Durante a ida para o castelo da Fera, no sábado pela manhã, relembro o sonho que tive com Giovanna. Tinha me esquecido completamente dela, e agora me pergunto o que pode ter acontecido, e se está procurando por mim; ou por sua Íris.
Tínhamos um plano e eu descumpri, e depois me envolvi tanto com Joseph e sua família que me esqueci o porquê de estar com eles. Era para estar juntando dinheiro, para ir à cidade encontrá-la. Ela queria me ajudar, assim como os Martinez, mas eu fui uma egoísta.
— Algo errado? — Joseph pergunta, quando descemos do cavalo. — Mal falou essa manhã, e passou todo o caminho em silêncio, olhando para o nada. Não estou a reconhecendo...
— Eu falo muito? — pergunto, tentando mudar de assunto. — Tipo, fico tagarelando?
— Certamente. — ele ri. — e diz palavras que não compreendo, mas me divirto muito, digo antes que pense que não gosto de como é.
— Você é um doce, Joseph... — sorrio, triste. — Mas eu estou um pouco aérea hoje, tive um sonho e ele me preocupou.
— Pode dividir comigo? Talvez eu possa ajudar.
Assinto, concordando em contar meu sonho e minha angústia.
— Se lembra de quando lhe falei sobre Giovanna, e de ter me ajudado a fugir do orfanato? — ele balança a cabeça, confirmando. — Sonhei com ela, então me dei conta que me esqueci completamente dela, Joseph! E ela me ajudou, só por eu estar no corpo de sua Íris. E agora? Ela deve estar preocupada, e eu só penso em mim mesma...
— Não precisa se culpar, Íris. — ele dá um passo na minha direção e segura minha mão enluvada. — Não fez por mal. Aconteceu tanta coisa... Como podia se lembrar dela?
— Pois devia. — desvio meu olhar de seu mar azul e observo o saco com livros, separados especialmente para a fera. — Eu devia ir até a cidade e procurá-la. Lhe devo isso.
— Não pode ir sozinha.
— Sei que não, mas darei um jeito...
— Irei com você. — afirma convicto, o que me faz voltar a encara-lo. — Quando chegarmos em casa avisamos aos meus pais, e partimos amanhã cedo.
Coro, com a gentileza em seu gesto. Doce, gentil e cavalheiro. Sorrio e acaricio a lateral de seu rosto com minha mão livre. Apesar de estar com luva, consigo sentir sua pele esquentar com o meu toque, e ficar vermelha.
Aproveito que ele se abaixou um pouco e fico na ponta de meus pés, para lhe beijar na bochecha quente. Sinto que poderia ir para outra direção, mas não ouso, nem ele o faz.
Nos afastamos lentamente, como se doesse, e pegamos os livros.
Entramos na imensa biblioteca e somos recebidos pelo rei, que lia atentamente um grande e pesado caderno. Deixamos os livros em cima da mesa principal e maior, que fica no meio da sala, e fazemos uma breve reverencia.
— Chegaram mais cedo que o normal. — a Fera diz, com sua voz grave que me faz arrepiar de medo. — Não que seja uma escolha errada... Gosto da companhia dos dois.
— Não podemos demorar, Majestade. — Joseph explica tomando a frente, como sempre. — Mas, como vai esta manhã?
Enquanto os dois conversam, vou catalogando os livros num caderno parecido com o que a Fera lia há minutos. Depois de terminado, pego alguns e procuro um lugar entre as tantas estantes.
No canto da sala há uma escada de madeira, a pego e poio numa estante. Subo me equilibrando com dois livros nos braços, certa que conseguirei guardá-los sem um arranhão. Mas não tenho sorte.
Não consigo pisar no degrau e me desequilibro. Não sei ao certo quantos metros ou centímetros eu estava do chão, mas me vi cair em camera lenta, o que acabou deixando uma percepção de ter o triplo da altura que eu imaginava.
Sinto o ar passar pelo meu corpo e levantar o vestido surrado nas laterais. E quando acho que vou, finalmente, me quebrar toda no chão, sinto mãos fortes me segurando e amortecendo minha queda.
Não sinto dor, mas o ar saí de meus pulmões de uma vez, me deixando desnorteada.
— Íris? — Escuto Joseph me chamar, perto de meu ouvido. Com um gemido de dor que vem de ambos, me viro, ainda em cima dele, e o encaro.
Seus olhos que tanto me hipnotizam me fitam com atenção, procurando por algum machucado ou concussão, o que com certeza não tenho. Mais fácil ele ter um roxo na bunda do que eu.
— Está bem? — pergunto, colocando minhas mãos em concha, em seu rosto.
— Eu quem deveria estar lhe questionando isso.
— Você se enfiou em baixo de mim, Joseph, não se faça de bobo. — seu lábio se levanta no canto, me fazendo respirar um pouco melhor. Mesmo assim repito: — está bem?
— Não. — ele responde, sem tirar o meio sorriso dos lábios. — Acho que vou morrer, na verdade. Pode realizar meu último desejo?
— Não brinque com isso.. — murmuro.
— Por favor? — seu lábio inferior treme num biquinho. Suspiro, mas assinto. — Me beije.
Arregalo os olhos, surpresa com o pedido, mas ao mesmo tempo exitada.
Nem em meus sonhos mais lindos poderia ter sonhado com um momento desse, totalmente desengonçado e vergonhoso. Eu deveria ter vergonha, mas agora só penso em beijar Joseph.
Ele encara meus lábios descaradamente, o que me faz corar, mas afasto a vergonha e me aproximo lentamente. Ansioso demais para esperar, ele ergue sua cabeça e me alcança no meio do caminho, chocando nossos lábios um no outro.
No começo é lento, e eu só consigo sentir seus lábios quentes e macios nos meus. Eles se encaixam, é o último pensamento coerente que tenho, antes que suas mãos alcancem minha cintura e a outra minha nuca.
Sua língua acaricia meus lábios, pedindo permissão para entrar, com a gentileza que só Joseph possui. Dou passagem e sou possuída por sua calma e ferocidade, que apesar de distintas o formam.
Sua língua explora minha boca com curiosidade, enquanto suas mãos apertam meu corpo da mesma forma. É como se fosse uma dança e Joseph me guiasse por todo o salão.
Ele morde levemente meu lábio inferior, o que me arrepia inteira, da cabeça aos pés, e me faz suspirar em seus lábios. Não sei se sou capaz de aguentar por mais tempo, sinto que posso explodir a qualquer momento.
Escuto alguém limpando a garganta, o que me acorda da hipinose. Paro com o beijo e levanto minha cabeça para olhar na direção do barulho. E lá está; a Fera.
— Me perdoem estar atrapalhando, mas creio que o que estão fazendo seja inapropriado.
Com um grande esforço me levanto e enquanto tento arrumar minha roupa e meu cabelo, Joseph se levanta e faz o mesmo.
— Nos perdoe, Majestade. — Joseph cora, mais uma vez.
— Sinto muito... — sussurro para Joseph, mais tarde, quando estamos saindo do castelo para a estrebaria.
— Eu não. — declara, me deixando um pouco tonta. — Eu faria mais umas mil vezes e nunca me cansaria. — ele dá um sorriso bobo, que me contagia e faz corar com a possibilidade.
— Não deveríamos ter feito isso na frente do rei, por isso disse que sinto muito. Não queria nos envergonhar.
Joseph solta o cavalo e sobe nele, depois me ajuda a subir. — Pelo menos gostou? Gostou do beijo?
Sorrio, o olhando de perto, com nossos narizes quase se tocando.
— Preciso provar mais algumas vezes, antes de dar minha nota final. ainda não tenho certeza...
Seus olhos azuis brilham com a possibilidade, provavelmente imaginando quando teremos outro momento como esse.
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O Que Os Contos Não Contam
FantasyAyla, Eloise e Íris são trigêmeas, mas a única coisa em comum é o amor pelos livros de contos de fadas. Principalmente pelas adaptações. As três vivem em pé de guerra, sempre discordando uma da outra, mas quando Íris acha uma nova adaptação tudo mud...
