Capítulo V: Os Ventos de um Novo Mundo (Parte 1)

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— Klaus, você já pensou na possibilidade de acabar tomando uma surra? Não me parece muito sensato se atrasar propositalmente apenas para perseguir um rapaz que você nem tem certeza se é... como nós. — disse Nikolai Nikolaievitch

— Estou dizendo, ontem ele me encarou como se seus olhos fossem me engolir... eu tenho certeza que ele é "como nós" — Nikítin fitou seu interlocutor e dedicou a ele um olhar contendo uma seriedade aventureira — além disso, não me custa nada, só preciso deixar dois bondes passar... ele me pareceu interessante... corou instantaneamente no momento em que eu sorri para ele.

— Outra prova de que isso é insensato, o rapaz ficou constrangido... de que vale se arriscar tanto?

— Estou curioso quanto a este homem. — explicou Klaus — ele parecia perdido e eu gostei dele. Além disso, nunca estive com alguém além desses rapazes que se dizem intelectuais.

— Muito obrigado, meu caro Nikítin — Nikolai respondeu de forma orgulhosa e abraçou os livros de cálculo contra o peito — Isso é loucura... você sabe como são as pessoas... ainda mais esses homens sem instrução. Eu repito, ele vai acabar lhe acertando um soco...

— Por Deus, Nikolai, você falou como um porco... aliás, não falou, grunhiu! Se tivéssemos nascido em outro tempo, agora, estaríamos limpando os trilhos do trem... isso na melhor da hipóteses. Você fala como se fosse um maldito Romanov.

— Muito bem, mas você vai lembrar de mim quando estiver com o olho roxo!

— Isso é ciúmes, Nikolai? — Nikítin questionou, ao passo que o outro o encarava com descrença — Ciúme significa se sentir dono de alguém... Você não é meu dono!

— Eu sou seu amigo, tenho direito de aconselhá-lo quando acho que está tomando uma decisão ridícula como agora. Olhe para você, vai ficar aqui, parado como um poste, vendo os bondes passar apenas para tentar reencontrar um homem com quem você acha que flertou com você há duas noites atrás.

— Me diga então, Nikolai, o que eu faria em casa? Não há nada além dos livros, nada além do sofá e do leito. Eu preciso de um pouco de diversão, como todas as pessoas do mundo... preciso de uma aventura.

— Ele era tão bonito assim? — perguntou Nikolai.

— Esse não é o ponto. Beleza é outra dessas criações ridículas, como o ciúme!

— Você é muito radical com suas ideias de criações sociais, Klaus — comentou Nicolai.

Nikítin suspirou, cansado de se explicar. Não adiantaria, não com Nikolai Nikolaievitch. Aquela residência do outro em abandonar os argumentos geralmente era muito bem-vinda nos debates de cunho filosófico, no entanto, quando o assunto atingia alguma questão mais pessoal, tal característica se metamorfoseava na mais irritante das coisas.

— Eu vou para casa... em breve terei as provas de cálculo para me preocupar. É importante, ao contrário do que o camarada acredita, estudar arduamente para as provas. Eu não pretendo deixar um prédio ruir e o senhor deveria se preocupar com os livros de anatomia... não queremos que corte os pacientes de maneira errada. — Nikolai empregou o linguajar formal propositalmente, apenas como maneira de espinhar Klaus, que ainda o ignorava.

O primeiro bonde passou e, como anunciado, Nikítin deixou que a condução passasse pelo ponto sem fazer nenhum sinal para tomar o meio de transporte. Nikolai suspirou, mas permaneceu ao lado do amigo, sem mover-se para rumar para casa. Diante a tal gesto, Klaus Konstantinovitch ergueu as sobrancelhas e, um tanto desconfiado, voltou-se ao outro rapaz, como para averiguar o significado de sua permanência.

— Achei que você ia embora...

— E eu vou, no próximo bonde.

Nikolai manteve-se parado, um tanto contrariado, mas o que poderia fazer? Nikítin, como sempre, o levava para aquelas situações arriscadas, para aquelas enrascadas certeiras. Não importava o quanto as filosofias de Klaus se opusessem, Nikolai não podia contrariar a si mesmo... ainda que sua presença não mudasse nada.

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