Interlúdio: O Purgatório (parte 2)

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A penumbra emoldurava o rosto de Pavel Iurievitch: o semblante de ares perdidos demonstrava ainda estupefação diante a tudo o que seus sentidos presenciaram durante um espaço tão pequeno de tempo.

Já não tremia de frio, mas não conseguia livrar-se da neve manchada de sangue, que voltava-lhe de forma constante a memória, pois sua mente já não o obedecia... nenhum pensamento o destraía completamente, nada o afastava do mundo real... as cenas imaginadas dos livros pareciam-lhe fúteis e os bons momentos do passado serviam para atrair mais uma vez, repetidamente, sempre as mesmas coisas... Pasha via-se restringido a sobreviver no presente, o presente que o expulsava, onde o vazio engolia o mundo.

Nas orbes castanhas, a tempestade aquietava-se, sem as trovoadas da audácia, sem uma chuva das lágrimas... Os olhos, geralmente vivos como chama, sucumbiam a quietude incomum feita de vidro que impediam mesmo as demonstrações de cólera diante a morte de Tatyana Kresnikovna.

Sentado, com as costas apoiadas contra a parede, o rapaz abraçou os joelhos doloridos da caminhada. Embora o corpo aquecesse aos poucos, os pés pareciam incapazes de receber calor, mesmo com as botas de inverno. Pavel preocupava-se com o estado em que seus dedos inferiores estavam, de forma que vez ou outra colocava-os em movimento dentro do calçado, para testar se ainda os controlava e para levar sangue à extremidade de seu corpo.

Pasha permaneceu algum tempo executando aquele exercício aparentemente tolo. Ainda sentia os pés gelados, mas um peso lhe saiu dos ombros ao perceber que conseguia mexer os dedos inferiores, ao menos isso, sua construção física permanecia, até certo ponto, intacta.

Mudou a atenção, então, para as mãos e retirou as luvas queimadas e sujas para observar os dedos superiores. Pavel buscou decifrar se a pele já perdia a cor azulada, mas a tarefa tornou-se impossível perante a pouca luz. Uniu, por fim, as palmas calejadas e as levou em direção aos lábios, onde tentou aquecê-las com o calor que emanava de sua respiração.

Horas mais cedo, Pasha encontrava-se praticamente insciente, nas ruas vazias da vila grande. Foi quando um homem o encontrou. Um senhor, de pelo menos cinquenta anos que fugia e escondia-se junto a um pequeno grupo de pessoas, todas instaladas pelos cantos daquela isbá.

Pavel sequer foi apresentado as alcunhas de seus companheiros e os traços na penumbra pouco lhe eram distintivos, de forma que a presença dos estranhos, por mais que fossem seus salvadores, causava nele uma dificuldade em pregar os olhos ou relaxar os ombros tensos. Parecia-lhe que todos os humanos se mostravam inimigos em potencial, demônios disfarçados de anjos, lobos de bela pelagem brincando inofensivamente com a matilha até sentirem o cheiro do sangue e mostrarem as presas.

Passou o restante da noite sem conseguir dormir, mesmo com o desgaste físico. Ora os sons alheios lhe perturbavam, ora as sombras em sua cabeça se alastravam ou simplesmente via-se a ponto de voltar às crises nervosas, de forma que precisava ouvir seu consciente, explicando-lhe milimetricamente como respirar em ritmo normal.

Só conseguiu engajar-se no sono na noite seguinte, em uma nova casa, quando o corpo cansado de Pasha venceu a batalha contra as imagens inquietas e ele, poucos minutos após conquistar um lugar, fechou os olhos por pura exaustão e deixou-se dormir, apesar dos esforços da ansiedade, que como uma torturadora, pretendia mantê-lo sempre no pior estado possível.

Na terceira noite nevou e ao não encontrarem durante o dia um bom lugar para ficar, o grupo decidiu que permaneceria ali, no mesmo "acampamento" da noite anterior: um risco ao qual viam-se obrigados a correr vez ou outra, segundo o que foi dito ao rapaz.

— A fumaça da chaminé pode atrair invasores ou soldados, mas ficar sem o fogo é impossível, por isso mudamos de lugar na maioria das noites — comentou uma das senhoras do grupo ao entregar a Pavel a refeição noturna rala que mais consistia em água quente do que qualquer outra coisa. Ela buscava integrá-lo na discussão a qual o restante se dedicava, mas Pasha agiu do mesmo jeito dos outros dois dias: agradeceu o alimento com um aceno de cabeça e voltou a seu voto de silêncio.

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