Dei-me conta que a fera colocara algo em meu suco no momento em que acordei no mesmo quarto que tinha dormido na semana passada.
Eu gritei como nunca, urrei e esmurrei a porta como um animal, mas não era o suficiente. Não sou forte nem minha voz é potente, mas posso culpar a porta por ser pesada, e a Fera por ter conseguido o que eu já suspeitava desde o início.
Aquela besta estava de olho em mim, senti o perigo, o medo, mas tentei abafar com a segurança que sentia estando perto de Joseph. Mas onde ele está agora? Não consigo colocar na cabeça que me deixou com a fera.
É inacreditável o quanto o amei e acreditei em cada palavra, e como me deixei levar pelo o que sentia. Nos beijamos, ele disse que me amava, acreditei e depois fui abandonada.
Gritei na porta não só pedindo liberdade, mas por conta da dor em meu coração. Gritei até perder a voz, e foi quando parei de chorar também; estava acabado, não tinha mais o que fazer.
Me encolhi no sofá ao centro do quarto e esperei o pior, mas quem apareceu não fora a Fera.
— Suponho que cheguei um pouco atrasada, mas sei que ainda temos tempo.
— Quem é você?
Encaro a mulher enquanto se senta ao meu lado com elegância. Seu vestido é num tom de vermelho vinho, com detalhes dourados e pedras, com certeza, preciosas. Seu cabelo loiro trançado forma uma coroa embaixo de outra, completamente encrustada de pedras que não sei o nome.
Ela parece ser jovem, não tanto quanto eu, e consigo enxergar a maldade por trás de seu sorriso. Ela é linda, mas me dá arrepios; se eu já não estivesse encolhida me encolheria, ou na melhor hipótese, correria.
— Alguns me conhecem como bruxa, outros como Rainha má. — ela responde sem tirar o sorriso de seus lábios vermelhos. — Pode me chamar de Majestade.
— O que faz aqui?
— Era para ter vindo antes, mas estava cuidando da minha enteada. — ela gesticula com desdém. — Mas enfim, vim avisar que fui eu quem lhe colocou aqui, e posso te tirar. Ah, não exatamente dentro desse castelo fedido, quero dizer dentro do livro, entende?
Assinto, mas não digo nada, tentando processar tudo o que contou.
— Ótimo! Fora simples, mas me custou quase toda a minha energia. — ela continua, relaxa no sofá e gesticula como se fofocasse com uma amiga. — Enfeiticei três livros, justo o que você e suas irmãs leram. E, bem, fiz isso basicamente para que mudem a história desses contos.
— Por quê? — pergunto.
— Porque quero reinar em todo o universo, minha querida, cansei de sempre perder. E só humanos podem fazer isso por mim. Meus poderes acabam fora daqui, tive que fazer um grande esforço, e por muito tempo, para que conseguisse trazer vocês.
— O que exatamente tenho que fazer?
— É simples! A senhorita não pode deixar que a Fera seja liberta da maldição que eu impus, compreende? — eu assinto, ela prossegue. — Suas irmãs estão por ai fazendo a mesma coisa em outras histórias. Assim que as três terminarem darei o livro enfeitiçado, que as levará de volta.
— O que ganho com isso? — semicerro meus olhos.
— Bem, além de poder se livrar dessa besta — ela aponta o polegar para a porta trancada. — poderá voltar para casa, e ter seus desejos realizados. Mas o feitiço contém uma condição; as três precisam lê-lo ao mesmo tempo e desejar com todo o coração.
— Como sabe quais são meus desejos? — pergunto, preocupada.
— No momento que leu o feitiço eu soube. Estava escrito, mas suponho que tenha se esquecido.
Respiro fundo, digerindo mais isso. — Está querendo dizer que só posso voltar para casa depois que impedir o final feliz do Rei, e depois de ler um feitiço com minhas irmãs?
— Fora o que expliquei. — seu sorriso falha por um segundo, mas eu já sabia que era falso. — Não se esqueça de que as três precisam querer voltar, para que seja realizado.
— Entendi. — confirmo com a cabeça. — Mas não entendi como será a parte dos desejos realizados. Sua Majestade é uma bruxa, não uma fada.
— Na hora que ler o feitiço saberá.
Fecho meus olhos bem apertado, fazendo uma pausa, com a mente rodando de tanta informação. Parece um pouco confuso, mas acho que estou entendendo.
— Quando não houver final feliz o mal reinará, e a senhora aproveitará para controlar a situação, as consequências, reinando sob o mal; com mais maldade.
— Sim — ela admite sem rodeios. Nem sua expressão muda. — Mas não se preocupe, não estará aqui para apreciar meu reinado soberano, o que é uma pena. Acredito ser a melhor rainha de todo o mundo, minha querida.
— Se tivesse chegado há um dia eu recusaria. — a encaro, sem um pingo de medo, e com apenas um sentimento me comandando. — Estou com tanta raiva que não sou capaz de pensar em recusar.
Ela dá de ombros e se levanta. — A senhorita está com sorte, hoje a última pétala cairá, então logo estará em casa com a mamãe.
— Trará minhas irmãs e o livro?
— Vocês serão enviadas até a mim.
Confirmo com a cabeça antes de desaparecer.
Fico no mesmo lugar até a porta ser aberta e um carrinho com comidas ser empurrado, pelo relógio, para dentro do quarto.
Me levanto e vou até o Sr. Relógio.
— Onde ele está? — o pergunto com urgência.
— Quem exatamente, senhorita? — ele para com o carrinho ao lado de uma mesa perto da janela. — Aliás, se sente melhor?
— Não importa como me sinto, quero ver o Rei. Agora.
Sr. Relógio me fita espantado, mas não muito, sei que está se contendo.
Ele se inclina, confirmando, e sai do quarto sem dizer mais nada. Rumino se ele faria mesmo o que pedi, mas quando a Fera entra no quarto, uns minutos mais tarde, minha dúvida evapora.
O Rei entra calmamente, mas com autoridade. Sua presença enche o quarto o deixando três vezes menor, e se senta em uma das duas cadeiras, na mesa ao lado da janela. Ele me observa com atenção enquanto me sento na sua frente, o encarando de queixo erguido.
Tento não demonstrar minha raiva nem pavor, mas tenho medo que meus batimentos cardíacos denunciem a verdade, de tão altos que estão.
— Estava me perguntando quando iria parar de gritar e me chamaria com educação. — sua voz grossa me faz tremer, mas me seguro. — Ainda sou o Rei, devo ser tratado com respeito, princesa.
— Sinto muito. — luto para ser doce. — Estava com medo e assustada, não sabia o que fazer.
— Posso imaginar. — ele inclina a cabeça levemente para o lado, ainda me observando. Tenho vontade de correr pela tentadora porta aberta. — Mas o que a fez solicitar minha presença? Suponho que esteja com raiva por estar presa, ou, ouso dizer, me odeie pelo que fiz.
— Não o odeio. Apenas... Como posso dizer? — olho para o alto, procurando as palavras certas — Não podia demonstrar minha admiração pelo senhor.
— Admiração? — seus olhos se abrem um pouco. — Estou surpreso, princesa.
Assinto e prossigo: -— Mas agora não me esconderei mais, Majestade. Por isso o chamei, para conversamos.
— Outra surpresa. — ele afirma. — O que tem em mente?
— Podemos nos conhecer melhor, o que acha? Comece primeiro, por favor.
Sua surpresa é palpável, mas ele fica feliz em contar sobre si. E fala tanto que é evidente que gosta de se escutar, mas eu não sei se consigo suportar até a última pétala cair; conto cada segundo e me seguro para não vomitar.
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O Que Os Contos Não Contam
FantasiAyla, Eloise e Íris são trigêmeas, mas a única coisa em comum é o amor pelos livros de contos de fadas. Principalmente pelas adaptações. As três vivem em pé de guerra, sempre discordando uma da outra, mas quando Íris acha uma nova adaptação tudo mud...
