No ano de 1917, após a revolução, a Russia tornou-se um dos primeiros países da europa a descriminalizar a homossexualidade. Na época, certamente houveram opositores à medida literalmente revolucionária, ainda assim, prevaleceu a ideia de que tal tipo de situação não dizia respeito ao governo. Anos mais tarde, em 1934, no entanto, foi aprovada uma lei, criminando novamente a homossexualidade masculina. A pena para o homem que fosse descoberto no ato era de cinco anos em campos de trabalho forçado na Sibéria.
Foi a notícia da recriminalização, dada por Nikítin naquele início de noite, que levou Pavel novamente às crises, aquelas mesmas crises que ele havia julgado superadas. O medo se estendia pelo ambiente e aqueles três homens, reunidos no apartamento de Pasha, sofriam todos de um pânico latente, como se uma sombra espiã os perseguisse e estivesse prestes a roubá-los da segurança falsa das quatro paredes.
— Não sei se devemos correr o risco. — Disse Klaus, um tanto receoso, para um Pasha que o encarava com ares perdidos, como se não fosse capaz de compreender o significado das palavras ditas pelo outro. — É melhor nos afastarmos por um tempo. Eles tentarão demonstrar serviço nos primeiros meses. É melhor sermos discretos... e digo o mesmo para os dois... sei que no papel vocês são irmãos, mas... é só um conselho.
Nikítin não conhecia toda a história. Não sabia da origem aristocrática de Mikhail. Para Klaus, Mikha fora adotado pela mãe de Pasha e apenas isso, de forma que, o primeiro segredo de Karev ainda mantinha-se oculto no passado, nas memórias apenas de Pavel, Nasekomoyev e do próprio Mikhail.
— Klaus... — Pasha chamou com a voz ainda um tanto falha. — Somos amigos...
Vagou o silêncio no apartamento. Nikítin engoliu a seco, não encarou Pavel, ao invés disso, seus olhos analíticos voltaram-se a Mikhail, agora escorado na escrivaninha, fitando a cena com ares perdidos de quem buscava esconder, atrás das máscaras habituais, o medo... todo o pânico que tomava seu ser.
— Continuaremos sendo amigos, Pasha... mas não é seguro nos vermos, pelos próximos meses, depois... não posso colocá-lo em risco... nem a você e nem a Nikolai... e acredite, tenho medo só de pensar qual será a relação de Nikolai, ele é mais...
O complemento perdeu-se na voz de Nikítin. Ele sentiu um aperto no coração ao lembrar da figura do rapaz que o acompanhava desde os primeiros anos da faculdade. Dizia a si mesmo que tratava-se do apego amigável, apenas a simples combinação rotineira de preocupação aos que lhes eram caros.
— Se vocês dois querem um conselho — Klaus disse, ao passo que levantava-se da cama, preparando-se para ir embora. — Deveriam... parar com o que vocês fazem, não porque é errado, mas porque o mundo é injusto. O correto seria vivermos nossas vidas sem que Stalin tome conta do que fazemos ou deixamos de fazer, no entanto... para vivermos nossas vidas, primeiro, precisamos nos manter vivos, por mais redundante que essa frase possa soar. Não adiantaria de nada congelarmos na Sibéria...
Pavel secou as lágrimas, Nikítin, mais sério que o normal, com ares de quem sofreu uma grande derrota, colocou o chapéu sobre a cabeça e pegou sua maleta. Os interlocutores não percebiam, mas o jovem médico continha um pranto enraivecido... queria gritar, como um pássaro recém enjaulado, mas até seus gritos eram emudecidos pela lei que pairava no ar como um carrasco. Klaus, um homem que pensava a frente de seu tempo, com toda sua carga de conhecimento, com todos seus pensamentos que os outros chamariam de degenerados... aquele Klaus via-se atado à uma realidade que não condizia consigo mesmo.
— Nos veremos de novo, camaradas. — Disse Nikítin, antes de descer as escadas em caracol.
E os caminhos do destino, realmente, marcavam um novo encontro, mas não entre Pavel e Klaus Konstantinovitch. O mundo, ainda viria a reunir Jivago e Vronsky, mas tal situação, ainda estava dispersa na linha do horizonte, no encontro crepuscular entre dia e noite.
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Um Conto do Leste
Fiksi SejarahRussia, 1914, a revolução bate na porta e o pânico da Primeira Guerra Mundial se espalha por toda Europa. Neste cenário nasce uma improvável amizade entre Mikhail de oito anos, filho de uma família de aristocratas, e Pavel, um camponês da mesma idad...
