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Depois de alguns dias, o doutor veio me visitar para garantir que eu estava bem e me deu alta.

— Como é boa a juventude! Olha como melhorou rápido. Estou muito feliz pela sua recuperação, Ellie. Você é uma boa menina.

Ele passou a mão na minha cabeça e olhou para mim com um pouco de pena. Aquilo me deixou tensa. Não queria que me vissem assim, mas sabia que ele tinha boa intenção.

No dia seguinte, começamos a mudança. Resolvemos primeiro trazer todas as nossas coisas para os quartos na taverna e, aos poucos, mudar as de John para nossa futura antiga casa.

Mesmo recuperada, não me deixaram carregar peso, então basicamente fiquei colocando as roupas nos baús.

— Miau, miau, miau, miau, miau.

— Ellie, o que esse seu gato quer? — Ester me perguntou, um pouco aborrecida com Bolinho.

— Eu não sei.

"Estou cantando, não posso?"

Revirei os olhos, tentada a dar um peteleco na testa do gato, mas me controlei, sabendo que sentiria dor também.

— Deixa o bichinho, Ester.

Minha irmã mais nova coçou a cabeça do gato implicante, que ronronou para ela.

— Vocês duas mimam demais esse animal esquisito, por isso ele é assim.

— Você vai sentir falta dele caçando os ratos da casa.

Ester ficou um pouco ansiosa quando minha Elise disse isso, mas não respondeu.

Dobrei uma blusa amarela e coloquei no baú, finalizando as minhas roupas. Em seguida, comecei a guardar meus materiais de costura.

— O que vamos fazer com as camas?

Nós três paramos para pensar. A mudança seria amanhã, e precisávamos tirar as três camas para encaixar a de casal ainda hoje, já que o casamento seria no dia seguinte.

Decidimos manter a data do meu casamento, já que eu tive um ataque cardíaco e concordei porque na verdade não iria me casar. Só estavam esperando minha recuperação. Todo o planejamento foi modificado; seria uma coisa bem simples. Por sorte, já tínhamos comprado o enxoval.

— Vender vai demorar muito — respondi a Ester. — Deveríamos doar.

— O doutor está montando a própria clínica, talvez ele queira.

Ester concordou com Elise, e decidimos por isso. Em duas horas, já tínhamos guardado todas as nossas coisas e chamamos Pá e Pablo para levarem tudo para a taverna. Richie estava com eles. Isso me assustou demais.

— Ele se ofereceu para ajudar na mudança — disse Pablo, alheio à situação.

Richie parecia mal, como sempre, mas não estava bêbado.

— Tudo bem, mocinhas?

O homem ruivo falou olhando apenas para mim. Seu olhar demonstrava tristeza e determinação.

— Decidi parar de beber.

Richie falou, ainda olhando profundamente nos meus olhos, e comecei a ficar envergonhada com a situação. Os outros passaram a nos observar, tentando entender o que estava acontecendo.

— Fico feliz por você — respondi.

Ele sorriu e pareceu ter dez anos a menos. Olhei para o chão e esfreguei o rosto no pelo de Bolinho. Não queria encarar meu pai biológico.

Olhei para o lado e vi que Ester encarava Pablo desagradavelmente. Desde que nossos pais morreram, ela se tornou uma mamãe galinha.

"Estressada, porquinho?"

AceitoOnde histórias criam vida. Descubra agora