4.0 - Frases de efeito

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Dias Atuais

Leonor Charlotte Potts costumava dizer que nada acontece por acaso e que devemos ser capazes de perceber os sinais de que algo bom virá em qualquer situação. Esse era o modo de pensar que ela aprendeu com seus pais e ensinou a sua filha, Virginia Potts. Sempre ver o lado positivo, sempre buscar o "se não acabou bem, é porque não terminou ainda".

Ela gostava de frases de efeito. Pepper sempre achou que fizesse parte da grande advogada dentro dela. A mais brilhante e importante advogada de Londres. Ela certamente teria a frase mais tocante para aquele momento, que se encaixaria como uma luva.

Sua mãe não deixou de acreditar nem quando a vida lhe sentenciou à morte. "O que tiver de ser será... Vou ficar bem. A vitória pertence a quem acredita nela por mais tempo". Virginia sabia era uma citação que pertencia alguém, mas Leonor adorava citações em qualquer língua. Todo dia sua família ouvia ao menos uma.

Quando ela conseguiu ultrapassar os seis meses de vida que lhe foram estipulados pelo câncer no pulmão, a fé de Pepper redobrou e ela acreditou que sua mãe venceria, mas não era parâmetro. A mais nova acreditava em qualquer coisa que a mais velha fizesse ou dissesse.

Mas então, dez meses após o diagnóstico, ela precisou assinar os documentos para liberar o corpo da pessoa que mais amava em sua vida, enquanto seu avô tenta inutilmente lhe confortar.

Quando seu pai faleceu, Virginia era nova demais para entender o que estava acontecendo. Tinha apenas 2 anos e sempre teve sua mãe ao seu lado, até mesmo quando sentia falta de uma figura paterna, o seu avô estava sempre por perto. 15 anos depois, quando Leonor se foi, Pepper só tinha seu avô, que por também ter perdido uma filha, não sabia como ser a rocha que a ruiva tanto precisava naquele momento.

Os dois enfrentaram o luto cada um da sua maneira. Foi um período difícil, sofrido, mas como família, sempre encontravam o caminho de volta um para o outro. Agora, 20 anos depois, ela se via obrigada a dizer adeus a seu avô. A quem por tanto tempo sempre foi tudo para ela.

Olhando ao redor, procurava suas filhas. Precisava encontrá-las. Pepper sabia que as duas correram para lá assim que o hospital ligou para sua casa procurando por ela.

O motorista da família passou longos minutos ao telefone se desculpando por ter as levado até lá, mas a ruiva conhecia bem demais suas garotas para saber que ninguém as impediria de se despedirem do bisavô, mesmo ela. Preferia que as duas estivessem acompanhadas de uma pessoa de confiança do que de um desconhecido qualquer motorista de um táxi.

Andou em direção à entrada do hospital, pensando que talvez pudessem estar lá fora.

Pessoas entravam e saíam, cada uma vivendo seu próprio momento.

Algumas comemoravam nascimentos, outras lamentavam perdas como a dela.

Deixou a recepção e, quando encostou no vidro para empurrar a porta, viu alguém tocar no outro lado para entrar. Ele usou a mão fechada. Havia tatuagens em seus dedos, pequenos sinais que não reconhecia. Notou quando ele deu um passo atrás para que ela pudesse passar.

Trocaram um olhar, que não durou mais que dois segundos. Olhos cinzas, marcados de vermelho, como se tivesse acabado de chorar. O lábio inferior estava cortado e havia um arroxeado no queixo, quase encoberto pela barba por fazer. Ele puxou o gorro escuro para baixo, como se ela o tivesse pegado em flagrante, e a ruiva só pôde continuar observando pontas de cabelos castanho-claros.

Ele parou e a encarou, como se fosse dizer algo, ou pelo menos julgou que fosse. Mas então, seguiu seu caminho e ela ficou para trás.

Novamente, passou a procurar pelas filhas. Dessa vez, não levou tanto tempo, logo as viu sentadas em um banco de madeira. Elas estavam de braços entrelaçados, quase se abraçando, se protegendo do frio e se confortando.

Come Back... Be HereOnde histórias criam vida. Descubra agora