Capítulo VIII: Dias Tempestuosos (Parte 1)

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Pavel Iurievitch trazia o recipiente contra o peito da mesma forma que um bêbado carregaria uma garrafa de álcool. O vento transformava os cabelos do rapaz em uma verdadeira confusão de mechas esvoaçantes e o tecido de suas roupas largas tendia a se contorcer para todos os lados, como se dançasse uma valsa conduzida pela atmosfera. O corpo pequeno e muito magro, vítima das rajadas, encontrava dificuldades em seguir. A poeira da estrada, outra inimiga, ora batia contra seu pescoço, ora vinha em direção aos seus olhos e suas vistas, que já sofriam com os fios de cabelo, também eram feridas pela terra.

"Um tormento caminhar por aí em tais condições!" reclamou mentalmente, aumentando as passadas, na esperança de se escapar da chuva, anunciada pelos céu tomado de nuvens cor de chumbo.

Ao seu redor, uma vastidão de novas fazendas se estendia. Coisa de gente vinda da vila grande ou da cidade, que ali ocuparam algumas verstas, usadas para o plantio e a criação de animais. Dasha os chamava de "Kulaks¹", sem poupar o linguajar ofensivo.

Não podiam reclamar, a vila pequena também consistia em uma fazenda, onde todos plantavam e criavam os animais. Uma raridade naqueles tempos: a exceção das exceções, provinda de um senso de comunidade nascido na época em que os Karev cobravam o aluguel mensal pela moradia e controlavam o comércio local de alimentos.

Pavel não conhecia muito dos recém chegados na região, todos lhe pareciam muito iguais, com os mesmos semblantes cravados no cansaço do trabalho e no vazio de uma vida monótona, semelhante a palidez da terra em dias nublados.

Ainda assim, apesar de todo desinteresse geral, dentre aqueles novos moradores, Pasha encontrou uma figura que valia a pena ser observada a distância: tratava-se de um tal de Vozroditsky, cujo o primeiro nome ele desconhecia. Um homem de dezenove anos, casado e pai de duas garotas gêmeas.

Pavel não sabia ao certo o que via de atrativo nos traços largos e nas sobrancelhas exageradamente grossas de Vozroditsky, mas gostava de olhar para ele e guardar a forma de suas mãos robustas na cabeça para repeti-las infinitamente, como se encarasse por horas a mesma fotografia amarelada.

Melhor assim, desviar sua atenção para qualquer coisa, do contrário,  aquele tipo de pensamento acabaria rumando para Mikhail, e Pasha sentia-se sujo toda vez que "maculava" a figura de seu companheiro ao envolvê-lo no que denominava particularmente como "ideias repreensíveis".

Vozroditsky nunca lhe deu atenção e Pavel preferia que continuasse assim. Passaria a detestar o homem se as observações se tornassem recíprocas. O recriava na mente mais como um personagem fictício do que como um ser real. Fingia, antes de dormir, um mundo onde encontravam-se antes do senhor se casar e ter suas filhas. Apesar de negar com todas as suas forças o cunho carnal do que fazia, no fundo, entendia aquilo tudo como um grande erro, um pecado, o tipo de coisa que deixaria Tânia abismada e inconsolável.

Uma trovoada rompeu seus pensamentos e Pasha compreendeu o fenômeno natural como uma repreensão divina. O novo governo não apoiava religiosidade, mas o garoto cresceu ouvindo a mãe rezar antes de dormir, por isso, colocava a ideia da existência de um Deus na categoria de verdades absolutas e inquestionáveis.

"O tal criador do mundo rejeita a forma como penso nos homens, por isso, devo parar de pensar assim" reprimiu a si mesmo, ainda incapaz de tomar uma visão própria em relação ao que acontecia durante os anos mais confusos de seu amadurecimento.

A tarde mergulhou na palidez completa repentinamente. No início do dia, a claridade ensolarada e o calor vagavam pelos campos, os tocando com dedos invisíveis e dourados. Tal situação climática levou Pasha a vestir as roupas de verão que agora tornavam-se demasiadamente insuficientes para combater o frio causado pela atmosfera e pela chuva que começou a despencar torrencialmente do céu.

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