Pavel Iurievitch,após a aula de francês, viu-se tentado a estender sua folga e ir até o apartamento da família de Mikhail. Ao passar diante a entrada do lar, inclusive, fez menção a tomar o rumo da porta e deferir sobre ela algumas batidas.
Sentar-se na sala de estar dos vizinhos, beber um copo ou dois de álcool, ouvir os exibicionismos infantis de Piotr, falar com Anya a respeito de qualquer habitualidade e ver-se cercado pela sensação familiar de pertencimento...
Em qualquer outro dia não encontraria hesitação, mas depois da noite anterior, mesmo a ideia de permanecer entre as paredes da casa alheia soava cruel, como se fosse uma serpente, escondida na pele de um próximo.
Certamente, a cena se configuraria em uma estranheza ímpar: Anya e as crianças alheios ao motivo do desconforto, enquanto Pavel e Mikhail trocariam olhares culpados e nutridos de um receio impossível de domar.
Poderia aproveitar-se do dia longo de verão e caminhar até a casa de Nikítin. Conversar com o amigo a respeito do assunto... entrar nas pessoalidades, como forma de buscar um contento na confusão. Mas desistiu, não sabia se Konstantin (o pai de Klaus) encontrava-se em casa, não sabia se Nikolai Nikolaievitch estaria por lá - e Nikolai detestava Pavel, pelo mesmo motivo que Mikhail detestava Klaus.
Assim, viu-se ele na única saída possível: retornar a seu apartamento... talvez tecer algumas anotações, talvez dormir. Na cozinha, até poderia aquecer um pouco de sopa, mas não sentia fome e além disso, correria o risco de encontrar por lá Anya e não saberia como conversar com ela.
Andou até seu corredor. O murmurinho vinha dos apartamentos... palavras incompreensíveis, abrigadas pelas paredes da casa. Pegou, no bolso, a chave e quando ergueu os olhos para o vão (onde ficava a escada em caracol) deparou-se com Mikhail Iurievitch, postado onde a luz do corredor quase não podia revelá-lo.
— O que faz aqui? — Questionou Pasha.
— Precisamos conversar — Respondeu o senhor.
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Quando abriu a janela do apartamento, Pavel notou no rosto muito pálido a vermelhidão de um pranto contido. Além disso, os olhos de nuvem carregavam um certo tom desnorteado, que beirava o psicótico. Os ombros do anfitrião tencionaram-se e ele viu-se aterrorizado pela cena.
— Sente-se... e acalme-se... — aconselhou Pasha, receoso no que poderia vir nas palavras que se seguiriam.
— Estou perdido... — Mikha respondeu, sem aceitar o convite.
O visitante escorou-se na escrivaninha e olhou ao redor, antes de voltar novamente às lágrimas.
— Não sei a quem recorrer — prosseguiu — Não posso... não consigo lidar com duas vidas... não é comum para mim.
O senhor foi direto ao assunto, sem encontrar em seu ser sufocado, a forma de nutrir delongas. As horas do dia lhe tomaram todas as forças e, entre o fingimento, a obrigação em segurar o pranto e dedicar-se a família como se nada tivesse acontecido lhe custaram toda a capacidade de vestir suas máscaras.
Deixou que as lágrimas chegassem no instante em que viu-se oculto pelo vão do corredor e só conteve-se ao ouvir passos contra o assoalho de madeira.
— Mikha... — Pavel suspirou pesadamente e aproximou-se um pouco, mas não ousou tocar a pele alheia, não queria piorar a situação.
— O que fizemos?
— Nada! Se é assim que você quer... eu nunca mais falarei do assunto, se essa é sua vontade.
Mikhail negou com a cabeça. O fingimento também o arrancava do conforto. De qualquer forma, em todos os caminhos possíveis, se via perdido, completamente sufocado, aguardando por algo que não chegava ou sequer existia. Quando se veria livre? Quando viver se tornaria simples? Ouvia tanto, durante a vida, se falar em harmonia, mas tal conceito (básico à priori) desenhava-se no passado... ou nas metades distintas de sua vida.
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Um Conto do Leste
Historical FictionRussia, 1914, a revolução bate na porta e o pânico da Primeira Guerra Mundial se espalha por toda Europa. Neste cenário nasce uma improvável amizade entre Mikhail de oito anos, filho de uma família de aristocratas, e Pavel, um camponês da mesma idad...
