Capítulo 27 - O outro lado da moeda

341 28 0
                                        

-- O que você está fazendo aqui?

Fiquei atônita com a sua pergunta. O que eu estava fazendo ali? Eu não sabia. Falar com o rei foi a primeira ideia que me veio a cabeça, pensei que me daria tempo o suficiente para pensar em um plano que pudesse utilizar para fugir. Ou pelo menos tentar. Mas -- mesmo sendo praticamente impossível -- se eu conseguisse, para onde iria? Então percebi o quanto a minha ideia tinha sido estúpida.

Abri minha boca para falar, e logo a fechei, sem emitir nenhum som. Fiz isso mais três vezes, parecia que minhas cordas vocais se recusavam a colaborar. Adam franziu o cenho para mim, me oferecendo um olhar como se eu fosse algum tipo de experimento bizarro. Ele permanecia no mesmo lugar, mas podia ver que ponderava se devia vir até mim ou não. Enquanto isso, eu estava colada à porta como uma lagartixa, temendo suas reações. Por favor, não faça.

-- Devia ter seguido minha ordens, mocinha. -- disse o rei em um tom aborrecido. Eu tinha uma leve impressão de que, na verdade, queimava por dentro. -- Vejo que sua educação como princesa se perdeu com o tempo.

-- Pai? -- Adam questionou.

O silencio se tornou absoluto na sala, e ninguém fez menção de mover um músculo. Eu estava tão confusa quanto Adam aparentava, mas eu não iria me deixar enganar pelas aparências. Eu tinha conseguido um tempo ao vir falar com o rei -- mesmo que intencionalmente -- , mas agora que estava aqui, eu não sabia o que dizer. Principalmente pelo fato de que não estávamos sozinhos.

Quando eu menos esperava, provavelmente por estar perdida em meus pensamentos, fui envolvida nos braços de Adam, que me rodearam fortemente. Seu rosto se escondeu na curva do meu pescoço e pude sentir seu hálito quente contra a minha pele. Meu corpo se retesou pela surpresa e por mais que ele estive propenso a relaxar, eu me forçava a ter em mente quem era o inimigo ali. Estava em completa desvantagem naquela sala. Não retribuí o seu gesto, meus braços permanecendo ao lado do meu corpo, e eu fechei meus olhos para que não pudesse ver o rei fuzilando-me com os seus.

Adam não me liberava do abraço. Ao invés disso, ele me apertou cada vez mais, como se quisesse fundir meu corpo com o seu. Ele balançava para frente e para trás, em um movimento lento, levando-me junto com ele, como se estivesse tentando me ninar. Não consegui ficar mais tempo perto dele. Coloquei minhas mãos em seu abdômen, sentindo seus músculos sob meus dedos mesmo debaixo de todo aquele uniforme, e o afastei com um pouco de dificuldade, devido a sua relutância. Quando olhei em seus olhos, o que vi foi dúvida, alívio e, acima de tudo, dor.

-- Por quê? -- perguntei, com lágrimas escorrendo pelos meus olhos. Ele balançou a cabeça em negativa, secando as lágrimas com os dedos.

-- O importante é que você está bem.

-- Não. -- murmurei com a voz embargada pelo choro. -- Por que mandou a AIP me sequestrar? -- funguei, -- Por que fez Kota ficar desaparecido, Adam? Por quê? Éramos amigos... Eu confiei em você! -- eu chorava com vontade, tendo um soluço e outro sacudindo o meu corpo. Não queria me mostrar tão fraca, vulnerável, mas não podia fingir enquanto todas as paredes que eu construí caíam. -- Podia ter me deixado em Illéa. Não entendo qual é o seu plano e...

Fui interrompida quando Adam colocou uma mão sobre a minha boca, abafando minha voz. Me irritei por ser mais uma vez refém desse seu hábito, mas dessa vez as sobrancelhas se uniram em sua feição incrédula, os olhos estreitando para mim. Então ele pareceu compreender, soltou minha boca e virou-se lentamente para o pai, mantendo-me atrás dele em um gesto de proteção. Queria poder acompanhar sua linha de raciocínio, mas ao mesmo tempo gritar e dizer que ele não tinha o direito de me fazer passar por tudo aquilo. Eu permaneci quieta.

EncontradaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora