O mês de Julho chegou junto aos dias mais quentes do verão. A noite quase não existia naquelas épocas, de forma que, muitas vezes ia-se dormir com o sol ainda em pé.
Moscou mergulhava na claridade, os casacos raramente se faziam necessários e o trabalho tornava-se mais árduo diante ao suor. As fábricas mantinham o ritmo constante, as obras da metrópole se mostravam cada vez mais avançadas, rumando a capital soviética a uma modernidade surpreendente.
Nikítin, como moscovita, chegou inclusive a comentar com Pavel, em uma das noites que passaram juntos:
— Chegará o ponto em que me perderei no centro da cidade onde nasci — o rapaz parecia empolgado, não indignado, ao dizer tais palavras — Li que o plano é que Moscou se torne a maior cidade do mundo... mais moderna do que qualquer metrópole européia.
E ao julgar pelo número de projetos anunciados pelo governo, realmente, parecia que rumava-se para tais lados. Recentemente, começou a se falar da construção do que seria, segundo os jornais, uma das maiores linhas de trens subterrâneos do mundo.
— Um dos professores de Nikolai está envolvido no projeto — contou Klaus — Diz que será exuberante. Ainda demorará alguns anos para se concluir, segundo o que me contaram, mas mal posso esperar!
E inspirado nesses assuntos sobre urbanização, Pasha começou a interessar-se pela história da cidade. Nikítin lhe emprestou alguns livros sobre o tema e Iurievitch passou a ler a respeito de um passado presenciado apenas pelos mortos.
Quando chegou as leituras que tratavam da invasão napoleônica, Pavel convidou Mikhail para que cumprissem a tradição de conversaram no apartamento do primeiro. Remontavam, em voz baixa (para não serem ouvidos por ninguém) uma linha cronológica que envolvia a história dos Karev: a lenda familiar de como chegaram as vastas terras rurais que abrigaram o clã até a extinção do nome.
Divertiam-se com tais assuntos, riam, dedicavam-se ao passado, evitavam questões dolorosas e mantinham-se longe do ocorrido no primeiro de maio, mas ainda que a situação não lhes pesasse na convivência, a consciência, por vezes, teimava em gritar certa culpa em ambas as partes do enredo.
Dedicavam-se, então, como forma de combater tal culpa, à leveza e não cobravam nada um do outro... "se um dia algo acontecer, assim será, mas quando se trata de nós dois, é preciso que o mundo se alinhe em continuidade e atmosfera perfeita. Se tentarmos criar isso de maneira artificial, qualquer coisa nos serviria para causar novas mágoas", escreveu Pasha, diante ao seu novo hábito de anotar situações antes que elas o sufocassem.
E naquelas semanas, as páginas tornaram-se abundantes na vida de Pavel, não só pelos livros e escritos, como também por conta das lições semanais de francês.
Passado o período de introdução, agora, o rapaz já dedicava-se, a decifrar pouco a pouco a escrita da língua estrangeira. Sua boa memória, certamente, o auxiliava e encantava a professora, que surpreendia-se com a falta de necessidade em recobrar conteúdos passados.
— Tive uma aluna como o camarada uma vez — Evgenia explicou um dia — Uma pequena prodígio... pena que o senhor não pode se instruir a tempo de frequentar uma universidade... daria um ótimo intelectual.
Por falar em estudos acadêmicos, no início do verão, Nikítin começou sua residência em um hospital do centro. O futuro médico, sempre que encontrava-se com Pavel, agora, dedicava-se a falar de sua experiência entre os enfermos, o que tornava os encontros dos dois recheados de novidades e conversas, que emendaram-se aos temas dos livros lidos por Pasha.
O par passou a se ver uma vez a cada duas semanas de trabalho, com exceção dos períodos em que o pai de Klaus encontrava-se em casa. Pavel, na véspera de sua folga, sempre rumava para a casa pequena, passava a noite por lá e deleitava-se com os momentos cercado pelo único ambiente onde sentia-se completamente livre de suas próprias restrições.
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Um Conto do Leste
Narrativa StoricaRussia, 1914, a revolução bate na porta e o pânico da Primeira Guerra Mundial se espalha por toda Europa. Neste cenário nasce uma improvável amizade entre Mikhail de oito anos, filho de uma família de aristocratas, e Pavel, um camponês da mesma idad...
