Capítulo 23 (parte II) - Canções de um exílio

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Os raios de sol entravam no quarto através da janela desprotegida pelas cortinas, incidindo insistentemente sobre o meu rosto. Mas isso não foi o suficiente para me levantar de mau humor. O dia que eu tanto esperava havia acabado de chegar, e eu não deixaria absolutamente nada estraga-lo.

Após o ritual de preparação que se repetia em todos os dias da minha vida, eu desci para encontrar meus pais e meu irmão sentados na sala de jantar, saboreando o café da manhã. Eu levava um grande sorriso no rosto comigo, mas o resto da minha família parecia alheio ao motivo que me trazia tanta felicidade.

-- Mamãe?

Seus olhos azuis focaram em mim. Ela sorriu fracamente, a postura de rainha forte e decidida começando a rachar. Olhei para o meu pai, e ele possuia a mesma expressão preocupada de minha mãe, enquanto sussurrava fervorosamente para James, que ouvia tudo de cenho franzido.

-- O que está acontecendo? -- voltei a perguntar.

-- Alguns problemas no Sul, querida, nada com que deva se preocupar.

-- No Sul?

Ela acenou.

-- Creio que não poderemos seguir o dia conforme nossos planos. -- ela lamentou. Aquilo me entristeceu. Eu planejava aquele dia a semanas, porém toda a tristeza foi empurrada para o fundo da minha mente quando raciocinei que estávamos com problemas.

-- Talvez eu pudesse ajudar em algo, -- arrisquei, rezando para que minha mãe aceitasse e finalmente me contasse o que estava acontecendo. Lara e Magnus eram muito bons em esconder emoções, e quando não o faziam, ou estavam muito felizes, ou a situação era muito grave. -- Posso ser útil, mamãe.

-- Oh, querida, claro que sim. -- ela me olhou com ternura -- mas não quero que se envolva com isso, está bem? Seu pai e eu vamos resolver logo.

Olhei para James em busca de apoio, mas ele apenas me devolveu o olhar em um pedido de desculpas. Levantei-me da mesa murmurando um "com licença ", deixando o meu café da manhã intacto, me dirigindo a saída o mais rápido que meus pés conseguiam sem que corresse.

Eu detestava a maneira com que meus mais me tratavam em situações como essa. Faziam de tudo para me deixar alheia dos detalhes, tudo o que ouvia eram problemas e, posteriormente, a expressão de alívio quando eram resolvidos. Eu era a princesa! Poderia não assumir o trono do meu país, mas ainda sim tinha obrigações como membro da realeza, o que incluía me preocupar com o meu povo e fazer de tudo para ajudá-los. Tudo ficava mais difícil quando algemavam minhas mãos na porta, me impedindo de chegar na janela e ver a luz. Aquilo, com certeza, me tirava do sério. Podia não entender muito de política, mas não aceitava ser privada de pelo menos tentar.

Me tranquei no quarto, desejando, por pelo menos uma vez na minha vida, que meus pais me tratassem como se eu fosse capaz. O excesso de proteção que me davam sufocava, apesar de eu saber que não era essa a intenção. É como se eu fosse incompetente. De que adiantava ser criada para governar se nem ao menos poderia praticar?

O dia passou sem mais delongas. Não sai do quarto para nada. Como era sábado, não tinha aulas e acabei dispensando as criadas. Gostaria de um momento a sós. Apenas a noite, quando minha mãe insistiu para que me juntasse a ela no jantar, que descobri que meu pai e James foram as pressas para o Sul.

-- Quando partiram?

-- Pouco depois do almoço, -- Minha mãe disse, suspirando. Ela se levantou e deu a volta na mesa, parando ao meu lado e colocou sua mão sobre a minha. -- Amélia, me desculpe por não ter te avisado. Querida, eu não quero que você se envolva demais com o que não é necessario.

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