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São diversas coisas que se passam no nosso olhar. Traumas compartilhados. Eu queria vingança, queria destruir tudo que aquele sobrenome representava dentro do meu sangue, da minha casa e da minha mãe. Esme queria me esquecer.

E então olho para Yagmur e percebo. Ela não faz ideia. Foi blindada desde pequena. Não passou o que eu passei, não foi afastada de sua família perfeita, provavelmente contaram uma história triste e heróica sobre seu pai. Nunca precisou acreditar que o pai estava na lua. Sua mãe provavelmente não grita de madrugada. Não precisa ver nenhuma cicatriz no braço de seu amado pai todas as manhãs durante o café.

Olho para Esme e ela sabe o que estou pensando, puxa Yagmur contra ela quase instantaneamente como se eu fosse a ameaça, e não o contrário.

— Se lembra, mãe? — ela corta o silêncio pesado nesse pátio.

Esme evita responder de início. Hesita, mas confessa quase como um crime.

— Sim, me lembro. Como cresceu, Emir. Se tomou um homem, realmente.

Era quase como se ele pudesse ver o desespero nos olhos dela. Por favor, Emir.

Eu não tenho o que dizer, porque a última coisa que me lembro é ela me mandando ficar parado enquanto via aquele infeliz apontar uma arma para meu pai. Só me lembro do som de sua tosse entre o fogo. Um lugar quente como o inferno.

Eu esboço um sorriso, me aproximo, estendo minha mão para pegar a dela e pedir uma benção. Esme se surpreende, treme, mas não me nega. Afinal, nunca me negou nada. Quando a olho, sei que está tentando aliviar a feição, parecer menos dura.

— Como tem andado seus pais? — a pergunta me pega de surpresa.

Dessa vez sou eu que tremo.

— Estão bem, depois de tudo. Na medida do possível, você sabe.

— Conhece os pais dele também? — Yagmur interrompe, parecia animada com a possibilidade.

— Brevemente.

Esme nunca teve coragem de aparecer em tribunal, foi o que li. Alegava insanidade, e eu me perguntava do que chamavam o que minha mãe tinha e tem até hoje.

Quando nenhum de nós se manifesta mais, Yagmur começa a cutucar a mãe.

— Chame o rapaz para um chá, anne...

— Não tenho mais nada de chá, estava esperando você voltar para pedir que comprasse, seu baba tomou tudo...

— O que está dizendo, mãe? Temos coisas...

— Yagmur, não me desminta na frente de um estranho.

— Mas... ele não é...

— Não quero atrapalhar. Eu só vim... reconhecer a casa... me lembrar de um tempo.

— Esse tempo não existe mais. — Esme fala ansiosa.

— Os traços estão bem aqui. — eu olho para a mesa no pátio, me lembro da conversa que tive com Hakam.

Será um Golçapk

Estou na frente de duas. Os olhos de uma tão inocentes, os olhos da outra cheios de culpa. Começo a ficar tonto, sufocado, quero sair dali. Nada é como eu pensei. Aquela menina era filha de Hakam Golçapk e eu nada tinha o que fazer aqui. Foi um erro. Meu pai estava certo o tempo inteiro. Eu traria miséria para minha mãe.

Começo a dar alguns passos para trás, Yagmur olha para a mãe, e depois para mim, tenta intervir com o mal entendido muito bem entendido. Sinto que não consigo respirar e que foi um erro.

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⏰ Última atualização: Mar 15 ⏰

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