Capítulo 51- Onde Morre a Amizade

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Reed Walsh

– Acha que teria sido diferente se você tivesse se confessado? – pergunto, baixo.

– Não... – ela suspira, e os olhos se perdem no vazio como quem ainda vive em um lugar onde eu não posso alcançar – Mas pelo menos eu não teria brigado com ele daquela forma. Outras coisas aconteceram depois... ele disse coisas pesadas. Palavras que nunca tinham saído da boca dele antes. – ela começa a mexer nos dedos, inquieta – Eu ainda não consegui esquecer.

– Acha que gostava dele?

– Bem... – ela faz uma pausa, e ri de nervoso – Acho que ele deve estar com a loirinha dele agora. Nunca mais tive notícias.

Ela desvia. Não respondeu. Não disse sim, nem disse não.

– Eu... lembro ele? – pergunto, mas me arrependo no instante seguinte. Idiota.

Seus olhos castanhos-escuros vêm direto nos meus. Por um momento, eles analisam meu rosto, como se estivessem prestes a me desmontar. Então ela sorri, aquele sorriso torto, entre o cínico e o conformado.

– Não! – diz com firmeza, sacudindo a cabeça – Vocês são diferentes. Bem diferentes. Ele era animado, fazia amizade com todo mundo, vivia rodeado de gente. Era como... um raio de sol. Você é mais... silêncio.

– Hm...

– O que foi? – ela se aproxima de repente, me pegando desprevenido. Fico todo torto, sem saber onde pôr as mãos ou os olhos.

– Está com ciúmes?

Aquilo me atinge. Não como um tapa. Mais como um nó na garganta. Que porra é ciúmes? Não sei explicar. Me incomoda ela falando de outro cara, mas isso não é ciúmes, é?

– O-o quê? N-não! Claro que não.

Ela ri, gostando da minha confusão, e se afasta com leveza, como se a tensão de antes não tivesse existido. Fica de pé e alonga os braços com preguiça.

– Só estou brincando. Vamos dormir logo.

Fico quieto, encarando suas costas enquanto ela ajeita o colchão do lado oposto da barraca. Aquilo... aquilo foi ciúmes?

Acho que não. Seria estranho eu ter ciúmes de alguém por quem não sinto nada. Certo? Levanto-me, indo para minha barraca. Quanto mais cedo dormi, melhor para sair daqui. Assim que entro, fecho o zíper, deitando sobre o colchão quase fino nas minhas costas.

— Por que você tem que ser assim? Por que age como uma criança irritante? Eu achei que aguentaria isso tudo pela nossa amizade... mas você não colabora. Você gosta de mim, Kristhen?

– Você anda me ignorando desde que ela chegou! – ela grita, furiosa – Não saímos mais, não vamos mais ao nosso parque. Por quê? O que ela tem que eu não tenho? É o corpo dela?

– Do que você tá falando? Tá sendo infantil pra caralho. Não tem nada a ver com corpo. – bufo – Não é por isso que eu gosto dela.

– Então por quê?

– Porque você... me cansa. Porque eu nunca sei qual Kristhen vai aparecer. Você briga com todo mundo, se mete em confusão, faz escândalo e quer que eu limpe. Vive querendo chamar atenção, me ignora, me provoca, me sufoca. Eu tô cansado, Kristhen. Muito cansado de você.

O rosto dela começa a se contorcer. A raiva e a dor colidem dentro dela. As lágrimas escorrem, mas ela tenta disfarçar com a voz alta.

– Você me odeia, não é? Sempre me odiou! Desde a época que viu eu sofrer bullying e não fez porra nenhuma. Você ficou só olhando... com aqueles olhos de pena que eu odeio! – ela solta com fúria, mas a voz falha.

– Eu não te odeio. Só preciso respirar. Preciso viver sem estar no meio das suas tempestades. Eu era um moleque covarde naquela época. Hoje eu te protejo, o tempo todo. E em troca recebo o quê? Frieza? Ironia? Grosseria? Até quando você vai machucar os outros?

– Você que me machuca!

– EU?! – explodo, sentindo o sangue ferver – VOCÊ ME SUGA! Não tenho mais amigos porque você arruma confusão com todos eles. Você vive reclamando, sendo amarga, trazendo peso pra tudo! PORRA, KRISTHEN! O que aconteceu com você? Por que ficou tão cretina? Eu juro... juro que tentei, mas não dá mais. Você morreu pra mim quando fez quatorze anos. Não suporto mais você, sua voz, sua cara, esses olhos. NEM SUA EXISTÊNCIA!

– VAI SE FODER! – ela berra, completamente fora de si – VOCÊ É UM ESCROTO, UM MERDA! EU ODEIO ELA, odeio essa vaca por ter aparecido na nossa vida!

– É por isso que você virou essa versão podre de si mesma? Porque não gosta dela?

Me aproximo, encarando o caos que ela virou. A voz dela sai falhada, implorando entre os gritos.

– Você nem me olha mais. Eu só queria a gente de volta. Só queria... manter nossa amizade...

– Isso não é amizade. Isso é ciúmes, obsessão. Você gosta de mim, e isso é doentio. Quer um beijo? Quer isso? Pra sair da minha vida? Então eu vou te dar.

Agarro o rosto dela com firmeza, não com carinho. Junto nossos lábios. Um beijo rápido, sem alma, sem calor. Só pele contra pele.

Mas então ela mexe os lábios. Um beijo desajeitado, quase trêmulo. Nossos movimentos desencontrados, secos. É o primeiro beijo dela. O meu também. E não tem nada de bonito nisso.

Estou beijando a garota que sempre vi como irmã. E não tem nada mais estranho que isso.

Me afasto. Acabou.

– Conseguiu o que queria. Agora desaparece da minha vida. Não fala mais comigo. Eu não gosto de você. Nunca gostei. Espero que tenha entendido.

Ela abaixa a cabeça.

– Pierre... – sua voz sai pequena, partida – Eu sinto muito...

Não respondo. Só viro as costas, penduro a mochila e limpo os lábios com as costas da mão.

Abro os olhos de repente, arfando. Sento no colchão da barraca, suado, com o coração espremido.

A entrada da barraca está fechada, mas minha cabeça está escancarada.

Meu peito aperta, como se alguém tivesse enfiado a mão dentro dele e misturado tudo.

– Que porra... foi essa?

Continua...

EITAAAAAAAA!! Babado em!

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