ÁNGEL

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Deixamos o quarto e, pela minha cabeça, se passavam muitos assuntos sobre o cartel, talvez fosse o meu mecanismo de defesa para não pensar no Daniel e o que tê-lo sobre o meu poder significaria.

— Estamos bem, Ángel? — perguntou Ramon.

— Estamos, já lhe disse isso — respondi séria.

— Acho que o Ramon está insistindo, porque, assim como eu, nunca a vimos olhar para alguém da maneira que fez com o Daniel — completou Guillermo.

Parei de andar e olhei pensativa para os dois.

— Acho que está mais que na hora de passar da fase da negação — disse, soltando o ar preso nos pulmões.

— Está gostando dele — disse Guillermo.

— Estou. Porém o Daniel é a última pessoa do mundo que poderia gostar — disse frustrada.

— Sua traição com certeza é algo difícil de superar, pois não há relacionamento sem confiança — disse Ramon.

— Leu meus pensamentos. Ao mesmo tempo em que houve a traição, o Daniel pula na frente de uma bala, salvando a minha vida. E a maneira como voltou atrás de nós só lhe permitia ser um observador, porém ele se envolveu e, quando o questionei sobre essa atitude, me disse que a única certeza que tinha era de que precisava me ver novamente e é óbvio que não acredito.

— Acha que está armando alguma coisa? — questionou Gui.

— Com certeza. Está querendo me iludir — disse.

— Por enquanto, ele é nosso prisioneiro. Poderá fazer o que quiser com ele — concluiu Ramon, piscando um olho e deixando claro a sua insinuação.

Sorri de lado para ele, não fazendo mais comentários sobre o Daniel, pensaria sobre ele mais tarde.

— Vocês dois impuseram os limites e deixamos claro a sua condição aqui na fortaleza. Agora é melhor nos dedicarmos a algo que está fora do nosso controle: Lopez.

Durante as horas seguintes conversamos sobre a segurança na fábrica e de enviarmos olheiros pela floresta para conseguir a localização de Lopez e podermos pegá-lo.

Quando voltei à parte da fortaleza onde ficavam os quartos, parei em frente à porta do quarto em que Daniel estava, pensando se deveria entrar.

Até que coloquei a mão na maçaneta pensando: "foda-se, ele é meu. Se está tramando algo será morto antes que chegue à porta da fortaleza".

Entrei no quarto e Daniel estava quieto, fiquei preocupada com o seu estado de saúde e me aproximei, sentando-me ao seu lado na cama.

Peguei em sua testa e percebi que estava febril e que cochilava. Porém creio que o meu toque o despertou.

— Ángel — disse abrindo os olhos.

— Como você está? — perguntei.

— Cansado e com sede — disse.

Levantei e, na mesinha ao lado, coloquei um copo com água para Daniel. Peguei o remédio para dor e febre depois voltei ao mesmo lugar em que estava e o ajudei a beber.

— Obrigado — disse.

Ficamos em silêncio por alguns segundos quando resolvi ir direto ao ponto.

— Quais são os seus planos? — perguntei.

— Como assim? — questionou confuso.

— Não se deixaria virar prisioneiro sem um plano. A essa altura, a sua cadela — disse me referindo à Amanda — e o Joaquim devem estar em alguma expedição de busca para encontrá-lo e, com certeza, já pensou em algo para quando conseguir ficar em pé — disse séria.

— Sinceridade? — questionou, levantando uma das sobrancelhas.

— Um pouco hipócrita perguntar algo assim, já que é um traidor — disse, torcendo os cantos da boca.

— Ok. Não deixa de ter razão. O que fiz é o esperado de todo agente infiltrado. Você não foi a minha primeira missão como infiltrado, porém foi a única que me fez questionar valores e o meu senso de justiça.

— Não parecia ter dúvidas quando me colocou no avião a caminho dos Estados Unidos — disse.

— Ángel, você me faz questionar tudo em que acredito desde quando me colocou de quatro e me algemou — disse sério.

— Daniel, não tenho porque confiar no que diz.

— Eu sei, mas junte os pontos. Por que viria caçá-la sem o Joaquim? Por que saí da posição de observador? E se a queria apenas presa, por que me jogar na frente de uma bala quando bastava apenas pedir reforços e passar a localização de onde estava, esperando o que aconteceria entre o seu pessoal e o que estava atacando?

Olhei para ele pensando na lógica de tudo que acabava de contar e tendo que admitir o sentido nos seus argumentos. Isso me levou a outro questionamento.

— O que você quer? — perguntei, tentando manter firme a minha voz, pois não era hora para mostrar fraqueza.

— Até o momento que me joguei na frente daquela bala, sabia que queria apenas vê-la de novo.

Soltei o ar frustrada e levantei da cama, aproximando-me da janela e irritada perguntei:

— Quer que acredite nessa paixão avassaladora que surgiu depois que virou prisioneiro? Porque certamente não me amava o suficiente antes para não tentar me prender.

— Vim à Colômbia para caçar um monstro, encontro uma mulher independente, sedutora e principalmente dona de uma força que a faz proteger a todos que a cercam. Fiquei de joelhos para você, tentei me enganar dizendo que fazia isso porque era trabalho, mas o fato é que quis lhe agradar para receber o seu toque como o submisso que nunca fui.

Daniel se movimentou, tentando sentar na cama e tive que voltar ao lugar que estava ao seu lado para impedir que se machucasse.

Ele segurou a minha mão e continuou.

— Em cada uma das nossas interações em que me deixava em dúvida sobre o que sentia, recebia a cobrança da minha equipe e dos meus superiores para terminar o que vim fazer na Colômbia. Chegando ao ponto de Amanda se aproximar da Luzia por conta própria, querendo um plano B caso eu não conseguisse terminar a missão de prendê-la.

Ele respirou fundo e continuou:

— Depois que voltamos de Lores, tive que rever todos os crimes de que era acusada para tirar coragem e força daquele conteúdo que justificava que prenderia um monstro.

— Não sou mais esse monstro? — perguntei, olhando dele para a sua mão sobre a minha.

— O que concluí é que tem uma lógica simples para definir a sua ação. Inimigos, são recebidos a bala. Amigos, podem fazer com que seja baleada por eles. Não definiria mais como monstro, e sim como já me disse uma vez: uma sobrevivente.

— Mesmo com todas as dúvidas, a sua traição deixou claro para que lado da balança você pendeu, portanto meia dúzia de palavras não reverterão a sua traição e muito menos a sua posição de prisioneiro — disse, puxando a mão e levantando da cama.

— Sendo seu prisioneiro, não estou preocupado com mais nada — disse.

— Sério?! Acha que conseguirá minha proteção com cantada barata? — perguntei.

Quando terminei de falar, ele, não sei como, teve forças para sair da cama e ficar de joelhos à minha frente como um submisso.

— Não sou eu que decido — disse apenas.

Olhei para ele, pensando que não podia ceder, o Daniel tinha me traído.

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