O soldado nos leva para fora do reino em sua carroça. Ficamos encolhidas na parte de trás, embaixo de cobertores velhos e cheios de poeira. Parece levar quase uma hora para ele, finalmente, parar e podermos descer da condução. Pensei que nos deixaria em outro reino, ou num vilarejo, mas estamos numa estrada de terra cercada pela floresta.
Estava bom demais para ser verdade, já diria minha mãe.
— Preciso deixa-las aqui. — ele declara, fazendo meu coração afundar no medo. Merda, estamos perdidas. — Me perdoe, Princesa, mas já devem ter notado minha falta. Preciso voltar, para não gerar suspeita. Assim que possível eu volto para ver como estão.
— Não pode nos deixar nessa estrada deserta. — Declaro, me xingando por minha voz ter falhado.
— Sigam a estrada e encontrarão um orfanato. — o soldado aponta para o caminho atrás de nós. — Mais para frente há um vilarejo. Não se perderão.
Engulo em seco mas assinto. Não há o que fazer.
O homem se vai e nós seguimos a estrada num ritmo razoável, que vai diminuindo a cada passo. Parece que nunca vamos chegar à lugar nenhum.
— Não vamos chegar à lugar nenhum... — Branca De Neve resmunga, parando de andar. — Podemos descansar um pouco?
— Não acho que seja uma boa ideia. — Olho em volta, não vendo outra coisa que não seja mato, árvores, folhas e uma pequena cabana.
Espera! Aquilo é uma cabana? Semicerro meus olhos, para ter certeza do que estou vendo. E para minha surpresa, é realmente uma cabana, um pouco afastada da estrada, mais a dentro da floresta, mas não deixa de ser uma cabana. e com a chaminé saindo fumaça!
— Podemos pedir ajuda naquela cabana, o que acha? — Proponho à Princesa, que olha na mesma direção.
— É bem convidativa, atraente e tentadora... — ela se volta para mim e pergunta: — Quais outras palavras podem expressar o quanto essa cabana parece estar gritando meu estranho nome?
— São tantas... — suspiro, mas acabo sorrindo. — Vamos, Princesa, não podemos perder tempo.
Avanço, desviando da densa mata, indo na frente da menina para guiá-la pelo melhor caminho. Apesar da chaminé estar saindo fumaça, a cabana está silenciosa, como se não tivesse ninguém dentro, assim como a floresta. Sinto um arrepio na espinha, como se algo me dissesse para seguir o caminho indicado pelo soldado, e não entrar na cabana, mas já é tarde demais.
Branca de Neve passa por mim e bate na porta de madeira, com a elegância que somente sua alteza real tem. Vem de berço, com certeza é um dom. Ela chama por quem-quer-que esteja dentro da cabana, mas só temos certeza de que há alguém quando ouvimos passos vindo na direção da porta.
Engulo o grito, quando um enorme lobo, erguido pelas patas traseiras, abre a porta e nos recebe com seus dentes enormes. Minhas pernas tremem e me esqueço completamente como se respira. Bem que algo me dizia para não vir para cá.
Garota burra!
— Ora, ora... — sua voz grave e rouca me faz tremer dos pés à cabeça. — Vejo que a comida da semana veio sem esforço nenhum, não é incrível? — ele sorri e dá um passo na nossa direção, mas não nos mexemos um centímetro. — Me permitam me apresentar, senhoritas. Sou Mau, Lobo Mau. Vamos, entrem, não quero mata-las antes do tempo. — ouso olhar para o lado, pensando numa maneira de fugir desse ser que tem o dobro do meu tamanho. Mas ele é mais esperto que eu e percebe. — Nem pense nisso, menina.
Lobo Mau apoia suas patas no meu ombro e no da princesa, nos guiando para dentro da cabana. Viro minha cabeça para a floresta, pedindo que alguém do além apareça e nos salve, olho para aquele verde uma última vez antes dele fechar a porta e nos trancar.
A cabana é pequena e acolhedora, me lembrando o conto da chapeuzinho vermelho. Talvez seja a casa da vovozinha... E... Caramba, está tão óbvio que nem percebi o que está na minha frente; O Lobo Mau, vestido com uma camisola branca, e com uma touca da mesma cor na cabeça. Chapeuzinho deve estar chegando, ou o caçador.
Espero que o caçador chegue primeiro.
A casa está arrumada, menos a pequena cama, encostada numa das quatro paredes. Está desarrumada, como se alguém tivesse acabado de acordar mas não se deu o trabalho de arrumar.
Lobo Mau pega uma grande e grossa corda cor de areia, nos faz sentar no chão, perto da lareira, que está com o fogo alto, e nos amarra uma de costas para a outra. Ele aperta tanto a corda na minha barriga que mal consigo respirar.
— Fiquem quietinhas, senhoritas, vou tirar um cochilo antes de preparar o jantar, que será uma de vocês. Ou aquela burra da Chapeuzinho. — O lobo bufa com desdém e se deita na cama da vovozinha. Ou pelo menos era.
— Achei que fugindo da minha madrasta não correria mais o risco de morrer. — Branca de Neve comenta, alguns minutos depois do primeiro ronco do lobo. — Mas não se sinta culpada. Culpo o soldado, por ter nos deixado no meio do nada. Ele nos enganou ,quando ofereceu ajuda.
— Não consigo sentir raiva dele. — Declaro, o que surpreende a menina. — Acredito no que ele disse, sobre não poder nos levar mais longe. O problema é que estávamos cansadas demais para pensar que uma cabana no meio do nada não era tão inofensiva assim.
— Então culpamos nós mesmas?
— Não precisamos culpar ninguém para nos sentirmos melhores. Acho que ninguém é culpado. E, também, nada vai me sentir melhor nesse momento. Somente se um anjo aparecesse e nos salvasse. Isso sim me faria melhor. Muito melhor.
— Por que não gritamos? — Ela sugere. — Estamos perto da estrada, alguém pode passar e nos escutar.
— Não acho que seja uma boa ideia... E se o lobo acordar?
— Temos que correr esse risco. De um jeito ou de outro vamos morrer. Mas... Não acho que podemos ir tão fácil assim. A senhorita não acha?
Pondero sobre o que a Princesa sugeriu. É arriscado, no entanto a menina tem razão; vamos morrer de qualquer jeito, porém não significa que temos de aceitar facilmente. Morrer sem lutar nunca foi uma morte honrada, e já que vou morrer mesmo, que eu não fique com o "e se" rondando minha mente.
— Tudo bem. — concordo. — Vamos gritar até perdemos a voz, mas não podemos desistir.
— Até o último suspiro.
Assinto, mesmo que ela não possa me ver, por estamos de costas para a outra. Pegamos folego ao mesmo tempo e então soltamos o grito mais forte do mundo. Jogo todas as minhas forças pela garganta afora, gritando por uma ajuda que talvez não apareça, gritando por socorro para os ventos. Mas gritando.
Minha garganta dói, mas pego folego e grito mais, em plenos pulmões; ou o que resta deles. Branca de Neve não fica para trás, e o que me surpreende é sua voz, que até gritado é incrivelmente perfeita. Não é para menos que ela seja personagem de um conto.
Depois de uma eternidade gritando, já rouca e com a garganta doendo, o lobo se remexe na cama, o que me cala. Congelo e observo o sonolento Lobo Mau abrir os olhos enquanto Branca de Neve ainda grita, mesmo rouca e com a voz cada vez mais baixa. Empurro meu braço para faze-la se calar, mas não adianta nada. A Princesa para apenas para me encorajar a gritar mais.
Fico congelada, observando Lobo Mau se sentar na cama no mesmo momento que a porta da cabana se parte no meio. Um homem negro, com roupas de couro preto, irrompe para dentro da casa da vovozinha, nem piscando quando acerta seu grande machado na cabeça do lobo. Engulo em seco e noutro segundo o machado atravessa o grosso pescoço e cai no tapete da vovó, rolando pelo chão e parando perto dos meus pés.
Tudo fica silencioso e eu nem me arrisco respirar ou piscar, com medo de que seja mentira. O caçador veio, matou o lobo e agora está tirando a vovozinha de seu estômago. Se me contassem que um dia eu presenciaria isso, com certeza eu riria da pessoa e a chamaria de louca.
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O Que Os Contos Não Contam
ФэнтезиAyla, Eloise e Íris são trigêmeas, mas a única coisa em comum é o amor pelos livros de contos de fadas. Principalmente pelas adaptações. As três vivem em pé de guerra, sempre discordando uma da outra, mas quando Íris acha uma nova adaptação tudo mud...
