As folhas de outono, conservadas na neve, desmanchavam-se sob os solados gastos das botas. Ali, a estrada já nem possuía mais uma forma certa, tomada completamente pelo capim alto que no verão chegava até a cintura, mas que agora, não passava de uma mistura de vegetação seca e novos brotos verdes que surgiam na terra fértil.
Os cabelos de Pavel eram naturalmente colocados para trás, deixando mais a mostra os ossos destacados de seu rosto. A pele esbranquiçada pela falta de luz durante o inverno não resplandecia ao sol como de costume, pois a sombra das árvores o cobriam. Mikhail o observava vez ou outra; erguia seus olhos em direção a figura conhecida e buscava uma forma de decifrar aquele enigma contido na expressão do companheiro de aventura.
As sobrancelhas grossas de Pasha não se encontravam arqueadas e sim completamente alinhadas sobre seus olhos distantes, ali Mikha constatava a melancolia já habitual; a tristeza que dominava Pavel e o puxava para longe.
A singularidade na expressão do rapaz não provinha das orbes castanhas, feitas de tempestade enfraquecida, mas sim dos lábios que carregavam um sorriso particularmente indecifrável. Uma elevação estranha dos cantos da boca que divergia de todos detalhes formadores de seu semblante. O traço não demonstrava apatia, felicidade, malícia ou qualquer outra coisa que um sorriso supostamente denúncia.
"O que há?" a pergunta ficou na mente de Mikha e nunca saiu por seus lábios, pois naquele momento sabia que mesmo se externasse o questionamento certamente não teria uma resposta satisfatória.
Tal visão lateral desviou Mikhail de angústias tão ressoantes nele durante a volta ao lar. Sobre o que pensava Pasha? Quais eram os motivos que o entorpeciam? Quantas vezes se viu tentando decifrá-lo nos últimos meses? Por que nunca tinha as respostas diretas que recebia anteriormente? Saudades do tom sincero e revolto que ressoava como tormenta na voz adolescente.
— Já pensou sobre a morte de Lenin? — a questão estranha assustou Mikhail que brevemente acreditou na possibilidade de seus pensamentos terem sido indevidamente invadidos.
— O que tem a morte de Lenin?
As notícias sempre demoraram para chegar na aldeia em estações amenas, no inverno então, a desinformação era ainda pior. A morte do líder do partido bolchevique, no primeiro mês daquele ano, só foi ouvida pelos habitantes da vila no fim de fevereiro, semanas depois do ocorrido, quando os intelectuais da União Soviética já se dividiam entre Trotskistas e Stalinistas.
— Lembra que alguns choraram como se o falecido fosse da família? — Pasha seguiu o raciocínio difícil de acompanhar.
— Pois muitos choraram quando souberam que o Czar foi fuzilado — Mikha rebateu, ainda sem compreender o fundamento do tópico abordado.
— É estranho, não acha? Quando se chora por quem não se conhece! — Pavel continuou.
— Mas Lenin era o nosso líder — colocou Mikhail — é normal! As pessoas se comovem com a morte de um líder.
— Ainda assim é estranho. Passamos as vidas colocando homens em pedestais, idolatrado-os sem ter sequer uma mínima ideia das coisas. — Pasha ficou em silêncio por um instante, organizando seu raciocínio — Por um acaso alguém que conhecemos já conversou com Lenin? Eu não chorei ou senti o luto pela morte, sabia que haveriam consequências e me preocupei com elas, mas não me senti triste. Você também não estava triste, eu suponho.
— Algumas pessoas tendem a ser passionais do que as outras — Mikha deu de ombros, pois a resposta lhe parecia óbvia.
— Então, segundo o que diz, algumas pessoas sentem mais do que as outras? — lá estavam as sobrancelhas arqueadas de Pasha e a expressão de dúvida que fez Mikhail sorrir com ares tolos.
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Um Conto do Leste
Ficción históricaRussia, 1914, a revolução bate na porta e o pânico da Primeira Guerra Mundial se espalha por toda Europa. Neste cenário nasce uma improvável amizade entre Mikhail de oito anos, filho de uma família de aristocratas, e Pavel, um camponês da mesma idad...
