Interlúdio: A Queda do Mundo

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"Pela primeira vez saboreei a morte. Tinha um gosto amargo. Pois a morte é nascimento, é angústia e medo ante uma renovação aterradora."

Demian - Hermann Hasse

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1930, União das Republicas Socialistas Soviéticas

Era um daqueles eventos dos quais Pavel Iurievitch jamais participaria, no entanto, inesperadamente, ele estava lá, cercado pela pompa das moças vestidas de preto, com seus véus de renda escura cobrindo os rostos tão pálidos quanto a neve que as cercava.

No meio, mergulhado entre os ramos e os lírios, jazia um caixão e em torno dele as pessoas se reuniam com seus trajes de luto da época imperial... até o próprio Pasha, que nunca em sua vida abandonara as vestes de mujique via-se ali, arrumado como um conde ou um príncipe... sem os cabelos demasiadamente longos, sem a barba lhe tomando o rosto, sem a magreza doentia daquele último ano.

Ele abriu caminho entre a pequena multidão, quase podia sentir contra as mãos a renda negra dos vestidos nos quais acidentalmente esbarrava... o cetim tão escuro quanto o céu noturno, o veludo lhe acariciando a pele... uma beleza seca, que ressoava a mortalidade humana.

Perguntava-se repetidamente quem era o defunto e julgava, em seu interior, que pela pompa deveria ser alguém importante... importante e desconhecido, pois os rostos que ali estavam provinham de cenas tão arranhadas e remotas em seu subconsciente que Pavel sequer podia resgatar o momento exato em que os viu pela primeira vez.

O vento polar soprava e jogava a neve contra as vestes dos presentes, mas ninguém se importava, ninguém ali estremecia ou sentia o frio daquele ápice de inverno, bem como não havia uma única pessoa usando agasalhos e todos agiam como se estivessem no interior aquecido de um salão, não no meio do bosque branco e mortificado.

Mas... quem era o falecido? Pasha ainda não conseguia ver... tentou se aproximar mais porém, repentinamente, um círculo perfeito formou-se, deixando em destaque um único senhor, parado diante ao caixão, na mesma extremidade onde posicionava-se a cabeça oculta do defunto.

Pavel observou aquela figura: tão ávida de cor que confundia-se com a neve... no semblante, olheiras fundas jaziam de forma que não seria loucura deduzir que o homem dormiu junto ao carvão. Os cabelos, oleosos e curtos, também mantinham aquela mesma cor e sobre os ombros o cavalheiro carregava um manto inglês que cobria-lhe até os pés... "A Morte" pensou Pasha, vislumbrando o mesmo ser que, em sua imaginação, aproximava-se do lenhador: aquele personagem distante, vindo da fábula contada por Mikhail anos antes.

Ele desviou o olhar temeroso e escondeu-se atrás da multidão, no entanto, toda vez que encontrava um ombro alheio para servir de muro, a pessoa na qual ele buscava esconderijo afastava-se, deixando-o mais uma vez cara a cara com o ceifeiro... achou que viveria nesta sina de fuga eternamente quando um som terrível soou mais alto do que qualquer outra coisa.

Um estrondo tão forte que retumbou pela mente de Pasha. Ele, então, voltou a olhar para sua personificação do fim e quando o fez, percebeu que a aparição lhe apontava um fuzil engatilhado... Pavel espremeu os olhos, ouviu outro disparo.

Quando ergueu novamente as pálpebras, encontrou um cenário diferente... não estava mais no estranho funeral, e sim em sua casa, deitado ao lado da mãe, perto do fogão aceso cuja chama tremulava diante as suas vistas.

Tentou acalmar a respiração ofegante, mas foi impossível, pois poucos segundos após despertar do sonho ouviu novamente o som ensurdecedor de tiros e percebeu que eles não faziam parte de seu subconsciente, mas que eram reais.

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