34. Ayla

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Precisei vir buscar os vestidos na loja da família Larsson sozinha, e fui recebida pelo meu amigo, que se encontrava igualmente sozinho.

Há uns dias não nos vemos, desde aquela noite no campo. Dormimos sob as estrelas, depois de conversamos sobre nossos diferentes mundos, e quando acordei, antes dele, voltei para casa o mais rápido possível.

Eu o deixei no meio do campo, no meio da noite, sozinho e sem nem um aviso, como amantes. Não amantes que se amam, mas amantes que se usam para seu próprio prazer. Fora o que ele dissera, em seu último bilhete, naquela manhã. Desde então estamos nos evitando.

Acho que ele percebeu, que eu percebi o que anda acontecendo. O problema é que eu não vira antes, e não pude evitar. Agora estou na sua frente, torcendo meus dedos um no outro enquanto encaro seus avaliadores olhos castanhos.

Há uma semana eu estaria fazendo alguma piada sarcástica, mas agora tremo dos pés à cabeça. O que foi que eu fiz? Será que arruinei tudo, ou.. Ou... Meu Deus, eu não sei o que fazer, o que falar e sequer pensar!

— Srta. Ayla? — ele repete, com os dentes trincados. Já me chamou três vezes e eu não respondi.

— Por que está tão zangado? — pergunto, não me contendo. — Eu não fiz nada de errado!

— Não sei sobre o quê a senhorita está falando. — ele desvia seu olhar e pergunta: — O que a trouxe hoje?

— Vim buscar os vestidos. — esclareço, depois de uns segundos.

Diogo assente e pega três grandes caixas de trás do balcão. As encaro e respiro fundo.

Melhor assim, melhor assim...

Pago o restante que devia e o moreno as leva para a carruagem caindo aos pedaços. Ele não fica para me ajudar entrar no veículo, ou sequer se despedir, mas eu não deixo passar.

Antes que entre de volta na loja, o chamo, nem ligando para as pessoas em volta. Ele se vira um pouco, como se não estivesse muito interessado, e me olha pelo canto do olho.

— Não seja um bebê chorão. O senhor está crescido demais para reclamar por pouca coisa. — Diogo franze o cenho, mas não se mexe mais que isso. — Somos amigos, e esse silêncio está me matando... Podemos...

— Não. — ele não me deixa terminar, e também não diz mais nada.

Meu amigo volta para dentro de sua loja e me deixa na calçada, cercada por olhares que nunca me importaram, até agora.

Ergo meu queixo e entro na carruagem com minha coragem de sempre. Sempre fui corajosa, e esse personagem que nem aparece não será o culpado pelo sumiço dela.


Quando chego em casa, guardo meu vestido e me escondo no quarto. Não estou afim de escutar a madrasta e Evangeline tagarelarem e reclamarem de Ella. Preciso pensar num novo plano, um que não envolva Diogo, por mais difícil que seja.

Mais alguns dias se passam e além de não ter nenhuma ideia, Diogo continua me ignorando. Mas o idiota continua enviando flores e bilhetinhos para Cinderella.

Eu poderia ir até sua casa e contar que ou ela mesma joga os presentes fora, ou a madrasta faz por conta própria.

Outro dia a Madrasta jogou as flores no meio da sala e mandou Ella limpar, e continuou por mais dois dias, até a menina se desfazer antes dela. Eu poderia contar à ele que o dono dos suspiros da loira é o príncipe, mas que ela pensa que seja um empregado, tão preso e rejeitado quanto ela.

Eu poderia contar que, provavelmente, não vou conseguir mudar a história e que ficarei presa aqui para sempre. Eu poderia, mas não o farei. Ainda tenho esperanças de que os dois fiquem juntos, e que eu volte para casa. Não posso deixar de tentar.

Mas preciso do meu amigo, para pensar comigo. Não sou a especialista no assunto de conquistar corações, mas duas cabeças pensando pode dar certo. Talvez ele me ache egoísta, por o procurar pela vontade de voltar para casa, e não para ter nossa amizade de volta.

Eu ligo para o que Diogo pensa, não posso mentir, mas ligo ainda mais para meu futuro. Preciso dele, e o ter comigo é conveniente, não tenho mais o que fazer. Preciso que ele esqueça essas ideias novas, e malucas, e volte a focar em Ella.

Enfim escrevo um bilhete para ele, coisa que nunca fiz, o chamando para ir à cachoeira nessa tarde de sábado. Não espero o mensageiro voltar com resposta, e já vou indo para meu lugar preferido nesse mundo. Me sento na grande pedra e o espero.

Espero...

E espero...

Os primeiro sinais do pôr do sol aparecem, e eu não tenho outra escolha que não seja voltar para casa, arrastando meu orgulho e egoísmo no chão.

Não há outro motivo para ele ter me ignorado dessa maneira. O Diogo que conheço nunca faria uma coisa dessas comigo, nem com qualquer outra pessoa no mundo.

A não ser que o Diogo que eu conheço não exista mais, e graças à mim. Ou por total culpa minha. OU...

Vejo um bilhete na minha mesa de cabeceira, com meu nome. O pego e leio. É de Diogo.

"Meu pai está doente, infelizmente não poderei ir. Me encontre na loja na segunda-feira, se for muito urgente."

O Que Os Contos Não ContamHistórias para pegar e não largar. Descubra agora