42. Íris

238 77 118
                                        

Durante a ida para o castelo da Fera, no sábado pela manhã, relembro o sonho que tive com Giovanna. Tinha me esquecido completamente dela, e agora me pergunto o que pode ter acontecido, e se está procurando por mim; ou por sua Íris.

Tínhamos um plano e eu descumpri, e depois me envolvi tanto com Joseph e sua família que me esqueci o porquê de estar com eles. Era para estar juntando dinheiro, para ir à cidade encontrá-la. Ela queria me ajudar, assim como os Martinez, mas eu fui uma egoísta.

— Algo errado? — Joseph pergunta, quando descemos do cavalo. — Mal falou essa manhã, e passou todo o caminho em silêncio, olhando para o nada. Não estou a reconhecendo...

— Eu falo muito? — pergunto, tentando mudar de assunto. — Tipo, fico tagarelando?

— Certamente. — ele ri. — e diz palavras que não compreendo, mas me divirto muito, digo antes que pense que não gosto de como é.

— Você é um doce, Joseph... — sorrio, triste. — Mas eu estou um pouco aérea hoje, tive um sonho e ele me preocupou.

— Pode dividir comigo? Talvez eu possa ajudar.

Assinto, concordando em contar meu sonho e minha angústia.

— Se lembra de quando lhe falei sobre Giovanna, e de ter me ajudado a fugir do orfanato? — ele balança a cabeça, confirmando. — Sonhei com ela, então me dei conta que me esqueci completamente dela, Joseph! E ela me ajudou, só por eu estar no corpo de sua Íris. E agora? Ela deve estar preocupada, e eu só penso em mim mesma...

— Não precisa se culpar, Íris. — ele dá um passo na minha direção e segura minha mão enluvada. — Não fez por mal. Aconteceu tanta coisa... Como podia se lembrar dela?

— Pois devia. — desvio meu olhar de seu mar azul e observo o saco com livros, separados especialmente para a fera. — Eu devia ir até a cidade e procurá-la. Lhe devo isso.

— Não pode ir sozinha.

— Sei que não, mas darei um jeito...

— Irei com você. — afirma convicto, o que me faz voltar a encara-lo. — Quando chegarmos em casa avisamos aos meus pais, e partimos amanhã cedo.

Coro, com a gentileza em seu gesto. Doce, gentil e cavalheiro. Sorrio e acaricio a lateral de seu rosto com minha mão livre. Apesar de estar com luva, consigo sentir sua pele esquentar com o meu toque, e ficar vermelha.

Aproveito que ele se abaixou um pouco e fico na ponta de meus pés, para lhe beijar na bochecha quente. Sinto que poderia ir para outra direção, mas não ouso, nem ele o faz.

Nos afastamos lentamente, como se doesse, e pegamos os livros.

Entramos na imensa biblioteca e somos recebidos pelo rei, que lia atentamente um grande e pesado caderno. Deixamos os livros em cima da mesa principal e maior, que fica no meio da sala, e fazemos uma breve reverencia.

— Chegaram mais cedo que o normal. — a Fera diz, com sua voz grave que me faz arrepiar de medo. — Não que seja uma escolha errada... Gosto da companhia dos dois.

— Não podemos demorar, Majestade. — Joseph explica tomando a frente, como sempre. — Mas, como vai esta manhã?

Enquanto os dois conversam, vou catalogando os livros num caderno parecido com o que a Fera lia há minutos. Depois de terminado, pego alguns e procuro um lugar entre as tantas estantes.

No canto da sala há uma escada de madeira, a pego e poio numa estante. Subo me equilibrando com dois livros nos braços, certa que conseguirei guardá-los sem um arranhão. Mas não tenho sorte.

Não consigo pisar no degrau e me desequilibro. Não sei ao certo quantos metros ou centímetros eu estava do chão, mas me vi cair em camera lenta, o que acabou deixando uma percepção de ter o triplo da altura que eu imaginava.

Sinto o ar passar pelo meu corpo e levantar o vestido surrado nas laterais. E quando acho que vou, finalmente, me quebrar toda no chão, sinto mãos fortes me segurando e amortecendo minha queda.

Não sinto dor, mas o ar saí de meus pulmões de uma vez, me deixando desnorteada.

— Íris? — Escuto Joseph me chamar, perto de meu ouvido. Com um gemido de dor que vem de ambos, me viro, ainda em cima dele, e o encaro.

Seus olhos que tanto me hipnotizam me fitam com atenção, procurando por algum machucado ou concussão, o que com certeza não tenho. Mais fácil ele ter um roxo na bunda do que eu.

— Está bem? — pergunto, colocando minhas mãos em concha, em seu rosto.

— Eu quem deveria estar lhe questionando isso.

— Você se enfiou em baixo de mim, Joseph, não se faça de bobo. — seu lábio se levanta no canto, me fazendo respirar um pouco melhor. Mesmo assim repito: — está bem?

— Não. — ele responde, sem tirar o meio sorriso dos lábios. — Acho que vou morrer, na verdade. Pode realizar meu último desejo?

— Não brinque com isso.. — murmuro.

— Por favor? — seu lábio inferior treme num biquinho. Suspiro, mas assinto. — Me beije.

Arregalo os olhos, surpresa com o pedido, mas ao mesmo tempo exitada.

Nem em meus sonhos mais lindos poderia ter sonhado com um momento desse, totalmente desengonçado e vergonhoso. Eu deveria ter vergonha, mas agora só penso em beijar Joseph.

Ele encara meus lábios descaradamente, o que me faz corar, mas afasto a vergonha e me aproximo lentamente. Ansioso demais para esperar, ele ergue sua cabeça e me alcança no meio do caminho, chocando nossos lábios um no outro.

No começo é lento, e eu só consigo sentir seus lábios quentes e macios nos meus. Eles se encaixam, é o último pensamento coerente que tenho, antes que suas mãos alcancem minha cintura e a outra minha nuca.

Sua língua acaricia meus lábios, pedindo permissão para entrar, com a gentileza que só Joseph possui. Dou passagem e sou possuída por sua calma e ferocidade, que apesar de distintas o formam.

Sua língua explora minha boca com curiosidade, enquanto suas mãos apertam meu corpo da mesma forma. É como se fosse uma dança e Joseph me guiasse por todo o salão.

Ele morde levemente meu lábio inferior, o que me arrepia inteira, da cabeça aos pés, e me faz suspirar em seus lábios. Não sei se sou capaz de aguentar por mais tempo, sinto que posso explodir a qualquer momento.

Escuto alguém limpando a garganta, o que me acorda da hipinose. Paro com o beijo e levanto minha cabeça para olhar na direção do barulho. E lá está; a Fera.

— Me perdoem estar atrapalhando, mas creio que o que estão fazendo seja inapropriado.

Com um grande esforço me levanto e enquanto tento arrumar minha roupa e meu cabelo, Joseph se levanta e faz o mesmo.

— Nos perdoe, Majestade. — Joseph cora, mais uma vez.

— Sinto muito... — sussurro para Joseph, mais tarde, quando estamos saindo do castelo para a estrebaria.

— Eu não. — declara, me deixando um pouco tonta. — Eu faria mais umas mil vezes e nunca me cansaria. — ele dá um sorriso bobo, que me contagia e faz corar com a possibilidade.

— Não deveríamos ter feito isso na frente do rei, por isso disse que sinto muito. Não queria nos envergonhar.

Joseph solta o cavalo e sobe nele, depois me ajuda a subir. — Pelo menos gostou? Gostou do beijo?

Sorrio, o olhando de perto, com nossos narizes quase se tocando.

— Preciso provar mais algumas vezes, antes de dar minha nota final. ainda não tenho certeza...

Seus olhos azuis brilham com a possibilidade, provavelmente imaginando quando teremos outro momento como esse.

O Que Os Contos Não ContamHistórias para pegar e não largar. Descubra agora