

Tomara que não seja um lobo; não sei se aguentaria outro monstro daquele na minha frente. Mas, pensando no que Vitório disse, parece ser uma pessoa, não um animal.

— Ora, vejamos o que encontrei por aqui... — escuto a voz, que me faz tremer de medo, e me viro o suficiente para ver a velha atrás de nós. — Por que se escondem, crianças? Ou deveria perguntar de quem?

— Bruxa. — Vitório sussurra para mim. — Não se mexa.

— Sim, sou uma bruxa, mas como descobriram? — ela põe uma mão em sima do coração. — É tão óbvio assim?

— O que quer? — ouso perguntar, mesmo com o aperto de advertência que o caçador me dá.

— Branca de Neve. — ela dá um suspiro cansado. — Preciso que a encontre e traga para mim. Viva ou morta, não me importo.

— Por que a quer? — Vitório pergunta.

— Srta. Eloise leu um livro que enfeiticei, rapaz, e precisa voltar para sua casa, mas não antes de me fazer esse favor. A recompensarei, além de lhe mostrar como voltar pra casa.

Minha mente gira, me deixando tonta. Foi ela? Essa bruxa que me fez entrar no livro? E para que? Lhe entregar Branca de Neve como uma mercadoria? O que direi à Anastácia e sua tia?

— Não posso — arfo. — Não posso, tenho que levar a princesa para o príncipe, isso que preciso fazer.

— Tudo bem, é escolha sua, mas há um porém, minha doce criança... Suas irmãs também vieram, e o feitiço para regressarem só se cumprirá quando as três lerem e desejarem de todo seu coração.

Me levanto num pulo. — Minhas irmãs estão aqui?! Onde?

— Não posso te dizer, infelizmente. Lhe indico que vá para o sul, somente.

— Espera! Então eu tenho que fazer o que a senhora quer, e assim me dará o feitiço para voltar, mas só se minhas irmãs lerem comigo? O que? Eu entendi direito, ou a senhora fez a mesma proposta para elas?

— É uma moça esperta, e saberá o que fazer. Por mais que queira, não posso interferir em suas escolhas, são as regras do feitiço que leu naquele livro. Mas, se isso lhe der mais vontade de seguir minha ordem, realizarei seu desejo de ter seu pai, como se ele nunca tivesse morrido, e também posso lhe dar seu amor verdadeiro.

Vitório me segura em seus braços, só então percebo que estava caindo. Ela sabe sobre meus mais íntimos desejos, sabe como fazer com que eu volte para casa, e sabe onde minhas irmãs estão.

Íris... Meu Deus! Íris é tão indefesa e corajosa, que seria capaz de enfrentar uma fera ou dormir na casa dos sete anões sem nem pensar duas vezes. E Ayla, com toda aquela pose, com certeza arrumaria problemas, se apaixonaria ou mataria alguém só para ter seus desejos realizados.

Agora já não posso mais pensar na branca de neve e no seu povo, eles são personagens de um livro, e eu e minhas irmãs somos reais...

— Eloise? — Vitório me chama, me tirando de meus pensamentos.

Vejo em seus olhos preocupação. A culpa aproveita para me dar um soco bem no meio da cara.

Ele é só um personagem, e eu me deixei esquecer, descumpri algo que prometi à mim mesma e agora tudo virou uma bagunça.

— Agora acredito em você. — ele admite, comigo ainda em seus braços. — Mas o que fará?

— Não faço a mínima ideia.

O Que Os Contos Não ContamHistórias para pegar e não largar. Descubra agora