Estiquei meu corpo até ficar apoiada apenas na ponta dos pés, fazendo o máximo de esforço para que meu braço alcançasse a parte superior do mapa, e finalmente consegui adicionar mais um X na minha lista. Por que o suporte tinha que ser tão alto? Me afastei com um suspiro de alívio, passando as costas da mão na testa para secar o suor que escorria pelas minhas têmporas. Somente naquele momento pude apreciar a minha obra de arte, a parede marcada de vermelho em pontos estratégicos, mas que ao longe pareciam uma grande mancha escarlate sobre um desenho arruinado. Sorri em vitória. Aquele era a minha mais nova estratégia de sobrevivência, e os intermináveis dias que passei trabalhando nela começavam a valer a pena.
O mapa do palácio não era algo fácil de se fazer, como retratar um uma paisagem natural ou evocar um modelo da mente; foi necessário conhecimento dos mínimos detalhes possíveis, dos lugares mais importantes de uma das maiores construções de toda a Espanha. Sem legenda, a interpretação beirava ao impossível, e meu orgulho foi lançado nas alturas ao me relembrar que apenas eu a tinha, na minha cabeça.
Faltava apenas uma coisa.
Em um relance, verifiquei as horas no relógio antigo pendurado na parede sul do quarto. 4:59 pm. Voltei a esticar o meu corpo, dessa vez com o objetivo de alcançar os grampos que prendiam a grande folha no quadro de análises. Apesar de confiar nas minhas habilidades para desenho, eu não podia arriscar. Chutando os sapatos de salto para longe, ergui-me com um pulo, arrancando a cartolina com um puxão e enrolando-a em torno de si mesma, para logo em seguida jogá-la de maneira desajeitada debaixo da cama.
5:00 pm.
Deslizei pelo chão de mármore, abrindo uma pequena fresta da porta ao mesmo tempo em que me abaixava, apoiando-me nos calcanhares. Segurei um suspiro de alívio quando vi que o guarda ainda estava em seu posto, iniciando a rotação. Ele deu meia volta em uma postura impecável, a posição rígida constante me fazendo imaginar o quão ele ficava desconfortável, passando quatro horas com movimentos limitados. Quando se virou, reparei em um pequeno aparelho em seu pulso, que emitia pequenos bips. Aquele devia ser o marcador de suas rondas, podendo ser facilmente confundido com uma pulseira. Ele desapareceu pelo corredor, e eu comecei a contar.
Um. Dois. Três.
Dois guardas passam pela minha porta, lado a lado, mas não param ou sequer percebem a presença de um olho espião ali. Eles seguem para o Leste, e imagino que estejam indo para a vigília do segundo andar, onde estão a biblioteca e o escritório do meu pai, agora transformado em uma sala de guerra.
Cem... Cento e vinte... Cento e oitenta.
Outro guarda aparece na curva do corredor, desta vez sozinho. Ele apoia uma das mãos no coldre preso ao cinto, cobrindo a pistola com a mão. Engoli em seco ao ver a arma, e por um mísero segundo eu quase perdi a contagem, olhando para ela e imaginando-a devolvendo o olhar.
Eu sei o que você está fazendo.
Voltei aos pulos para o meio do quarto, agradecendo por estar descalça e o barulho dos meus passos apressados contra o piso ser mínimo, e me joguei em uma das cadeiras do conjunto de mesa de chá, pegando o jornal que estava ali em cima de maneira ensaiada, programado para aquela ocasião.
Duzentos e dez.
A porta abriu com um leve clique, tão baixo, que se eu não estivesse extremamente concentrada na sua presença o barulho passaria batido por mim. Ergui o olhar do jornal da maneira mais lenta possível, dando a entender que eu estava concentrada e não queria ser interrompida. A respiração ficou presa na garganta, impedindo-me de ofegar devido à súbita correria. O guarda estava apenas com a cabeça para dentro do quarto, fazendo uma rápida inspeção até me encontrar ali.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Encontrada
Fanfiction"Os livros são tudo o que tenho. É como se, todos os dias, me perguntassem com suas capas brilhantes: 'quem você quer ser hoje? Que mundo quer explorar? '. Os livros me traziam batalhas, romances proibidos, o limite do ser humano. Era muito fácil f...
