Descer as escadas demandou muito tempo. Tivemos que ir com calma, Cecilia e Emilian eram cegos recentes, por tanto não tinham a esperteza de alguém que vive muito tempo nessa condição. Principalmente Emilian que não podia escutar nem falar, ele levou um susto e tanto quando percebeu o primeiro degrau, mesmo eu o guiando pela mão e segurando seu corpinho pra que ele não viesse com tudo, Emilian pisava em falso e quase caía escada a baixo, depois de algum tempo ele foi se acostumando, eu dava dois tapinhas em seu ombro quando ia vir outro degrau e Emilian já preparava o passo bem medido e certeiro.
Ao chegarmos no fim da escadaria estávamos cansados e estressados. Mas me senti orgulhosa quando olhei pra trás e percebi o desafio que acabávamos de superar. Ivna comentou que mandamos bem e Sará arrastando-se descansou no último degrau respirando devagar. Cecilia mesmo cega comemorou nossa vitória sobre a escada. Emilian apenas ficou parado, encarando o vazio.
Eu me sentei um pouco e fiquei olhando a caverna mal iluminada, o teto acidentado, conseguia ouvir alguma goteira ao longe, a luz da tocha tremia bem de leve, o que era um bom sinal, havia alguma corrente de ar ali, talvez até um lugar de céu aberto. Retomamos a caminhada observando as sinalizações do caminho e Cecilia foi entoando uma canção sobre o gnomo cego de Valemar, era uma musiquinha para crianças e eu me lembrei de Treysa e os outros, ela costumava cantar essa musica quando eu era pequena e Alana sempre chorava na parte em que distraído com a beleza da voz de uma ninfa o gnomo cego cai do precipício e morre. Eu gostava de toda aventura do gnomo e fiquei pensando se Emilian também iria gostar daquela canção, ele vinha de mãos dadas comigo e parecia muito calmo e tranquilo, ele era praticamente inabalável, tinha se assustado no começo mas logo se recuperara e vinha tranquilo obedecendo meus comandos.
Sará reclamava de sono, o que era engraçado já que ele estava mudo, era uma mimica preguiçosa e que todos podiam entender que ele queria dormir. Ele se arrastava quase que apoiado nas paredes de pedra, um passo que mal levantava-se os pés, Ivna tirou sarro dele e Sará nem ligou, só queria deitar, se esparramar ali mesmo no chão frio e tirar uma sonequinha. Ivna reclamou de como era ruim não ouvir a própria voz, como era uma peça cruel com a cabeça, falar e saber que está falando, mas não ouvir nada nem senti aquela familiar pressão nos ouvidos.
– É como falar em pensamento, igualzinho, mas você me ouve né Plim?
Acenei a cabeça e Ivna sorriu, Cecilia gritou que sim, podia ouvi-la, esquecendo que Ivna não a escutava.
A comida que nos entregaram não era tão boa, um pão meio duro de massa folhada, mas bastava pequenas mordidas para se sentir satisfeito por um tempo, Cecilia adorou a comida, foi a única, mas mesmo assim comemos, Ivna suspirou lembrando dos banquetes em sua casa e nós sorrimos, Lembrei de como era gostoso o frango assado, o molho de laranja.
– Mas era só sonho não? – Perguntou Cecilia
Sará fez que sim com a cabeça, mas deu de ombros como que não importando, e não importava mesmo, a comida era deliciosa, sendo sonho ou não era uma maravilha. Mas Cecilia fez uma boa observação, dizendo que se era um sonho e tudo acontecia na nossa cabeça talvez o gosto da comida era diferente para cada um de nós, e realmente devia ser assim. Ivna reclamou que não podia nos ouvir, queria participar da conversa e rimos com aquilo. Sará ria sem sair som. No fim meu grupo conseguia se divertir mesmo naquela situação. Todos estavam assustados mas alcançavam risadas mesmo naquela situação, bem, nem todos. Emilian estava amuado no canto, respirando de leve, eu o observava enquanto Cecilia falava e Ivna sem poder escutar atropelava a fala da menina que esperava com calma poder falar, Sará só gesticulava e ria sem som. Eu peguei um pouco do pão e encostei de leve nos lábios de Emilian e com minha mão livre fiz carinho no rosto dele. Ele abriu a boca e deu uma dentada, fez uma careta, cuspiu o pão e fechou a boca pra não entrar mais comida. Eu insisti e fiquei passando o pão na boca dele. Ivna e os outros nos encarava, eles estavam quietos observando a cena, insisti até Emilian abrir a boca e mastigar o pão, ele engoliu com dificuldade e abriu a boca por mais, apenas me obedecendo, passei as mãos na cabeça dele bagunçando seus cabelos e ele deixou o corpo relaxar, as feições de seu rosto suavizaram-se e ele mastigou mais um pedaço de pão. Depois coloquei o cantil e ele pareceu se assustar deu uma mordida na parte dura e parou.
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Escama Negra
ФэнтезиPlim é uma órfã de dezesseis anos que odeia seu nome e detesta crianças. Depois de perder um de seus olhos num ataque com bandidos ela decide participar de uma competição especial, conseguir um dos cobiçados itens mágicos e se tornar uma cavaleira a...
