Deixei Mariana ir, arrasada, até o andar térreo da taverna. Pá estava sozinho no lugar, já que Pablo e Ester ainda transportavam as coisas de John. Fui até a cozinha e procurei algum chocolate perdido no armário. Havia muito pouco, então precisaria comprar para repor o estoque.
Coloquei um pequeno pedaço de lenha no fogão e, assim que começou a queimar, despejei o leite e a manteiga na panela. Enquanto mexia, respirava profundamente.
Bolinho esfregou o focinho na minha perna, em silêncio, apenas me fazendo companhia. Coloquei todo o pouco chocolate que havia na casa e continuei mexendo a colher até tudo se dissolver.
Procurei no armário até achar o que queria: uma caneca de madeira, quase do tamanho da minha cabeça, usada para tomar cerveja. Peguei o rum e coloquei uma quantidade equivalente à metade do chocolate quente que tinha preparado.
Normalmente, eu e Pá colocávamos o rum dentro da panela, um pouco depois do chocolate, para evaporar a maior parte do álcool. Infelizmente, hoje eu sentia que precisava de algo bem mais forte. Então, apenas virei o chocolate da panela na grande quantidade de rum e misturei com a mesma colher que já estava usando.
— Cuidado com o álcool que você está bebendo hoje, Ellie.
— Vai tomar conta da própria vida, Riwty.
Estava estressada e descontando na pessoa errada. Sabia disso, mas não conseguia evitar. Tudo continuava a dar errado, e eu me afogava em autopiedade.
Sentei na cadeira da cozinha, apoiando o cotovelo na mesa e virando grandes goles da bebida de uma vez. Senti os olhos preocupados de Bolinho, mas ignorei.
Não sei se foram os remédios que o médico me passou ou se eu estava bebendo muito rápido, mas comecei a ficar bêbada mais cedo que o esperado. Quando terminei a bebida, apoiei a caneca na mesa e encostei a cabeça lá. Em pouco tempo, estava cochilando.
— Nossa, era só o que faltava. Agora, além de puta, é alcoólatra — ouvi alguém gritando em meio à névoa do sono.
— Como meu irmão escolheu bem.
Os gritos me acordaram totalmente, e a primeira coisa que vi foi John parado perto de mim com aquele sorriso cínico no rosto.
— Daqui a pouco vou te encontrar na praça, desmaiada no próprio vômito. Desse jeito, meu irmão não vai dividir você só com o amigo dele, mas com qualquer um que não se importar de se meter nesse buraco sujo. Se bem que, como ele é idiota, é capaz de te proteger do que você merece.
Uma fúria cega me invadiu. Levantei e subi o tom de voz para ficar mais alto que o dele.
— Sabe por que você não vai me ver desmaiada na praça?
John ergueu uma sobrancelha, ainda com aquele sorriso na cara. Eu queria socar aquilo para fora do rosto dele.
— Porque você não vai conseguir andar até lá, seu inútil de merda.
Nunca ofendi alguém com deficiência e não acreditava nem um pouco no que disse a ele, mas queria feri-lo. Estava cansada de ser machucada e ia procurar os pontos mais dolorosos.
O rosto de John se tornou uma máscara de raiva, mas não parei por aí.
— Fica tranquilo, você chantageou minha irmã o suficiente para ela não te largar. Mas todo mundo vai pensar em quão desgraçada ela foi por se casar com essa sua cara deformada.
John gritou, e dessa vez quem sorria era eu. Nunca revidei nenhuma das ofensas. Ele tinha sido meu amigo por anos e era a pessoa que minha irmã amava, mas não aguentava mais. Nem mesmo a culpa de ter feito aquilo com ele conseguiu parar minha língua dessa vez.
John veio para cima de mim, mas a perna dolorida não permitiu a velocidade que ele forçou, e o homem desabou no chão. Tentei ajudá-lo a levantar, mas meu cunhado simplesmente empurrou minha perna, então saí sem olhar para trás.
Vi minha irmã colocando a cabeça para fora da porta do quarto, mas, ao ver meu olhar, se escondeu novamente.
Fechei a porta e deitei na cama, cobrindo os olhos com o braço.
— O que eu fiz?
— Miau — Quer que eu queime o outro lado do rosto dele para ficar simétrico?
Bufei da tentativa de humor medonho de Bolinho e abracei o gato firmemente. Devo ter dormido de novo, porque me sobressaltei com uma batida na porta. Não me prontifiquei a abrir.
— Ellie?
Ao ouvir a voz de Pá do outro lado, me levantei lentamente e destranquei a porta do quarto.
— Como você está?
— Seu filho já te contou o que eu disse para ele?
— Sim, e Elise me falou o que ela ouviu. Agora quero saber sua versão.
Pá se sentou na cadeira do meu quarto e segurou minha mão enquanto eu contava tudo. Não expliquei o motivo da briga com Elise; era algo muito pessoal. Quando terminei de narrar, Pá me olhava com sofrimento.
— Eu não posso dizer o quanto sinto pelo que meus filhos fazem a você. John não tem o direito de falar assim com ninguém, e Pablo é um irresponsável que abusa da sua boa vontade. Não sei o que fiz de errado na criação deles. O pior é que não sei como falar com John nesse momento.
— Por favor, não pense que não gostaria de falar com ele sobre isso. Eu nunca soube que ele te tratava assim.
Isso era verdade. Antes do acidente, John nunca se comportou assim na frente de ninguém. Só me xingava quando estávamos sozinhos, porque tinha certeza de que eu não contaria.
— O problema é que ele já está completamente abalado e fora de si. Meu filho não conseguiria lidar com o que sinto vontade de falar e fazer, mas prometo que vou conversar com ele e criticar seu comportamento. Só não sei se posso ser mais duro que isso. Por favor, me perdoe por não fazer melhor.
Não posso dizer que não fiquei decepcionada, mas não sei o que esperava. Ele é pai de John. Por mais desapontado que esteja, ainda quer o melhor para o filho. Além do mais, era parcialmente culpa minha o que havia acontecido. Deveria ser suficiente que ele acreditasse em mim e falasse com o filho.
Concordei com a cabeça e falei que precisava dormir. Pá saiu do quarto com um aspecto derrotado.
Riwty trancou magicamente a porta, e uma luz azulada envolveu o quarto. Quando olhei para ele, tinha se transformado.
O fae veio até mim e me abraçou. Enfiei o rosto em seu pescoço e inalei seu cheiro. Seu cabelo macio fazia cócegas no meu pescoço. Riwty se ajoelhou e me ajudou a tirar as botas. Em seguida, me levantou.
— Riwty, eu não estou com vontade hoje.
O fae me olhou de uma maneira descrente. Então, minhas roupas desapareceram e foram trocadas por uma camisola longa e macia.
— O que você pensa de mim? Estou um pouco decepcionado por você achar que tentaria algo contigo nesse estado.
Corei um pouco.
— Desculpa.
— Foi brincadeira, meu porquinho. Vamos deitar.
Ficamos deitados um de frente para o outro, com seu queixo apoiado na minha cabeça. Ele acariciava minhas costas e, às vezes, beijava meu cabelo.
Não falamos nada. Ele apenas me aconchegou até que eu dormisse.
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Aceito
FantasiaVocê trocaria sua alma pela realização dos seus desejos? Os fae são criaturas da floresta, lá eles vivem e predam. Porém, quando escolhem um humano a vida do mortal muda para sempre, pois ganhará todos os desejos que quer do fundo do coração. Porém...
