Capítulo VII: Uma Conversa

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Quando subiu as escadas que davam em seu apartamento, Pavel recordava das lições de francês que, antes do jantar, recebeu da camarada Evgeniya Artyomovna. Pasha levou consigo o dicionário e o alfabeto da língua latina, acreditando que os materiais lhe seriam úteis naquele primeiro momento.

— O senhor deseja apenas ler ou pretende aprender a falar, também? — perguntou Evgeniya assim que o aluno lhe mostrou o que trouxe consigo.

Pavel teve de considerar e decidiu, por fim, que gostaria de aprender a falar também, tanto pela curiosidade quanto para ler em voz alta os livros para Mikhail e, talvez, conversar com Nikítin em língua estrangeira, apenas por diversão. Além disso, a ideia de apenas saber ler, sem conhecer a sonoridade das palavras parecia matar um pouco a experiência, pois se aprendeu algo com os poemas de Pushkin era que algumas leituras eram melhores quando se compreendia o som para além da simples grafia.

— Se o camarada vai aprender a falar, então esqueça esse dicionário e o alfabeto pela próxima semana. Não tocaremos neste primeiro momento em relatos escritos.

E assim, ele passou a tarde a repetir e decorar frases e fonemas em francês e no momento em que chegou em seu apartamento, voltou a repeti-las mentalmente, como forma de manter o conhecimento na memória: "Comment vous vous appelez?" "Je m'appelle Pavel" "Et vous habitez où?" "J'habite à Moscou" "Quelle heure il est?" Pasha olhou para o relógio que jazia sobre sua escrivaninha. Eram oito horas e vinte minutos, mas ele não sabia responder sua própria pergunta ainda.

Parecia pouco, mas para um dia... ainda mais depois de tantas correções e do tempo levado para que o rapaz compreendesse (ou ao menos tentasse compreender) algumas diferenças simples.

Pasha sentou-se na cama. Voltaria às suas lições durante a próxima folga, mas pretendia arrumar um jeito de estudar mais antes, pediria ajuda a Klaus quando o encontrasse.

Ele sentou-se diante a escrivaninha, repetiu mais uma vez as frases e pegou o livro que Nikítin lhe emprestou: a tradução amadora de Leviatã de Hobbes. Passou algum tempo mergulhado nas filosofias das primeiras páginas e quando distraía-se na leitura, ouviu um barulho no alçapão "É Mikhail!.

Levantou-se, abriu a entrada e observou o jovem senhor terminar de subir as escadas em caracol e, como já começava a tornar-se tradição, ele trazia embaixo do braço uma garrafa de bebida pela metade e dois copos.

O mais velho dos dois, tomado pela empolgação das lições da tarde, sequer conseguia recobrar os problemas e inseguranças das horas anteriores. Tudo o que passava por sua cabeça eram frases simples em uma língua estrangeira.

Comment vous vous appelez? — Pavel pronunciou de forma um tanto desajeitada e carregada pela inexperiência.

Mikhail estreitou as sobrancelhas em resposta. Deixou os copos sobre a escrivaninha e começou a servi-los de bebida.

— Então você começou a fazer aulas com a camarada Evgeniya Artyomovna — Mikha sorriu brevemente, sem responder a pergunta.

Comment vous vous appelez? — Pasha insistiu.

— Mas que besteira, você sabe meu nome! — o visitante revirou os olhos e tomou o copo na mão, antes de seguir para seu posto já rotineiro na cadeira diante a escrivaninha.

— Não seja estraga prazeres — Pavel riu brevemente antes de imitar Mikha e, após segurar o recipiente que continha a bebida, sentou-se em seu lugar, aos pés da cama.

Je m'appelle... — Mikha fez uma pausa e limpou a garganta antes de continuar — Karev, Mikhail Andreyevitch.

Há quanto tempo não usava aquele nome? Quando apresentou-se pela última vez utilizando a alcunha verdadeira? Ele não conseguia recordar ao certo, mas pensava na infância e a ideia de pronunciar mais uma vez os fonemas aprendidos nas aulas tão detestadas abriu nele um precedente para retomar a lembrança do antigo aristocrata.

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