Capítulo XI: Sobre os Anos e os Crimes (Parte 1)

835 105 37
                                        

Por um tempo houve música. Uma canção que refletia tudo... os bons momentos e as preocupações que desapareciam facilmente, fosse através de uma resolução permanente ou da falsa sensação de que o mundo sempre arrumaria um jeito de consertar os detalhes imperfeitos.

Existiam sim coisas que Pavel e Mikhail não conseguiam evitar: medos remanescentes, novas culpas e a realidade, sempre muito fria, como se o inverno se recusasse a deixar os continentes. Apesar disso, a dissolução que se passava no verão eterno do apartamento de Pasha, ressoava mais forte. As harpas da orquestra da vida: lutando contra a tristeza da sinfonia, impondo notas angelicais à marcha regida pelo caos.

Aos poucos, a paz que existia no cômodo pequeno se estendeu para o resto. Pasha e Mikha encontravam-se no bonde e tentavam não sorrir ao se reconhecerem na multidão de trabalhadores. A lembrança dos beijos proibidos, dos abraços, dos corpos unidos fazia nascer na alma as famigeradas borboletas que voavam e voavam, faceiras, como em um jardim colorido pelas mais diversas flores.

Voltavam para casa conversando habitualidades, agiam como irmãos, pois a irmandade ainda existia, inabalada e até fortalecida pelo sentimento de liberdade. Não havia o que esconder um do outro, já não existiam assuntos impossíveis de tratar, as barreiras ficaram em ruínas, com seus restos tomados pela relva fresca de um dia novo.

Os momentos sozinhos demoravam a acontecer. Rondava o perigo da desconfiança dos vizinhos e Mikha tinha seus afazeres e responsabilidades. Em suma, eram irmãos por mais tempo do que amantes. As noites juntos eram raras, raras e únicas, como os tesouros. Aproveitavam da expectativa... as peles ardiam, as almas imploravam, mas nada disso era ruim. Na verdade, a demora para aproveitarem-se dos prazeres carnais fazia cada noite se transformar em ode, ode ao passado, ao presente e ao futuro. Cada momento, cada segundo era digno de um verso escrito pelo maior dos poetas.

Quando acontecia, transcorria em naturalidade... sem um plano, sem um passo a passo préviamente combinado. Deixavam, sem pressionar, que o mundo se alinhasse nas condições perfeitas e então viam-se nos braços um do outro... em algumas épocas ficavam meses sem ter aquele tipo de contato e isso não feria a alma, pois ainda eram irmãos, ainda existia o sentimento inexplicável que os acompanhava desde a infância.

O mundo sofria no meio de uma crise, as coisas se mostravam difíceis para todos, inclusive para Mikhail e Pasha, mas com a liberdade soava também a esperança e ela vagava entre os dois, os deixava mais felizes em todos os âmbitos... a confissão de uma verdade por muito tempo negada, por muito tempo mantida em segredo.

— Estes tempos eu sonhei que você se tornou um gato... um gato preto e peludo, de olhos azuis — Relatou Pavel, em uma das noites em que passou ao lado de Mikhail. — Ficou fugindo de.mim, pulando de telhado em telhado, até que eu desisti de te chamar... então, você parou na minha janela, ficou me encarando com olhar zombeteiro.

O mais velho, com um sorriso no rosto, ajeitou-se na cama enquanto relatava as imagens criadas por sua mente. Lá fora, a neve caía e o vento forte assobiava contra o telhado antigo da casa. Uma beleza estranha se desenhava no mundo prateado, o frio não os afetava naquela noite, estavam enlaçados, um de frente para o outro, pois assim podiam se encarar nos olhos, podiam se beijar e manter o contato entre as pernas.

A preguiça que sucedia a satisfação, por vezes, os calava na calmaria... ou os fazia externar coisas tolas, banais e que se alinhavam de maneira sutil ao momento, como um abraço.

— Que sonho ridículo! — Mikha respondeu bem-humorado. — Não gosto de gatos, tenho medo deles. Petyr costumava dizer que eram bruxas disfarçadas... e Tânia dizia a mesma coisa.

— E meu sonho que é ridículo?! — Pavel arqueou a sobrancelha, fingia indignação. — Me diga, quando você viu uma bruxa se transformar em um gato?

Um Conto do LesteHistórias para pegar e não largar. Descubra agora