Capítulo 60 - Àqueles que amamos e perdemos

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      "A guerra é uma cobra que usa nossos próprios dentes para nos morder. Seu veneno circulava agora em todos os rios da nossa alma. De dia já não saíamos, de noite não sonhávamos. O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos."
  
               - Terra Sonâmbula, Mia Couto

                              ***

Amélia

      Os corredores pareciam que nunca iriam acabar. Era a terceira vez que eu virava em uma esquina, e sempre voltava para o mesmo lugar. Para a extensão reta onde corpos repousavam, cobertos por lençóis. Novamente, andei por eles. Novamente, tentei não olhar para cada um, para a quantidade deles. Pessoas que mandei matar. Pessoas que morreram por causa das minhas escolhas.
      No final do corredor, havia uma porta. Como das outras vezes, eu não queria abrir. Sabia o que me esperava, e não era algo bonito de se ver. Mais uma vez, olhei para o lado, para a ramificação do corredor. Se eu fosse por lá, voltaria ao início -- estaria novamente no corredor, com os corpos me esperando. Um jogo repetitivo para me atormentar.
      Olhei para baixo, sentindo minhas mãos pregarem. O sangue estava ali, sempre ali. Dessa vez, eu não usava luvas. Na primeira vez tentei limpá-lo na minha roupa, sem sucesso. Ele continuava vivo em minhas mãos. Algo tão vivo e brilhante em meio a tanta morte.
      Respirei fundo, tentando encher-me de coragem, e abri as portas.
      Era a sala do trono.
      No meio do salão, um homem se abaixava diante de dois corpos. Andei vagarosamente até ele, o chão era frio sob meus pés descalços. Quando cheguei ao seu lado, ele olhou para mim.
      -- Fez um bom trabalho -- falou Adam. Ele olhou novamente para o corpo do pai, colocado ao lado do de Velásquez. Me recusei a olhá-los. Eu não conseguiria.
      -- E agora?
      -- Cabe a você decidir. É inteligente, saberá o que fazer.
      -- Não sei -- admiti. -- Estou fazendo as coisas no chute, Adam. Não sei nem em quem confiar. Devon se mostrou leal a mim até então, mas agora que Velásquez está morto, não sei se permanecerá ao meu lado. E estamos à beira de uma crise. Os conselheiros de Velásquez provavelmente tentarão me crucificar. Tampouco sei o que fazer com Portugal. Prometi que cuidaria das coisas, mas não faço a mínima ideia de por onde começar. -- Soltei uma risada sem graça. -- Já estou cansada de não saber.
      -- Além disso, -- continuei -- seus nobres entrarão em guerra para conseguir o trono, já que a dinastia Lancaster terminou com você. -- Torci o nariz. -- Acabamos de sair de um conflito, não posso permitir que outro se inicie.
      -- Então não permita -- falou Adam, levantantando-se. -- Assuma o trono.
      -- Não posso...
      -- Claro que pode. Quando o herdeiro de um reino morre, o próximo na linha de sucessão é o parente que possui mais poder. Meus pais estão mortos e não tenho familiares próximos preparados o suficiente para comandar uma nação. Mas você... Você, agora, é uma rainha. E era minha noiva. Se a invasão russa não tivesse acontecido, você seria rainha de Portugal, de qualquer maneira. Faça do velho plano de nossos pais a realidade. Torne Espanha e Portugal um só. Você prometeu que faria meu país prosperar aos olhos do mundo, e que melhor maneira de administrar algo do que torná-lo seu?
      -- Adam...
      -- Tenha consciência disso, Amélia: você tem poder. Muito mais do que pode imaginar. Só precisa dançar conforme a melodia da música. -- Ele sorriu.
      Franzi o cenho. Olhar para baixo se tornou inevitável, como se uma força invisível me obrigasse a ver o que fiz.
      -- Sinto muito -- sussurrei.
      -- Você fez o que era necessário para proteger seu país. É o que reis fazem, e é uma das coisas das quais me orgulho a seu respeito. -- Inclinou a cabeça, como se escutasse algo. -- Nosso tempo acabou. Está na hora de acordar, majestade.
      Ele fez uma reverência e começou a andar em direção à porta.
      -- Espere! -- Chamei. -- Irei vê-lo novamente?
      Adam me olhou por cima do ombro.
      -- Estou morto, Amélia. Sou apenas uma invenção da sua cabeça. Talvez eu venha quando for a hora, mas... Se a minha memória a conforta, pode me chamar sempre que precisar.
      Ele desapareceu no ar, me deixando ali, sozinha.

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