Perseguição

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Correndo por entre as arvores, a criatura meio anjo e meio demônio tentava utilizar a penumbra da noite para esconder-se do grupo de aldeãos enfurecidos que o perseguia com tochas e forcados. O motivo da perseguição não poderia estar mais longe de algo legitimo, entretanto o pobre hibrido sentia-se imensamente responsável por tudo de que o acusavam.

Farlan e Isabel estavam mortos e se não o havia feito com as próprias mãos, com certeza era o responsável pelos eventos que ceifaram as vidas dos dois, afinal, um morreu por conta de uma falha sua e o outro foi assassinado por tentar o proteger.

Os dois órfãos costumavam caminhar pela floresta em busca de frutos e foi em uma dessas buscas que encontraram o meio demônio banhando-se num rio próximo.

Ao contrario do que o ser de olhos cinzentos imaginava as duas crianças não tiveram medo dele e até mesmo o compararam com a imagem de um anjo que viram retratado numa pintura desgastada certa vez.

Passaram a encontrar-se constantemente na floresta, trocar historias e conhecimentos era o passatempo dos três e embora Levi sempre tivesse receio, num certo dia acabou por ceder aos pedidos da jovem ruiva de olhos verdes para toma-la nos braços e voar pelas redondezas. O fez longe da vila obviamente, não queria ser visto e perseguido como já ocorrera em outros momentos. O que ele não imaginava era que depois desse evento a pequena Isabel ficaria doente.

Peste negra, foi o que Farlan lhe dissera.

Aparentemente era uma doença terrível e mortal que espalhava-se rapidamente. A ruivinha havia sido a primeira infectada da vila e estava completamente isolada em seu quarto, em quarentena.

"Você poderia ajudar, cura a minha mana com seu poder de anjo!"

E Levi tentou, ele realmente acreditou que conseguiria.

Quem imaginaria que uma freira entraria no quarto com o alimento para a menina no exato momento em que o hibrido colocara suas mãos sobre ela?

Sua aparência estava monstruosa. Olhos negros por invocar um poder antigo, sua metade de trevas reagia tentando repelir a luz que corria em seu sangue numa tentativa de absorver e purificar a doença da menina. Suas veias enegrecidas saltando e marcando-se por toda a pele enquanto a escuridão tomava as penas, antes brancas, de sua asa direita; garras tomavam o lugar de suas unhas, dentes pontiagudos saltavam ainda mais de suas gengivas perfurando os lábios a ponto de fazer o sangue jorrar por sua boca e queixo de forma grotesca e, infelizmente, seu corpo permaneceria assim por alguns dias até que suas duas metades entrassem em equilíbrio novamente.

O som da tigela de barro se chocando com o chão ecoou pelo quarto, a mulher que se intitulava serva de deus estava em choque com a cena diante de si.

"Demônio! Afasta-te desta criança, a alma dela pertence a deus!"

Agua benta foi lançada contra deu rosto e corpo queimando a pele por onde escorria. Por conta de sua falha tentativa de curar a amiga sua parte demoníaca estava rejeitando tudo que carregasse uma benção divina e, no auge do pânico que o possuía, tomou a garota nos braços e alçou voo pela única janela que o cômodo tinha.

Permaneceu escondido no inicio da floresta com a menina inconsciente apoiada em seu peito, tentando repetidas vezes usar seu poder para curar aquela doença.

Mas ele não conseguiu.

A exposição ao ar frio daquela noite de inverno apenas agravara o estado de menina que acabou por dar seu ultimo suspiro em meio aos flocos de neve que tanto adorava. A multidão enfurecida surgiu pouco tempo depois e presumindo que ele tivesse matado a garota partiram para o ataque contra o hibrido.

Qual não foi a surpresa de Levi ao ver o Pequeno Farlan lutar para defende-lo...

E qual não foi o horror que se apossou dele quando o corpo jovem despencou sem vida diante de seus olhos enquanto o liquido escarlate jorrava de suas feridas corrompendo a pureza branca da neve.

The boy and the demonHistórias para pegar e não largar. Descubra agora