Capítulo X: Mantenham Guardados os Segredos (Parte 4)

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Pavel, por um instante, abriu os olhos no momento em que Mikhail tomou o rumo, já com o sol da madrugada em pé. O senhor despediu-se de seu par com um breve beijo no rosto e uma carícia tão rápida quanto nos cabelos indecisos, bagunçados e dispersos sobre o travesseiro.

— Volte a dormir — seguiu os toques pelo sussurro entristecido e observou Pasha encolher-se entre os lençóis e retomar a inconsciência, sem que realmente conseguisse dar conta do que acontecia ali.

Mikha vestiu suas roupas, buscando sempre o silêncio, para não despertar o outro. Bebeu um gole largo de vodka, para que o cheiro da bebida depusesse a favor de um encontro entre irmãos em uma noite de folga. A artimanha o fez sufocar, não de maneira literal, mas seu interior reclamou e o peso caiu sobre os ombros do homem.

Pôs seus olhos em Pavel... a forma como o conforto do leito o chamava de volta... as cobertas que viram todos os detalhes da noite, o calor que os cercou, a maciez contida no toque das peles, a umidade das respirações e o saciar dos desejos que já não guardavam no interior da alma, mas que externavam em meio a sussurros que não fariam sentido em qualquer outra ocasião.

Não precisava, mas bebeu mais um gole longo do álcool, em busca de coragem para prosseguir sua vida cotidiana.

Mikha caminhou até o alçapão, desceu o primeiro degrau das escadas em caracol. Logo, o peito pesou com a existência do mundo fora das paredes que cercavam o apartamento de Pasha.

Se ateve no fim da descida. Mikhail fitou o corredor escuro e silencioso, como se observasse uma estrada intransponível, como se revisitasse a linha do passado; os dias no campo e a trilha o levou até aquele corredor.

Não poderia dizer que faria diferente... não arrependia-se de seu casamento, nem dos filhos. A única coisa que mudaria configurava-se na salvação... traria todos para Moscou, mas não poderia, jamais, trocar as demais decisões por outras. "Anya" ele pensou, enquanto caminhava rumo ao seu apartamento familiar.

A esposa viveu, ao lado dele, os piores tempos na cidade... a adaptação ao novo mundo, o nascimento de Petyr, as noites em que o filho chorava, mantendo a tradição dos recém nascidos, a inexperiência de cada ato familiar, até que por fim, criassem uma dinâmica.

Quando Tanechka nasceu tiveram problemas, pois achavam os médicos que a menina não passaria do primeiro ano. Naquela ocasião, Mikhail sentou-se ao lado de Anya, deixou que a cabeça dela viesse de encontro a seu peito e, enquanto acariciava os cabelos escuros e sentia as lágrimas tomarem o rosto, ouviu-a dizer (com mais determinação que ele jamais teria) "Nós cuidaremos dela, ficará tudo bem". E ficou... tempos depois a mocinha encontrava-se em perfeita saúde.

Não eram o tipo de casal que lê-se nos grandes romances, não viviam em meio a intensidade de um amor que queima a alma e a desfaz até as cinzas, mas mantinham, um pelo outro, respeito e uniam-se, na liga mais forte já forjada, durante as crises.

Mikhail nutria pelos filhos uma verdadeira adoração. Eram mais do que sua continuidade do mundo e ele jamais poderia desenhar na mente o pesadelo de deixá-los, por qualquer outra preciosidade que pudesse existir em seus sentimentos. Primeiro, Mikha pensou, era pai, antes mesmo de ser homem.

"Deveria ter pensado nisso antes" a consciência gritou. Ali, no purgatório entre sua casa e a de Pasha, ele via-se tão perdido que nem mesmo Virgílio seria capaz de guiá-lo para qualquer paraíso.

No tempo em que viviam, não existia nada muito incomum na traição, principalmente no que consernia aos senhores. Mikhail lembrava-se ainda, como um eco sem muita forma, dos falatórios sobre a esposa ou o marido de alguém, visto em atos suspeitos com outra pessoa. Os comentários da sociedade nunca condenaram os senhores, mas condenariam Anya, se ela fizesse o mesmo.

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