Interlúdio: O Purgatório ( Parte 1)

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"Dizia-me o guia: Tranquiliza-te, não está longe o porto seguro.  Ao Purgatório, por fim, chegaste. Um muro o limita. Aquilo que aparenta ser falha no muro é a entrada" 

A Divina Comédia: Purgatório, Canto IX- Dante Alighieri

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Pavel Iurievitch sentia o cheiro da fumaça escura que subia ao céu diurno, ouvia os estalos da madeira se partindo, mesmo que as brasas se apagassem aos poucos diante aos flocos de neve que começavam a cair, cobrindo gradualmente aquela enorme mancha de sangue onde, durante a invasão, foram deixado os mortos.

Já não havia mais ninguém ali, nem sinal dos kulaks e os vizinhos sobreviventes fugiram. O lar simples da vida de Pavel já não existia, bem como todas as coisas de seu mundo.

No momento em que saiu dos bosques, (exausto, com frio e sem conseguir somar os pensamentos) Pasha quase caiu sobre a neve do que antes consistia nos fundos de sua casa, isso porque ele sedia e a cada passo lutava contra a gravidade que o tornava lento.

Ainda assim, mesmo com toda a decadência, Pavel adotou o mesmo método utilizado durante todo o caminho de volta: deu a si mesmo uma meta em passos a serem percorridos antes do descanso, desafiava-se a seguir em frente e por algum motivo isso funcionava, ao menos até certo ponto.

Enfim encontrou o peitoril da janela pela qual ele e a mãe escaparam na noite anterior e ao fitar a parte interior da casa foi atingido por um estranhamento provindo da confusão mental, que impedia Pasha de digerir as informações dadas por seus olhos.

Os invasores demoraram a perceber a casa devido a localização mais recuada e próxima a floresta, mas apesar do atraso, chegaram ali pouco tempo depois da fuga de Pavel e Tânia e revistaram cada canto antes de concluir que os moradores já deveriam caminhar pelo bosque.

Garantiram, então, que os que escaparam não voltassem a habitar o local e reuniram os móveis e os colchões em uma pilha, feita bem ao centro da isbá e atearam fogo, em seguida voltaram a outros afazeres e deixaram que as chamas fizessem seu trabalho.

No entanto, como aconteceu nas últimas casas invadidas, o combustível não foi suficiente para colocar tudo a baixo, de forma que, embora o interior estivesse coberto de fuligem e houvesse um enorme buraco no teto (que pendia para os fundos, ameaçando cair), a estrutura ainda mantinha-se em pé.

Dos móveis restava apenas esqueletos, cinzas... nada que pudesse ser aproveitado, ainda assim, Pasha, quando adentrou o local, procurou inutilmente dentre os restos seus livros e as cartas de Mikhail, ambos perdidos para sempre, transformados naquela fina poeira escura que aderia a pele.

Ele afastou alguns destroços, até encontrar um lugar para descansar, entre a bancada e o fogão, feitos do mesmo material que o alicerce e portanto, mais resistentes às chamas. Pelo buraco do teto os flocos de neve chegavam ao interior e tocavam a pilha de escombros... o cheiro de fumaça era terrível, de forma que Pasha via-se com vontade de tossir o tempo inteiro.

Os olhos do rapaz tornaram-se vítreos como um rio congelado, a respiração voltou a inconstância ao passo que as cenas das horas terríveis vividas lhe passavam pela cabeça, não como se estivessem no passado, mas como se acontecessem naquele instante, em um ciclo que Pasha não conseguia quebrar.

A mãe imóvel, os gritos do vizinho calados pelos tiros, os corpos arrastados pela neve... Pasha se encolheu em posição fetal e abraçou os joelhos. Não sabia o que fazer... era um ser impotente no mundo.

Uma crise de tosse apareceu, ele ordenou-se a levantar e buscar por uma pá, cumprir a missão que o levou até ali, no entanto não conseguiu se mover, ao invés disso, reviveu as cenas uma a uma, sem chance de escapar... lembrou do pesadelo, tão leve perto da realidade, o chamou de premonição, mesmo que a racionalidade instável aparecesse para dizer que naqueles dias não era absurdo sonhar com a morte.

Um Conto do LesteHistórias para pegar e não largar. Descubra agora