Moscou, algumas semanas depois.
A neve finalmente parou de cair, após quase uma semana de incessantes tempestades noturnas, capazes de macular o sono com o soprar uivante do vento contra as frestas das edificações antigas que preenchiam o quarteirão.
Já anoitecia e as velhas casas da nobreza - divididas e adaptadas em apartamentos populares pelo governo - conheciam o acinzentado peso de um crepúsculo nublado: o mago soturno que metamorfoseava os adornos arquitetônicos deslumbrantes em um conjunto de emaranhados macabros nas fachadas históricas.
Mikhail costumava chegar em casa sempre por volta daquele mesmo horário, junto com alguns outros vizinhos, que como ele, trabalhavam na fábrica de munição para as armas do exército.
Apesar do grupo viver praticamente sob o mesmo teto, não costumavam nutrir muitas conversas durante o percurso de volta, ainda mais com o frio, pois se já era difícil respirar quem dera conversar.
O que restava, então, ao jovem senhor era a companhia da vista, as luzes acesas e a carga cotidiana de sua rota comum, esta que consistia em andar até o bonde, amontoar-se entre os demais operários e, por fim, caminhar ainda mais um pouco até chegar aquela espetacular construção que abrigava um total de vinte famílias.
Pode soar absurdo em um primeiro momento: abrigar vinte famílias no que outrora foi o lar de um único clã de nobres, no entanto, é preciso se levar em conta o tamanho do imóvel antes de tecer qualquer ideia sobre a vida que os novos moradores levavam.
Dividida agora em quatro núcleos, aquela única construção erguia-se suntuosamente entre as demais. Sua fachada imitava os palacetes franceses, com sacadas, arabescos e colunas gregas: um resquício da Moscou tolstóica, tão revivida por Mikhail e Pavel nas páginas de Anna Karenina.
Antes da revolução, a casa pertenceu a um casal de idosos: um príncipe e uma princesa, de famílias tão antigas que perderia-se horas analisando as árvores genealógicas... inclusive, embora Mikhail sequer desconfiasse desta informação, a senhora, agora exilada com seu marido no exterior, possuía lá atrás, em um ramo distante de sua ancestralidade, parentesco com os Karev... um casamento com a prima distante do avô de Mikha, ou algo do tipo, não importava, não mais.
Fato era que os príncipes possuíam muito dinheiro e precisam exibir isso: o padrão da antiga alta sociedade. Por tal motivo, construíram aquela moradia gigantesca, com oito quartos de dormir, sabe-se lá quantos salões, escritórios e mais uma centena de funções que se pode inventar para um aposento.
A fim de que se tenha uma ideia mais precisa do tamanho do prédio, basta lembrar que, segundo as leis soviéticas, cada adulto tinha direito a dez metros quadrados de moradia, ao passo que as crianças tinham direito a cinco.
A família de Mikhail, por exemplo, ocupava o que antes foi uma das salas de música da princesa e mais um quartinho que deveria outrora servir a um dos empregados. Viviam bem no espaço que tinham, embora compartilhassem a cozinha e o banheiro com outras quatro famílias, que habitavam o mesmo núcleo que eles.
O maior incômodo, sem dúvida, era a falta de privacidade: barulho de alguma arrumação no apartamento ao lado, as brigas conjugais, as crianças chorando, entre outras mais diversas situações do dia a dia. No entanto, ao mesmo tempo que davam-se as ocasionalidades, existia também um grande senso de união entre os vizinhos, uma força comunitária rara que jamais poderia nascer em uma realidade diferente.
Na ala em que Mikhail morava, a gerente era Evgeniya Artyomovna Borkowskaya, senhora solteira que nos anos de juventude foi professora em um liceu para meninas e que agora, além de cuidar das necessidades daquela parte do prédio, arriscava-se a lecionar algumas aulas extras para as crianças e adolescentes com problemas para compreender os cursos de gramática e literatura na escola. Mikha nutria por ela uma enorme simpatia, pois sempre que a encontrava em uma das áreas comunitárias, como por exemplo, o antigo jardim de inverno, conseguia uma conversa polida sobre os assuntos acadêmicos, abandonados pelo rapaz em um passado distante.
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Um Conto do Leste
Historical FictionRussia, 1914, a revolução bate na porta e o pânico da Primeira Guerra Mundial se espalha por toda Europa. Neste cenário nasce uma improvável amizade entre Mikhail de oito anos, filho de uma família de aristocratas, e Pavel, um camponês da mesma idad...
