48. Íris

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Dei-me conta que a fera colocara algo em meu suco no momento em que acordei no mesmo quarto que tinha dormido na semana passada.

Eu gritei como nunca, urrei e esmurrei a porta como um animal, mas não era o suficiente. Não sou forte nem minha voz é potente, mas posso culpar a porta por ser pesada, e a Fera por ter conseguido o que eu já suspeitava desde o início.

Aquela besta estava de olho em mim, senti o perigo, o medo, mas tentei abafar com a segurança que sentia estando perto de Joseph. Mas onde ele está agora? Não consigo colocar na cabeça que me deixou com a fera.

É inacreditável o quanto o amei e acreditei em cada palavra, e como me deixei levar pelo o que sentia. Nos beijamos, ele disse que me amava, acreditei e depois fui abandonada.

Gritei na porta não só pedindo liberdade, mas por conta da dor em meu coração. Gritei até perder a voz, e foi quando parei de chorar também; estava acabado, não tinha mais o que fazer.

Me encolhi no sofá ao centro do quarto e esperei o pior, mas quem apareceu não fora a Fera.

— Suponho que cheguei um pouco atrasada, mas sei que ainda temos tempo.

— Quem é você?

Encaro a mulher enquanto se senta ao meu lado com elegância. Seu vestido é num tom de vermelho vinho, com detalhes dourados e pedras, com certeza, preciosas. Seu cabelo loiro trançado forma uma coroa embaixo de outra, completamente encrustada de pedras que não sei o nome.

Ela parece ser jovem, não tanto quanto eu, e consigo enxergar a maldade por trás de seu sorriso. Ela é linda, mas me dá arrepios; se eu já não estivesse encolhida me encolheria, ou na melhor hipótese, correria.

— Alguns me conhecem como bruxa, outros como Rainha má. — ela responde sem tirar o sorriso de seus lábios vermelhos. — Pode me chamar de Majestade.

— O que faz aqui?

— Era para ter vindo antes, mas estava cuidando da minha enteada. — ela gesticula com desdém. — Mas enfim, vim avisar que fui eu quem lhe colocou aqui, e posso te tirar. Ah, não exatamente dentro desse castelo fedido, quero dizer dentro do livro, entende?

Assinto, mas não digo nada, tentando processar tudo o que contou.

— Ótimo! Fora simples, mas me custou quase toda a minha energia. — ela continua, relaxa no sofá e gesticula como se fofocasse com uma amiga. — Enfeiticei três livros, justo o que você e suas irmãs leram. E, bem, fiz isso basicamente para que mudem a história desses contos.

— Por quê? — pergunto.

— Porque quero reinar em todo o universo, minha querida, cansei de sempre perder. E só humanos podem fazer isso por mim. Meus poderes acabam fora daqui, tive que fazer um grande esforço, e por muito tempo, para que conseguisse trazer vocês.

— O que exatamente tenho que fazer?

— É simples! A senhorita não pode deixar que a Fera seja liberta da maldição que eu impus, compreende? — eu assinto, ela prossegue. — Suas irmãs estão por ai fazendo a mesma coisa em outras histórias. Assim que as três terminarem darei o livro enfeitiçado, que as levará de volta.

— O que ganho com isso? — semicerro meus olhos.

— Bem, além de poder se livrar dessa besta — ela aponta o polegar para a porta trancada. — poderá voltar para casa, e ter seus desejos realizados. Mas o feitiço contém uma condição; as três precisam lê-lo ao mesmo tempo e desejar com todo o coração.

— Como sabe quais são meus desejos? — pergunto, preocupada.

— No momento que leu o feitiço eu soube. Estava escrito, mas suponho que tenha se esquecido.

Respiro fundo, digerindo mais isso. — Está querendo dizer que só posso voltar para casa depois que impedir o final feliz do Rei, e depois de ler um feitiço com minhas irmãs?

— Fora o que expliquei. — seu sorriso falha por um segundo, mas eu já sabia que era falso. — Não se esqueça de que as três precisam querer voltar, para que seja realizado.

— Entendi. — confirmo com a cabeça. — Mas não entendi como será a parte dos desejos realizados. Sua Majestade é uma bruxa, não uma fada.

— Na hora que ler o feitiço saberá.

Fecho meus olhos bem apertado, fazendo uma pausa, com a mente rodando de tanta informação. Parece um pouco confuso, mas acho que estou entendendo.

— Quando não houver final feliz o mal reinará, e a senhora aproveitará para controlar a situação, as consequências, reinando sob o mal; com mais maldade.

— Sim — ela admite sem rodeios. Nem sua expressão muda. — Mas não se preocupe, não estará aqui para apreciar meu reinado soberano, o que é uma pena. Acredito ser a melhor rainha de todo o mundo, minha querida.

— Se tivesse chegado há um dia eu recusaria. — a encaro, sem um pingo de medo, e com apenas um sentimento me comandando. — Estou com tanta raiva que não sou capaz de pensar em recusar.

Ela dá de ombros e se levanta. — A senhorita está com sorte, hoje a última pétala cairá, então logo estará em casa com a mamãe.

— Trará minhas irmãs e o livro?

— Vocês serão enviadas até a mim.

Confirmo com a cabeça antes de desaparecer.

Fico no mesmo lugar até a porta ser aberta e um carrinho com comidas ser empurrado, pelo relógio, para dentro do quarto.

Me levanto e vou até o Sr. Relógio.

— Onde ele está? — o pergunto com urgência.

— Quem exatamente, senhorita? — ele para com o carrinho ao lado de uma mesa perto da janela. — Aliás, se sente melhor?

— Não importa como me sinto, quero ver o Rei. Agora.

Sr. Relógio me fita espantado, mas não muito, sei que está se contendo.

Ele se inclina, confirmando, e sai do quarto sem dizer mais nada. Rumino se ele faria mesmo o que pedi, mas quando a Fera entra no quarto, uns minutos mais tarde, minha dúvida evapora.

O Rei entra calmamente, mas com autoridade. Sua presença enche o quarto o deixando três vezes menor, e se senta em uma das duas cadeiras, na mesa ao lado da janela. Ele me observa com atenção enquanto me sento na sua frente, o encarando de queixo erguido.

Tento não demonstrar minha raiva nem pavor, mas tenho medo que meus batimentos cardíacos denunciem a verdade, de tão altos que estão.

— Estava me perguntando quando iria parar de gritar e me chamaria com educação. — sua voz grossa me faz tremer, mas me seguro. — Ainda sou o Rei, devo ser tratado com respeito, princesa.

— Sinto muito. — luto para ser doce. — Estava com medo e assustada, não sabia o que fazer.

— Posso imaginar. — ele inclina a cabeça levemente para o lado, ainda me observando. Tenho vontade de correr pela tentadora porta aberta. — Mas o que a fez solicitar minha presença? Suponho que esteja com raiva por estar presa, ou, ouso dizer, me odeie pelo que fiz.

— Não o odeio. Apenas... Como posso dizer? — olho para o alto, procurando as palavras certas — Não podia demonstrar minha admiração pelo senhor.

— Admiração? — seus olhos se abrem um pouco. — Estou surpreso, princesa.

Assinto e prossigo: -— Mas agora não me esconderei mais, Majestade. Por isso o chamei, para conversamos.

— Outra surpresa. — ele afirma. — O que tem em mente?

— Podemos nos conhecer melhor, o que acha? Comece primeiro, por favor.

Sua surpresa é palpável, mas ele fica feliz em contar sobre si. E fala tanto que é evidente que gosta de se escutar, mas eu não sei se consigo suportar até a última pétala cair; conto cada segundo e me seguro para não vomitar.

O Que Os Contos Não ContamHistórias para pegar e não largar. Descubra agora