Capítulo VIII: Dias Tempestuosos (Parte 2)

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Anya Belbogovna desatou o lenço e no reflexo do espelhinho trincado observou os longos cabelos negros como o céu noturno tombarem sobre os ombros. Ajeitou-os com os dedos, sem deixar de reparar na projeção partida de seu rosto arredondado. 

Viera de fazer sozinha seu dejejum. Sua mãe saíra para visitar a casa vizinha e Anya aproveitou-se do momento de privacidade: serviu-se de pão, sentou-se à mesa e vagou pelas entranhas de sua mente sem que houvesse quaisquer barulhos para interrompe-la ou atrapalha-la.
Não reclamava de dividir praticamente tudo com a mãe, no entanto, por vezes, gostava da solidão e do silêncio proporcionado pela ausência de outras almas no mesmo espaço.

Um suspiro pesaroso apareceu na respiração de Anya. Atrás da própria imagem, viu no reflexo, Natasha Kuznetsova (mais conhecida nas redondezas pelo apelido de "Dasha") passar pela porta do aposento e adentrar o recinto com uma lentidão travada. Acreditou que a mãe ainda demoraria fora e planejou usar os momentos que tinha para si em atividades que fugiam de sua rotina comum.  

— Como está o filho de Tânia Kresnikovna? — a moça mais jovem perguntou, ao passo que prendia os cabelos em um coque.

Dasha deu de ombros e sentou-se na cama. As consequências dos anos de trabalho insalubre começavam a refletir-se na saúde da senhora e embora nunca reclamasse diretamente de dor, Anya conseguia captar a dificuldade nos movimentos cada vez mais letárgicos de sua mãe.

— Dizem que andou no meio da tempestade há dois dias e depois entocou-se perto do fogo. Pediu para se atacar da garganta! Onde já se viu?! Esses meninos de Tânia, ainda vão matá-la! Um está na cama, ardendo em febre e tossindo como um cão e o outro, parece um espectro, pálido, sem dormir, sentado ao lado do doente, como uma viúva ao lado do caixão do marido. — respondeu Dasha, buscando por alguma coisa no criado mudo.

Enquanto ouvia a mãe, Anya procurava por suas linhas deixadas em uma cesta de palha. Os trabalhos manuais não a agradavam, no entanto, obrigava-se a executá-los, pois as pessoas amavam seus bordados e muitas vezes os trocavam por farinha, carne, grãos ou coisas importantes do gênero.

— Mas vai sobreviver? — Belbogovna ergueu a sobrancelha. Sentava-se em uma cadeira de balanço, relíquia de família assombrada por fantasmas de mães exaustas que tentavam ninar os filhos recém nascidos.

— Provavelmente, mas não tenho certeza. Tânia contou que ela e o bastardo passaram a noite anterior tendo de trocar as compressas de água. Comentou que o doente chegou a delirar de febre. Hoje, no entanto, acordou um pouco melhor, comeu e até veio com suas sandices comuns. Ainda assim, Tânia e o rapaz saudável estão virados em dois mortos exauridos. Não sei qual dos três parece mais abatido.

Anya colocou o tecido no bastidor¹ e pegou sua agulha para tecer, com a habilidade que não gostaria de possuir, a figura de um pássaro azul.

— É por isso que passaremos nós duas a noite na casa de Tânia, cuidaremos do doente para que ela e Mikhail Iurievitch durmam — concluiu Dasha.

A notícia da mãe gerou na garota um olhar de recusa. Parou de balançar-se e entreabriu os lábios para protestar, no entanto, desistiu antes de proferir sequer um som. Não cometeria a insanidade de contestar Dasha Kuznetsova, ao invés disso concordou com a cabeça e suspirou pesadamente. Sua noite já estava decidida e nada podia fazer quanto a isso.

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Quando a tardinha chegou lá se foram as duas até a casa de Tânia Kresnikovna. Correram para se esquivar da garoa e levaram, em um embrulho, metade de um pão, distrações banais para a noite e mais alguns ingredientes aleatórios que Natasha usaria para preparar mais um de seus terríveis remédios caseiros.

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