Capítulo 18 - Descanso

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Uma batida na porta ecoou pelo banheiro, mas eu não mexi um músculo, nem ao menos abri os olhos. Eu ainda sonhava com a praia, e lutava ao máximo para permanecer nela. As batidas se tornaram mais fortes, e dessa vez o meu nome era chamado. Gisele. Amélia. Era engraçado. Por que estavam chamando o meu nome? No meu lugar perfeito eu não tenho um nome... Abri um sorriso inconscientemente, e voltava a afundar na minha mente. As gaivotas que me acompanhavam finalmente pararam um pouco, me dando um descanso da corrida, mas eu incrivelmente me sentia cada vez mais disposta. Me aproximei cautelosamente dos animais, até então eles apenas voaram à minha frente, em um voo baixo. Elas cantavam, e eu me encantei com a sua beleza. Estiquei minha mão para tocá-las, e então...
E então um barulho estridente, como o de um canhão, fez com que voassem para longe, me deixando sozinha novamente. Mas dessa vez, a minha felicidade foi junto.
-- Droga! -- ouvi dizerem.
O mundo ao meu redor começou a morrer. As árvores perderam as suas folhas e os galhos se retorciam em agonia. Os animais se esconderam enquanto o mar à minha frente quebrava as suas ondas furiosamente. Sua água, tão azul e límpida, passou a ter uma cor negra. As coisas se tornaram maiores, e era como se avançassem em minha direção, me engolindo...
Abri os olhos gritando e me debatendo, tentando me livrar das mãos firmes que me sacudiam.
-- Pare com isso! Sou eu!
Meus olhos focalizaram no rosto desesperado a centímetros do meu, e deixei meu corpo relaxar contra a parede da banheira. Meu corpo protestou, resultado de ter passado a noite em uma posição não muito confortável.Kota me soltou e apoiou uma mão em sua coxa, enquanto passava a outra pelo cabelo.
-- Está tudo bem? -- olhei para Adam, e depois para a porta do banheiro caída atrás dele, assentindo singelamente. Eles haviam arrombado a porta para entrar. Então...
-- O que aconteceu?
-- Você não disse uma palavra desde que se trancou aqui. Kota e eu te deixamos sozinha e... Quando fomos te chamar hoje, você não respondeu. Isso foi há meia hora atrás. -- Então isso explicava o meu nome no sonho... E o barulho de canhão. Não pude conter uma risada esganiçada. Os dois garotos, se é que eu podia chamá-los assim, me olharam confusos. E a realidade me atingiu novamente.
Céus! Será que eu não tinha um descanso? Cocei meus olhos, desejando que, apenas por um dia, eu pudesse ficar sem preocupações. Esquecer de tudo. Sonhar não era o bastante.
Kota ainda me olhava, sem dizer uma palavra. Sua atenção estava voltada completamente para mim, seus olhos me prendendo, e nos envolvendo em uma bolha. Tinha consciência de que meus olhos estavam inchados, porém eu não desviei o olhar. Sentia que ele estava tentando me dizer algo, e eu tentava fazer o mesmo com ele. Acho que entendeu o que eu queria dizer, pois falou:
-- Devíamos dar um tempo a ela.
-- Já não o fizemos?
-- Claro que não! -- ele exclamou -- Céus! Gisele não é feita de ferro. -- Adam franziu o nariz ao ouvir meu nome illeano, porém eu fiquei feliz que ainda o usasse. -- Não podemos arrastá-la de um lado para o outro assim.
Adam escorou na pia do banheiro, cruzando seus braços.
-- Certo -- ele concordou -- e o que pretende fazer?
Kota voltou seu olhar para mim, e dessa vez, havia um pequeno sorriso em seus lábios -- que eu amava, assim como tudo nele.
-- Você vai ver.

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Eu olhava boquiaberta para a visão na minha frente. Kota deu um leve aperto em minha mão, encorajando-me.
-- Um parque de diversões? -- perguntou Adam, tirando os óculos escuros. -- Tem certeza disso?
Kota ofereceu um sorriso lascivo a ele.
-- Você não vê? -- perguntou, me indicando com a cabeça.
E eu realmente estava assim. O imenso parque de diversões estava colorido de todas as maneiras possíveis, crianças corriam de um lado para o outro em direção aos brinquedos, os gritos de euforia e as risadas tornando tudo mais alegre.
Nunca vi um parque de diversões antes. Nem mesmo em imagens. Tudo o que tinha era o produto da minha imaginação que rodeava a minha mente enquanto eu lia meus livros.
Dessa vez, foi a minha hora de soltar um gritinho e pular no pescoço de Kota, abraçando-o. Me sentia como uma criança, e não me importei nem um pouco.
-- Obrigada -- murmurei contra seu pescoço. Kota cheirou meus cabelos e me beijou na cabeça.
-- Vamos? -- ele disse, estendendo a mão. Seus olhos brilhavam. Aceitei e me permiti ser arrastada por ele em direção à entrada do parque, rindo e rindo de novo. Tinha me esquecido completamente de Adam. Parei um pouco e olhei para trás, vendo que Adam continuava na mesma posição, fitando o parque com um certo temor.
-- Você não vem?
Adam pousou o olhar sobre mim, e depois na minha mão com a de Kota. Abriu um sorriso forçado.
-- Claro.
Eu sorri para ele. A tática de Kota para me fazer distrair estava sendo perfeita, e o dia mal tinha começado. Aguardei com Adam perto da montanha-russa enquanto Kota comprava os ingressos para os brinquedos. Eu estava radiante. Kota havia insistido para que eu fosse com um short, -- que Adam havia compro -- e agora eu entendia o porque. Haviam vários brinquedos em que o vestido seria completamente inviável, e eu agradeci Kota mentalmente por isso. Na verdade, todas as coisas boas da minha vida estavam acontecendo por causa dele. Seria eternamente grata. Ainda mais por tê-lo ao meu lado. Por ele ser meu. Uma pontada no meu peito me fez lembrar que eu, por sua vez, não era completamente dele. Ainda tinha um assunto pendente para resolver em relação a isso e, infelizmente, os olhos de gato que me fitavam nesse momento me deixavam hipnotizada.
Kota voltou com uma sacola cheia e eu, curiosa, tentei ver o que havia dentro.
-- Fichas -- Kota falou, para logo depois começar a rir -- vocês tinham que ver a funcionária quando eu lhe falei a quantidade.
Adam riu imediatamente, não demorando muito para que eu me juntasse a eles. Era contagiante.
-- Então... Onde quer ir primeiro? -- Kota perguntou, passando seu braço pelo meu ombro -- há uma infinidade de opções.
Kota não se parecia nada com um homem adulto e irmão da rainha. Éramos apenas adolescentes se divertindo em um parque de diversões. Dois bobos apaixonados. Foi assim que eu olhei para ele. Eu o olhei e tentei transmitir todo o amor que sentia, um amor avassalador e que chega a me assustar. Nunca tive amor o suficiente, e lamento ter que descobri-lo tão tarde. Era maravilhoso. Kota me olhou da mesma maneira, e então estávamos de volta à nossa bolha. Seus olhos me prenderam por segundos intermináveis e, quando acabaram, eu estava completa.
Observei todos os brinquedos espalhados no meu campo de visão e mais além dele, e fiquei sem saber o que fazer. Olhei para os meninos em busca de ajuda, e Adam logo disse:
-- Que tal a montanha-russa? Já que estamos aqui, e quanto mais tarde ficar, maior será a fila -- ele falou mais para Kota do que para mim, que já concordava com um enorme sorriso. Porém, assim que entregamos as fichas ao funcionário e eu olhei para cima, acabei engolindo em seco. Era alto. Muito alto. -- Não se preocupe -- ele falou, passando por mim -- Você nem se lembra disso quando está lá em cima.
Assenti e o acompanhei até o carrinho, que ja estava quase lotado por crianças e adolescentes. Alguns deles reconheceram Kota, principalmente as garotas, e gritaram para ele. Eu revirei os olhos enquanto Kota ria e acenava singelamente para elas. Acabei aceitando a mão oferecida de Adam para entrar no vagão do carrinho, de maneira que fiquei no meio. Eu estava aterrorizada e ansiosa.
Assim que o carrinho estava cheio e todos devidamente "presos", ele começou a andar. Um arrepio percorreu minha espinha e eu estremeci a medida que o carrinho subia. E subia. Kota enlaçou a minha cintura como pôde através das amarras, tentando me oferecer algum tipo de conforto, mas meus olhos estavam vidrados da descida íngreme à minha frente. Meu Deus. Era queda livre.
E então, começamos a cair.
Os gritos preencheram o ambiente sonoro, enquanto todo o ar deixava os meus pulmões. Agarrei-me firmemente ao braço de Kota, enquanto olhava com olhos arregalados para os trilhos a nossa frente. Kota e Adam gritavam e, ao verem a minha expressão, desataram a rir. Quando a primeira descida acabou e voltamos a subir, eu comecei a relaxar, e logo tinha um sorriso enorme no rosto e gritava junto com todos lá. Não podia evitar o frio na barriga a cada descida, porém não podia dizer que não tornava tudo mais emocionante.
Quando finalmente descemos, eu estava tremendo e de cabelo em pé.
-- Você está bem? -- Adam perguntou.
-- Isso foi demais! -- gritei, buscando imediatamente o próximo brinquedo para eu poder ir.
A manhã seguiu sem mais rodeios. Eu era uma criança feliz que saltitava de brinquedo em brinquedo, maravilhada com o que cada um podia me oferecer. Porém, quando estávamos almoçando, Adam se tornou mais inquieto, e parecia que ele olhava para os lados a cada dez segundos.
-- Ei -- toquei seu braço, assim que saimos do pequeno restaurante. -- está tudo bem. Não vão nos encontrar aqui.
Adam olhou para o parque, apreensivo.
-- Eu sei -- disse, por fim -- mas não deixo de me preocupar com sua segurança. Um passo em falso e... -- ele fechou os olhos brevemente -- Não suportaria perder você.
Fiquei sem fala. Eu nunca sabia como reagir em momentos como esse. Adam ergueu meu queixo com a ponta dos dedos, e seus olhos buscaram os meus. Um sorriso ganhou seus lábios lentamente, enquanto a sua mente trabalhava. Então ele sussurrou em meu ouvido:
-- Tenho uma ideia.
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