18. Íris

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Joseph Martinez mora com os pais, numa casa de tijolos em cima da livraria da família, bem em frente à praça do vilarejo; onde algumas pessoas trabalham e passeiam, enquanto cuidam da vida dos outros.

Seu pai é dono da livraria, e seu olhar gentil e acolhedor me fez sentir como se estivesse em casa, mesmo estando muito, muito longe. O senhor de cabelos grisalhos fechou a livraria assim que seu filho entrou comigo, me segurando como se eu pudesse cair à qualquer momento.

E poderia mesmo. Minha barriga doía e gritava tanto que, a primeira coisa que fizeram, foram me levar para a cozinha da Sra. Martinez. Mesmo sendo um apartamento, a casa dos Martinez é grande, e a cozinha não fica de fora. E a Sra. Martinez me lembra a minha mãe, por ter me recebido tão bem e com um sorriso igualmente acolhedor.

Joseph e seu pai me deixaram com a gentil Senhora, que, depois de eu ter comido, me ajudou à tomar um banho e me arrumou um quarto. Dormi até a hora do jantar. A Sra. Martinez me convidou para participar com sua família, e eu aceitei, incerta se era certo ou errado. As coisas funcionam de uma forma diferente no século XVIII.

Começando pela roupa. As roupas. São muitas camadas, e nem preciso contar sobre o espartilho, que aperta até a alma. Me sento em uma das cadeiras, da mesa de jantar, me forçando a agir com naturalidade. Não posso demonstrar a falta de ar que estou sentindo. Ou deixando de sentir.

— Nos conte um pouco sobre a senhorita. — Sr. Martinez, o pai, pergunta à mim, durante o jantar. Ele parece curioso, e não desconfiado. Talvez isso seja bom. — Meu filho disse que a senhorita é órfã... Creio que já tenha dezoito anos, para estar sozinha e fora do orfanato.

Engulo a comida, me segurando para não demonstrar nem um pouco do nervoso que estou sentindo, muito menos minhas mãos trêmulas.

— Sim, senhor. — é tudo o que digo, por fim.

— Mas... — agora a Sra. Martinez entra na conversa. — Apenas deixaram a senhorita sair, sozinha, com uma muda de roupa esfarrapada e sem dinheiro? Que horror!

Lanço um olhar triste para a senhora, junto com um meio sorriso. — Acho que... Bem, acho que eles não me julgaram merecedora de tais privilégios. Tenho que agradecer pelo pouco que conquistei.

— Como foi sua infância no orfanato? — Joseph pergunta, depois de passar a maior parte da noite calado. Sua voz grossa e gentil me atinge, como mais cedo, e eu me sinto menos nervosa. — Espero que não tenha sofrido.

— Não conheço outra vida. — minto, tentando pensar numa vida que nunca tive, e nem sei se a verdadeira dona desse corpo teve. — Mas acho que não fora uma infância totalmente feliz. Creio que o senhor teve o amor de sua família o cercando e cuidando, bem diferente de mim. Eu tinha as freiras e as crianças que conviviam comigo. Mas era apenas convivência. Não éramos família, ou sequer amigos.

— Uma vida solitária... — Sra. Martinez concluí em voz baixa, e triste pela vida que eu acabei de inventar.

— Sim, mas não se preocupem! — tento soar alegre e esperançosa. — Vou para a cidade, e recomeçarei minha vida da melhor forma. Graças à vocês, a viagem será mais leve e rápida.

— A senhorita tem certeza que quer ir para a cidade? — o Sr. Martinez pergunta, surpreso. — Estará sozinha, e sem dinheiro... Não acho uma boa ideia, uma moça ir para a cidade sozinha.

— Não tenho outra opção... — murmuro, também pensando que não é uma boa ideia. Mas a única.

— Pode ficar conosco por um tempo! — A Sra. Martinez sugere. Eu a encaro, chocada. — A senhorita pode me ajudar, no meu trabalho, ou ajudar meu marido na livraria. Ou, quem sabe, podemos arrumar um emprego melhor, se assim desejar.

— Acho uma ótima ideia! — Sr. Martinez sorri, de orelha-a-orelha, e eu tenho vontade de surtar. Parece que o espartilho ficou mais apertado que antes.

— E-eu...

— Aceite. — Joseph aconselha, mas vejo em seus olhos que é um pedido. Ele também acha que a melhor ideia é ficar com eles.

Tenho que pensar bem, se fico ou não. Eles são uma boa família, não vão me obrigar a ficar, nem me prenderão. Preciso achar Giovanna, ela é a única que sabe sobre mim, e a única que conhece a Íris dessa época. Já menti demais para eles, e ficar aqui significa mais mentiras, ou arriscar e contar toda a verdade.

Mas, eles também tem razão sobre eu ir sozinha, sem roupa e sem dinheiro. Não vou durar muito, e só Deus sabe onde Giovanna está. Ficando posso trabalhar e juntar um dinheiro, suficiente para não morrer na cidade.

Vai levar um tempo, provavelmente meses. Meses sem ver minha família, sem minhas competições e meu clube de xadrez.

O Sr. Martinez tem uma livraria e, talvez, se ele permitir que eu leia alguns livros, isso tudo passe mais rápido e não doa tanto. Só espero que a Giovanna não desista de mim, e que eu esteja fazendo a escolha certa. Dessa vez não posso apostar, não contra mim. Parei de levar tudo na competição no momento em que acordei no orfanato.

— Sei que vocês estão me convidando, mas, só aceitarei se não for incômodo. — esclareço. Eles abrem suas bocas, para contradizer, mas eu continuo: — Aceito trabalhar na livraria, e também posso ajudar a Sra. Martinez. Estou grata por me acolherem sem me conhecerem, e estou disposta a ajudar no que for preciso.

— Você será tratada como nossa filha — a senhora estende sua mão por cima da mesa e segura a minha, sorrindo docemente. —, se assim nos permitir. Sempre quis ter uma menina.

Sorrio abertamente, feliz e emocionada. Não tenho minha mãe aqui, mas a sinto pela Sra. Martinez. Sei que ela cuidará de mim, mesmo com as mentiras pregadas na minha testa.

O Que Os Contos Não ContamHistórias para pegar e não largar. Descubra agora