" O exército russo, no decurso da guerra, sofreu as maiores perdas do que qualquer outro dos exércitos envolvidos no massacre: aproximadamente 2,5 milhões de homens mortos, ou seja, 40% das perdas sofridas pelos exércitos da Entente. Durante os primeiros meses os soldados caiam sob os projeteis sem refletir ou com pouca reflexão. De um dia para o outro, porém, a experiência deles crescia (...). Eles mediam a imensidade da desordem criada pelos generais através das inúteis marchas e contra-marchas executadas sobre a sola dos sapatos gastos, segundo ainda o número de refeições que deixavam de fazer. Na sangrenta debacle dos homens e das coisas, uma palavra se elevava para tudo explicar: 'Que absurdo!' e na linguagem rude dos soldados, o termo empregado era certamente mais apimentado."
- Leon Trotsky - A História da Revolução Russa, Vol. 1
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Se por um acaso tivesse nascido alguns anos antes, neste momento, Pasha estaria na guerra, dentre os mortos provavelmente, ou se esgueirando pelos corpos para escapar dos disparos inimigos.
Desertaria, com toda certeza, ele pensou, e passaria a vida escondendo-se do Czar e do resto das forças em alguma floresta. Construiria uma cabana, cortaria lenha para o inverno e caçaria para comer, as vezes mandaria uma carta para a mãe, e já que não sabia escrever, lhe faria belos desenhos da paisagem.
Outro plano que lhe soava como uma saída simples e infalível, porém se posto em prática fracassaria.
Pavel andava com passos ágeis pela estrada há algum tempo, de forma que o sol começava se pôr e ele se encolhia ao lembrar que, em poucos minutos, nenhuma luz o guiaria pelo trajeto. Para dissipar o pavor, mantinha os pensamentos rápidos, pois assim espantava o som contínuo dos ventos que cada vez mais se confundiam com o uivar de lobos famintos.
Se seu pai fosse vivo, provavelmente morreria agora. "Que sorte a dele ter falecido antes!" Pasha disse para si mesmo, pois em comparação, morrer em casa soava bem melhor do que ser ceifado em combate nas fronteiras.
Correu um pouco, ainda sob o temor de acabar devorado por criaturas noturnas.
Sua memória não conseguia recuperar com precisão os detalhes que envolviam Iuri, talvez porque o homem nunca se aproximara muito do filho. Pasha tentava puxar a lembrança do rosto do pai, mas só conseguia recordar do cheiro de cigarros de palha que infestava a casa sempre que ele a adentrava, além dos cabelos brancos que denunciavam a diferença exorbitante de idade dele em relação a Tânia.
Finalmente avistou o portão baixo de metal no fim do caminho. Suspirou aliviado no momento em que a maior casa que conhecia até então, apareceu ao alcance de seu campo de visão.
Pavel se deu ao luxo de parar para observar as cúpulas banhadas pelos resquícios do sol e a enorme quantidade de espaço que a casa ocupava. Nem parecia real, sentia como se chegasse a um mundo onde tudo tomava proporções gigantescas, ou como se ele próprio encolhesse diante ao ambiente.
Conforme se aproximava, o menino encarava as porta duplas de madeira. Seu instinto inicial foi pular até conseguir alcançar a aldrava e anunciar sua presença, no entanto, a ideia se extinguiu pois chegou a conclusão que provavelmente um adulto atenderia e os adultos não eram capazes de compreender nada.
Se agisse de acordo com a demanda social das visitas, o mandariam embora e passaria a noite junto aos lobos.... O vento soprou novamente, e como fizera durante o caminho, Pavel interpretou o som como o uivo das feras famintas e se encolheu em temor.
Notou, então, as janelas por onde transpassava uma luz amarelada de lampiões. Procuraria por Mikhail através dos vidros e pediria ao outro rapaz que lhe abrisse a porta ou que lhe deixasse entrar, assim, não precisaria invadir e nem passar pela supervisão estúpida dos mais velhos.
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Um Conto do Leste
Historical FictionRussia, 1914, a revolução bate na porta e o pânico da Primeira Guerra Mundial se espalha por toda Europa. Neste cenário nasce uma improvável amizade entre Mikhail de oito anos, filho de uma família de aristocratas, e Pavel, um camponês da mesma idad...
