Capítulo IX: Almas de Papel

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Mikhail engajou-se  mentalmente em um monólogo interno sobre vergonha, inspirado pelos capítulos de Anna Karenina, lidos ao lado de Pavel Iurievitch durante a tarde.

A primavera se aproximava e os rapazes combinaram o fim do inverno com os primeiros momentos do livro que provavelmente não conseguiriam concluir até o fim da estação. Isso porque decidiram que seria melhor ler antes os contos de Tchekhov: engajarem-se em narrativas mais curtas para treinar e então encarar o quilométrico romance. 

 Sentavam-se os dois à mesa, geralmente em lados opostos. O calor do fogo tornava a atmosfera receptiva e fazia da leitura uma atividade mais prazerosa. As tardes consumiam-se entre letras e parágrafos. Um mundo inteiro se construía em algumas horas: ruas desconhecidas, pessoas inexistentes, situações fictícias que causavam aflições reais e todas as coisas que faziam as horas transcorrerem mais depressa do que Mikhail e Pasha gostariam.  

Tânia mantinha-se quieta, ocupada em suas próprias diversões. Em dias mais amenos, a senhora enroupava-se mais do que o habitual e caminhava até a casa de Dasha, para conversarem. Do contrário, entalhava com habilidade algumas figuras de madeira ou quando conseguiam papel, ela buscava carvão e desenhava belas imagens que queimava logo depois, sem deixar ninguém ver.

Na tarde em questão, Tânia decidiu que atravessaria a neve e passaria a tarde com a amiga. Os meninos sequer conseguiram focar suas atenções na saída da matriarca, pois já mergulhavam no mundo distinto e alheio descrito diante deles. 

Coordenaram desde o principio a atividade da seguinte maneira: cada um leria uma página em voz alta, assim acompanhariam a história ao mesmo tempo e poderiam conversar sobre o enredo sem disparidade. A regra funcionou bem e eles a adotaram para todas as leituras que faziam juntos.

O livro, por hora, encontrava-se diante a Pasha e apesar de certa dificuldade em palavras difíceis, ele já conseguia expressar-se bem, de forma que a cada dia, sua leitura tornava-se mais fluida. Mikha tinha os olhos fechados e os ouvidos bem atentos, para não perder nada e conseguir montar as situações mais precisamente. Vez ou outra distraía-se e perdia o fio dos pensamentos, no entanto, nunca admitiu ou pediu para Pavel repetir as passagens.

— "Vronsky era um homem moreno, de compleição robusta, de rosto belo e bondoso, excepcionalmente sereno e firme. Em seu rosto e em sua figura, desde os cabelos negros aparados bem curtos e o queixo recém-raspado até o uniforme largo e novo em folha, tudo era simples e, ao mesmo tempo, elegante..." — leu Pasha.

O rapaz fez uma pausa mais longa e Mikha abriu os olhos, acreditando que fosse sua vez de recitar, entretanto, logo sua suposição partiu. Pavel mantinha o dedo indicador no meio da folha para marcar onde parara e ao invés de fitar as palavras, tinha  as orbes castanhas sobre Mikhail. Dedicava a ele toda sua atenção, vestia no amigo o tal uniforme largo e o imaginava cercado de pessoas em uma festa, tal como o personagem Tolstoiano.

— Parece você — comentou o filho de Tânia com casualidade, antes de continuar como se nunca houvesse parado.

Agora, após a chegada de Tânia, enquanto faziam a refeição, Mikha não conseguia afastar de si a vergonha agridoce causada por aquela expressão de Pavel.

Não se imaginava mais como um aristocrata e a figura de Aleksander Vronsky se mostrava distante da dele: algo que talvez se tornaria, se os tempos fossem outros,  alguém que detestaria ser, pois o mundo inteiro dos bailes e das riquezas afastaria Pasha e Mikhail nunca conheceria Tânia, Dasha ou qualquer pessoa da realidade atual.

 A única coisa capaz de lhe causar verdadeiro pesar, era a falta que sua mãe e seu irmão faziam, de resto, podia conviver com a escassez de alimentos, com a pobreza e com o frio, as pessoas valiam a pena.

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