Capítulo IV: O Tratado

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Pavel mudou-se para a casa no dia exato em que as chuvas anunciadoras da primavera começaram. As tempestades castigavam as ruas moscovitas por semanas e quando firmou o tempo, mesmo o oxigênio parecia diferente, bem como o sol primaveril e os dias que tornavam-se cada vez maiores.

Encontravam-se, Pasha e a família de Mikhail todos os dias, na cozinha ou na hora da saída para o trabalho.

O recém chegado não demorou muito para afeiçoar-se a Pétia, o filho mais velho de Mikha. Enquanto Tatyana mantinha-se sempre um pouco tímida e distante, o rapazinho, muito mais comunicativo, demonstrava interesse pelas histórias que seu tio tinha a contar, bem como não podia vê-lo sem fornecer a Pavel um detalhado resumo sobre a semana na escola.

Em algumas noites, quando davam sorte, Pavel e Mikhail pegavam o mesmo bonde após a jornada de trabalho, voltavam para casa conversando, geralmente sobre algo cotidiano, ou então, relembravam algo ameno vivido nos campos, como os dias dedicados à leitura, as corridas dos trigais até a isbá onde moravam, os jantares, as noites conversando perto ao fogo...

Nasceu, assim, do amontoado de todas aquelas coisas, uma convivência harmoniosa e singular: algo que não era falso, mas também não permitia que vivessem toda a intensidade... pequenas alegrias moderadas, pequenas demonstrações de afeto, feitas por meio de sorrisos, por meio de olhares, sempre escondidas sob o pretexto da irmandade.

Era bom viver assim, da doce covardia da negação. Tudo era simples... o trabalho árduo na construção seguido de um jantar com os vizinhos, as datas de folga comum onde, na companhia dos filhos e da esposa de Mikha, Pasha recobrava o senso de viver em família e, de certa forma, começava a sentir-se parte da dinâmica comum dentre os moscovitas.

Haviam também os momentos sozinho, em que Pavel via-se em seu apartamento de solteiro... sua nova cama, a escrivaninha velha que Nasekomoyev lhe dera, os livros secretos, que em algumas noites, Pasha retirava de baixo do assoalho.

Acabara de ler os poemas em russo, mas das duas obras em francês, Pavel desconhecia mesmo os títulos e, mais de uma vez, pegou-se folheando os volumes com uma curiosidade feroz de decifrar o que aqueles grafemas distintos significavam.

Um dia, em ocasião do aniversário de três anos de Tatyana Mikhailovna, Pasha encontrou a oportunidade de pedir ao irmão o caderno deixado por Petyr Karev, aquele contendo em suas primeiras páginas, ligações básicas em língua francesa. Mikha, como sempre fazia em relação a única herança física de seu passado, desconversou, disse que não lembrava ao certo onde tinha deixado e seguiu a conversa para outros rumos.

Pavel duvidou, Mikhail nunca esqueceria do paradeiro de um objeto tão importante, mas não voltou a insistir. Deixou a situação passar em nome da nova ordem, da nova rotina fisicamente pesada e emocionalmente leve.

Mas, nada dura para sempre e para que se sustente a harmonia, é preciso quebrá-la de vez em quando. Além disso, a vida é mutável e nem mesmo o mais preciso dos tratados pode se manter eternamente. O que Pavel e Mikhail faziam, era subestimar a capacidade do mundo de levá-los para fora da zona de conforto e isso começou a se provar em uma noite, quando voltavam para casa, lado a lado no bonde.

Pasha, em pé, olhava pela janela e via a movimentação das ruas com o pôr do sol, quando, destacou-se em sua visão, um rapaz de cabelos loiros e pernas longas, que corria desesperadamente atrás do bonde, como se pegar a condução fosse a coisa mais importante de sua vida.

Pavel manteve os olhos naquele ser, torcia por ele, torcia para que ele conseguisse se agarrar a uma das pilastras depois de tanto empenho, apostou consigo mesmo, pensou em externar o pensamento e comentar com Mikhail, parado ao seu lado.

Um Conto do LesteHistórias para pegar e não largar. Descubra agora