Talvez, Pavel não tenha escolhido a melhor forma de contar para a família sobre sua partida. Ele viria a repensar seus atos com a distância do tempo e assim, montaria em seu antro uma cena que só existiria para ele e que jamais substituiria a realidade imperfeita. Ainda assim, não sentiu-se culpado, pois conseguia entender que diante a situação imediata tudo fica embaçado pelas emoções a flor da pele.
Chegou ao apartamento familiar antes da rotina de trabalho e estudos dos demais acabar, de forma que se viu sozinho naquele lugar geralmente tão tumultuado pela vida cotidiana - pelo vai e vem dos cinco indivíduos que ali residiam. O lar, agora, parecia mortificado e ao mesmo tempo dotado de uma personalidade própria oculta pelas mesmas coisas que, rotineiramente o preenchiam de movimento.
O violino de Tatyana em um canto, o sofá velho que já caia aos pedaços, o armário onde guardava-se todos os tipos de coisa, os antigos brinquedos esquecidos das crianças, um casaco de Anya ou de Mikhail preso atrás da porta, o Pravda deixado de qualquer jeito na superfície da mesinha bamba, o assoalho novo daquele prédio recém construído, as paredes lisa e um copo de água deixado pela metade por alguém. Conforme os olhos de Pasha transitavam por tudo aquilo, a ideia de deixar o mundo onde os objetos rotineiros constituíam parte importante pesava e o mais importante era que, apesar de tanto tempo, ainda não se via como parte daquela dinâmica, ainda que houvesse nela um saudosismo antecipado.
Diante a presença do ambiente, Pasha posicionou uma cadeira diante da janela, no intuito de encontrar um pouco de luz em meio ao que em breve seriam os cacos de sua memória, fragmentos que poderia apagar em alguns meses, se é que teria tanto tempo para guardar pensamentos.
Abriu o vidro e as persianas, deixou que o vento do subúrbio moscovita tocasse seu rosto.
Espiou o exterior corriqueiro que, com a tarde, carregava um tom sépia de fotografia, bem como um vazio como se no mundo todos tivessem desaparecido, sobrando apenas aquelas construções banhadas pelos raios fracos de um sol que preparava-se para se pôr.
O único ser que Pavel podia avistar dali era um gato de rua. Um felino branco com manchas pretas que lambia a pata dianteira, por vezes parando o processo para erguer as orelhas em reação a algum barulho ou movimento.
Pavel logo lembrou de uma das conversas tidas com Mikhail nas noites secretas. O apartamento antigo, a privacidade, o mundo que explorava em quatro paredes. O resquício do sonho de uma fuga com Mikhail lhe causou a sensação de liberdade que logo foi sufocada pela fumaça do trem que o levaria para longe.
Seu destino era a neve caindo e o Neva cantando sua sinfonia corrente.
Assim, desistiu da janela sentou no sofá. Em meio a inquietação interna, Pavel tentava organizar suas palavras e atos. Tentava agir da melhor forma possível e não desabar, não se perder ou perder o foco na passagem rápida do tempo que voava e parecia querer adiantar sua partida.
Acabou considerando os eventos daquela tarde, sem que sequer percebesse o desvio de foco. Se a prisão de Klaus havia lhe ensinado algo, esse algo era o medo: medo de acabar como o amigo e medo de que, diante a uma possível tortura, não conseguisse esconder o nome de Mikhail (tal qual suponha que Nikitin não pode guardar para si o nome de Nikolai). Teria Klaus dito algo sobre Pasha? Seria esse o motivo de sua convocação? Ou teria sido o general... aquele general com quem conversou após a morte de Nasekomoyev? Já não sabia de mais nada e também de que valia tentar buscar explicações para o inevitável?
O destino de Nikitin e todas as coisas que abrangiam a situação atual fez com que Pavel Iurievitch tomasse uma decisão convicta: em nome de sua própria segurança e da segurança dos que amava o melhor seria partir para não mais voltar, O melhor seria deixar Mikha com seus filhos, em sua felicidade ao passo que o próprio Pavel construirá sua vida. E foi assim que, após um longo tempo de espera, quando viu toda a família reunida naquela sala após seus devidos afazeres diários, Pavel de forma direta e sem nenhum aviso apenas disse:
VOCÊ ESTÁ LENDO
Um Conto do Leste
Ficción históricaRussia, 1914, a revolução bate na porta e o pânico da Primeira Guerra Mundial se espalha por toda Europa. Neste cenário nasce uma improvável amizade entre Mikhail de oito anos, filho de uma família de aristocratas, e Pavel, um camponês da mesma idad...
